Confaloni: pela visão do homem integral
Redação DM
Publicado em 4 de junho de 2017 às 01:20 | Atualizado há 1 anoTexto publicado em suplemento cultural de O Popular, Goiânia, 4/6/1978. Reproduzido em catálogo de exposição póstuma de Frei Nazareno Confaloni na Itaúgaleria, em Goiânia, novembro de 1978.
Frei Nazareno Confaloni, além de ter sido um edificador moral e intelectual de Goiânia, foi sem dúvida o mestre e pioneiro das artes plásticas em Goiás. Foi um dos fundadores da Escola Goiana de Belas Artes, hoje transformada na Faculdade de Arquitetura da Universidade Católica (atual PUC) de Goiás.
Vindo da Itália por volta de 1952, Frei Confaloni lutou por Goiás, terra que tanto amou, não só no campo da cultura, como também no campo da ação social. Formou comunidades, educou, humanizou, lutou pelos ideais do bem e da justiça. Dedicou-se integralmente à vida goiana, aos problemas da terra.
Cidadão do mundo, Frei Nazareno sabia adaptar-se à realidade universal ou regional, jamais perdendo a noção de síntese da parte com o todo. Sintonizava-se, agia, transformava, enriquecia com sua presença o ambiente e as pessoas com quem convivia. Amou Goiás e morreu como filho da terra. Fez tudo por este chão que conhecera ainda na sua rudeza primitiva e na sua beleza agreste, e cujos tipos humanos ia transformando em personagens de sua pintura. Pintura que em certos momentos foi instrumento de denúncia e mensagem de redenção. Como pintor, jamais se separara do ideal cristão e religioso, voltado para a promoção do homem integral.

O homem, para Frei Nazareno, não significava apenas uma criatura isolada, mas uma parte integrante do seu criador. Sempre cristianizou a todos com quem convivia pelo exemplo de bondade e santidade sem palavras nem retórica. As próprias personagens de sua ficção pictórica, inspiradas em figuras do cotidiano, eram sempre espiritualizadas, vistas numa atitude de crença nos valores transcendentes. Suas cores eram claras, leves e puras, revelando serenidade e equilíbrio. Eis como se entende a serena tonalidade da pintura de Confaloni, sua aparente ou transparente inocência.
Sua pintura se constituía numa forma de querer e de poder ver o homem: mais verdadeiro, mais simples, mais humano. Uma pintura que nascia do respeito e sensibilidade pela vida, significando sempre uma proposta de nova condição para o ser: que se libertasse dessa angústia existencial de hoje, desse ritmo frenético, dessa febre de nervos que consome o homem contemporâneo. Para que o homem se conscientizasse, reagisse, assumisse o modelo de uma nova forma de viver na busca do equilíbrio e da coerência consigo mesmo e com o mundo.
Ao ler as telas de Confaloni, compreendemos que, quanto mais angustiados se tornam os nossos dias, tanto mais parece que a arte se constitua numa nostalgia de outros tempos, ou já elegia de um mundo que não existe mais. Para dizer tudo isso, ele trabalhou confiante e sem alardes, no silêncio e na humildade dos artistas verdadeiros e honestos, colocando-se sempre distante dos modismos. E por isso mesmo sobrevive com sua presença intacta, como o eco de um respiro que conseguiu salvar-se da poluição dos tempos. A sua arte coexiste em harmonia íntima com a própria natureza humana: sobreviverá enquanto sobreviver um homem sobre a terra.
(Emílio Vieira, professor universitário,advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])