Brasil

Confiança inocente

Redação DM

Publicado em 21 de julho de 2016 às 01:58 | Atualizado há 10 anos

Iam dias e vinham dias e o clima bucólico, em relação à metrópole, e, ao mesmo tempo agitado daquele pedacinho do gigante metropolitano somado a euforia pueril espalhada pelos pequenos campos improvisados em todos os cantos do bairro ia, aos poucos, embriagando-me de modo que, em pouquíssimos dias, eu já tinha acostumado com tudo, inclusive com o despertar nas madrugadas com os gritos ensurdecedores dos ambulantes vindos de fora, já que o bairro era desprovido de estabelecimentos comerciais. Nem mesmo as avenidas possuíam algum ponto de venda de produtos de qualquer natureza.

Janeiro estertorava ao lado do agonizante fim das férias escolares e todo o bairro parecia passar por um inchaço pueril ainda maior, como quem aproveitasse os últimos instantes de uma deliciosa e prazerosa diversão.

Às vezes, nos dias intensamente ensolarados, ao cair da tarde, muitos quintais, inclusive o nosso, ficavam formigados de meninos, todos ainda desconhecidos por nós. Uns jogando futebol, outros conversando e outros ainda empinando pipas de tudo quanto eram modelos, tamanhos e cores. Mas nada se comparava às aglomerações pueris pelos rústicos campinhos de futebol, feitos pelos meninos em todas as áreas desocupadas do bairro, as quais não eram poucas.

Foi numa dessas tardes de intenso calor e diversão no nosso quintal que um dos filhos de um vizinho morador numa casa numa rua próxima à avenida, de posse de uma enxada, atentou contra um menino de idade bem inferior a dele. O golpe só não foi certeiro porque mamãe intercedeu imediatamente, recolhendo a nossa enxada das mãos trêmulas do menino nervoso. O outro, coitado, só percebeu a intensão do maior quando o furioso já não mais estava de posse da ferramenta.

Logo, aquele que seria vítima da enxadada descambou sentido às ruas da parte mais baixa, deixando todos os outros para prosseguirem com as brincadeiras de meninos, inclusive o que tentou golpeá-lo minutos antes.

Depois do incidente, ficamos atordoados pensando no que resultaria aquela situação caso o menino tivesse sido golpeado. Possivelmente, viria a óbito, ali mesmo no nosso quintal! Instantaneamente!

Apesar de o menino já ter cerca de uns catorze anos, praticamente um adolescente, ainda brincava com as crianças menores, todo o tempo e comportava como tais. Horas depois, os briguentos já estavam brincando novamente juntos! Já pensou? Com isso, informamos ao pai sobre o acontecido, para que o responsável legal o orientasse a não atentar contra seu semelhante. Nesse caso, o pai que até então era desconhecido para nós, foi bastante compreensível.

Creio que, talvez, por morar por muito tempo nas regiões centrais do gigante metropolitano, onde há uma falsa impressão de que a acessibilidade à segurança e aos outros direitos constitucionais era mais bem fiscalizados acabamos nos acomodando um pouco, porém, depois do episódio, passamos a ficarem mais atentos ao mundo ao nosso redor e foi assim que começamos a ouvir com frequência, naquele novo bairro, inúmeros casos de supostos atentados contra crianças e adolescentes que, muitas vezes, confiavam naquele que futuramente seria seu agressor.

Certa vez, ouvimos rumores de que, não muito tempo após nossa mudança, um indivíduo foi acusado de ter supostamente abusado sexualmente da neta da companheira dele. A conversa que parece ter se espalhada pela vizinhança feito pólvora era que a suposta vítima tinha apenas oito anos de idade. Diziam que o fato ocorreu nas imediações de uma das casas construídas na nossa rua, porém somente ficamos sabendo através de uma imprensa sensacionalista que, na verdade, nem sabemos,  de fato, se o episódio realmente aconteceu. Contudo, uma coisa é certa: interessante, ou quem sabe, repugnante, mundialmente cultural, quando acontece um delito de qualquer natureza, mesmo testemunhas oculares, parecem não ter visto. Não foram poucas às vezes em que meninos e meninas eram reprimidos por seus próprios parentes e o vizinho, por temer represália deixar de denunciá-lo aos órgãos protetores…

 

(Gilson Vasco, escritor)

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