Confissão de um culpado
Redação DM
Publicado em 29 de dezembro de 2016 às 01:52 | Atualizado há 10 anosDor provocada pela injustiça é forte, muito forte. Não faz muito tempo, em um município goiano, à prisão um vaqueiro condenaram por homicídio que jamais praticara. Fico a imaginar o tamanho da sua dor. Um dia apareceu o verdadeiro homicida e tudo, finalmente, se esclareceu. Dizem que incomparável é também a dor de consciência. Como ficou a consciência do promotor, do juiz e dos jurados desse caso?
Pedro, depois de enfrentar soldados para defender o amado Mestre, paradoxalmente, três vezes o negou. Então a consciência, simbolizada no galo, cantou, como profetizara o Senhor. Seu coração se agitou, o peito balançou e lágrimas de arrependimento o levaram à absolvição. Pior, muito pior, incomparavelmente pior acontecera com Judas Iscariotes. Em troca de moedas, entregara o Mestre. Vilania consumada, a silenciosa juíza (consciência) o infernizou. Tentou safar-se devolvendo a pecúnia, não a aceitaram. “Meu Deus!”, deve ter bradado, e lançou fora o dinheiro. Debalde. A juíza retalhava sua alma. Deve ter amaldiçoado o dia em que do ventre se retirara. Sem ver saída para a vida, aos braços da morte se atirou, enforcando-se.
Fico a pensar nas autoridades que se aprazem na prática da injustiça e se alegram com a arbitrariedade e vedetismo. Provavelmente, suas consciências imitaram o líquido tomando o formato do seu recipiente. Quando isso ocorre, o remorso, evidentemente, vai embora.
Em 1975, uma turma do segundo ano do curso técnico de contabilidade do Colégio Estadual Martins Borges, de Rio Verde, se levantou contra o professor de Fisica, Daniel Gonçalves, porque submetera a classe à prova e o resultado fora dramático. Salvo engano meu, todos tiramos zero ou próximo de zero. A maioria não se agitou talvez por reconhecer suas deficiências. Uma meia dúzia de insensatos, dos quais era eu o mais afoito, o culpou. Tinha eu, naquela época, 30 ano, ótimo emprego, casado há quatro anos, um filho e uma filha, militava na política da cidade e na política estudantil; presidia ou havia presidido o centro cívico e gozava, dentro e fora daquela casa de ensino, fama de bom orador. Faltaram-me, contudo, naquela noite, juízo, maturidade, bom senso. Adjetivamo-lo de incapaz, ignorante, maldoso. Enfim, o chamamos pelos nossos nomes. Éramos incapazes de resolver a prova porque fôramos aprovados no primeiro grau sem saber efetuar os cálculos matemáticos essenciais à questão. A culpa era nossa e do golpe de abril de 1964 que iniciara o processo de desvalorização da escola pública. Queríamos que ele nos ensinasse o que deveríamos saber. Ele não o fez e nem tinha o dever de fazê-lo.
Há uns dez anos, assinava eu coluna de crônicas em um semanário de Rio Verde e produzi uma contando essa história e reconhecendo nosso erro, nossa infantilidade, mas nunca lhe perguntei se havia lido essa minha manifestação, mesmo porque deixara de me cumprimentar. Desejava falar-lhe sobre isso. Não me envergonho de pedir desculpas a quem, injustamente, ofendi. Finalmente, neste dezembro do conturbado ano de 2016, antes do Natal, nos encontramos na agência central dos Correios de Rio Verde. Dirigi-me a ele. Com a simpatia que lhe é peculiar me falou que ignorava a evidenciada crônica, deixou transparecer que não guardava mágoas, e que me fez sentir desculpado e, em razão disso, feliz.
Moreno, pernambucano, morou no Rio de Janeiro, torce pelo Flamengo. Parece-me que da antiga capital da República se transferiu para Rio Verde. Veio na condição de professor. Quero crer que aqui se casou, aqui se enraizou, aqui trabalhou, aqui se aposentou. Que lhe abençoem os Céus!
(Filaldelfo Borges de Lima, autor de vários livros, sócio-fundador da “Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios” e do “Instituto Histórico e Geográfico de Rio Verde”, auditor aposentado do Fisco do Estado de Goiás, filiado na Affego e no Sindifisco [email protected])