Couro limpo
Redação DM
Publicado em 7 de outubro de 2016 às 02:20 | Atualizado há 10 anosNão adianta inventar moda com pescaria. O esquema segue a regrinha de que menos é mais. O equipamento fundamental se resume em chumbada, linhas de diversas espessuras, anzóis, caniço, molinete, varas de fibra de vidro e bambu, alicate, samburá, viveiro vazado, coador, canivete, castor, e caninha, envelhecida na madeira, de preferência, ou descansada na arnica. Parece muito. Não é. O resto se ajeita.
Todo canto limpo de mato ou rede preguiçosa serve para descansar o esqueleto. Aliás, pescador que se preza dorme pouco. Peixe, bicho velhaco, não cochila no ponto. O trem é ajeitar um rancho qualquer, seja em construção de alvenaria ou no improviso da palhoça. Toda boa pescada exige ponto de acampamento. E coisa é certa: cada pescada tem sua natureza própria.
Há dois tipos mais comuns de pescaria. No barranco ou pela canoa. O primeiro caso é mais fácil, exige pouco. Basta selecionar um bom ponto do rio – geralmente próximo a uma curva ou desnível, que forme um poço profundo de águas serenas, dentro de um rebojo. Já canoa permite maior liberdade, mas é coisa custosa de se fazer. Exige piloto veterano e motor específico, dada a água de cada rio, com menor ou maior fundura.
Não se deve esperar muita frescura de pescador. O foco é peixe. Não é desfile de moda nem guarida para chamego. É troço para bicho macho por ofício – também há mulher-macho, fêmea valente que não se espanta com coisa da vida ou bicho que seja; não valem moças mais delicadas, em síntese. Assim posto, não é de se espantar a fedentina que se forma no rancho depois de uns poucos dias.
Numa das pescadas do Adriano teve um negócio desses. Passou duas semanas sem atritar o sabão contra o próprio couro. Em pescaria, banho é detalhe. Peão focado não se avexa com isso, verdade é dita. Quer saber é do fisgado no anzol. O resto é chorumela.
Há quem diga que fedor de sovaco mata muriçoca. O Adriano parece que queria testar a teoria – era isso ou botar fogo em esterco seco de vaca. Bem da verdade, esquecia mesmo era de tomar banho. Deixava o rancho logo bem cedo para pescar e nem se atentava para o esfregão. Mas o companheiro com quem dividia a barraca já clamava por piedade.
– Desgrama, Adriano. Vai tomar banho, diacho.
– Eu vou, eu vou…
Não ia nada. Continuava no carnição. Sem piedade alguma, do jeito que deixava o barco com a safra do dia já tombava no colchão ao cair da noite. Banho para quê? Se o sol atormentava no suador, bastava dar um tapa na caninha para refrescar. Depois, gente não foi feita para sabão. O trem leva soda e gordura na composição; estraga a pele. Melhor não. Gente é feita para água, apenas. E o Adriano ia levando o Antônio no papo.
– Infeliz, vai passar um sabão no couro.
– Depois, depois…
– Não tem esse diabo de depois. Se chegar nessa catinga à noite, eu lhe chuto fora da barraca.
Não daria mais para o Adriano protelar com o compromisso. Mas banho ocupava tempo precioso dos peixes. Meia hora perdida de uma pescada produtiva. Decidiu então que dava para engambelar. Lampião à noite é fraco; a vista é ruim. E para pescador, futum é cheiro de loja.
Houve então na ideia do Adriano de passar por limpinho. Trocou os panos velhos pelo pijama engomado; deu uma molhada nos cabelos com água cravado no copo da pinga e penteou os fios, amofinando o caos que lhes governava. Nem era de esperar cheiroso; qualquer coisa seria culpa da coberta que lhe absorvera o resíduo da transpiração das noites passadas. Então, havia o álibi. E teria outra noite a esperar pelos piaus.
– Coisa boa, Adriano. Arrancou a carniça dos macucos.
– Você pediu e está feito.
O sorriso meio lerdo do Zé passou batido. Não que o pegasse por santo. Dia seguinte, teve por bem de confessar o engodo em razão de mangação de outro pescador, que lhe dedara o golpe.
– Ah, sem-vergonha. Não tomou banho. Enganou-me, safado. Mas não se apure.
– Por quê?
– Porque agora eu me garanto.
E o Antônio afundou a fuça do Zé na água, mergulhando no rio o lombo suado.
– Se quiser entrar de novo na canoa, só com o couro escovado.
– Dá para ver que esse cara não entende nada de couro de gente.
– Por quê?
– Quanto mais escovado, mais fosco; quanto mais sujo, mais brilhante…
(Victor Hugo Lopes, jornalista)