Brasil

Credulidade e fé

Redação DM

Publicado em 27 de setembro de 2016 às 02:27 | Atualizado há 10 anos

Diz-se que a fé remove montanhas. Não só a fé religiosa, mas também a fé em ideias, propósitos e objetivos faz a diferença entre atitudes passivas e propositivas, entre pessoas que realizam e outras que se acomodam e simplesmente deixam a vida passar.

Ideias e crentes conduziram multidões nas mudanças que moldaram e continuam a moldar o mundo. Ficando nos tempos ditos modernos, lembremos a disseminação do iluminismo levando ao fim os despotismos; as certezas de astrônomos e navegantes tornando possível a descoberta de novas rotas e de um novo mundo; a convicção dos insurgentes das Treze Colônias da América, implantando um inédito sistema de governo fundado em princípios democráticos e igualitários.

Claro está que tais mudanças tiveram a viabilizá-las formuladores e líderes de personalidades e convicções fortes. As massas humanas estão sempre à espera de quem as conduza – o que muitas vezes pode levar a catastróficos dramas coletivos. Como sucedeu, por exemplo, na Alemanha de Hitler; na Itália de Mussolini; na União Soviética de Lenine e de Stalin. Sem falar em Cuba dos irmãos Castro.

Quando entram em foco dogmas religiosos faz-se difícil o exercício da tolerância. O cristianismo atravessou longos períodos de beligerância entre facções, que divergiam em detalhes doutrinários e mutuamente se combatiam e exterminavam. Em nome da “verdadeira fé”, as santas cruzadas varreram a Europa e o Oriente Médio durante séculos, arregimentando voluntários que partiam para morrer combatendo os infiéis, os adeptos do Corão.

Houve até uma incrível Cruzada das Crianças. Assim é que certo Nicholas, um pastorzinho alemão de apenas dez anos, reuniu cerca de 7.000 meninos, conduzindo-os para a Itália através dos Alpes na primavera de 2012. Dirigiram-se para o porto de Gênova, com a firme esperança de que as águas do mar se abririam para que chegassem ao seu destino, a Terra Santa. Como isso não aconteceu, o contingente dispersou-se: alguns regressaram aos seus lares; outros seguiram para Roma ou para Marselha, onde possivelmente foram vendidos como escravos.

Em que pese o fato de que muitos buscam sinceramente a fé, nos dias de hoje proliferam igrejas que parecem estranhas e seus nomes, ininteligíveis. Com todo o respeito: no meu entendimento irremediavelmente limitado, não consigo vislumbrar, por exemplo, o porquê de uma “Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo”. Ou de outra que se autodenomina “Igreja Bailarinas da Bênção Divina”. Numa lista que circula na Internet, vejo denominações que acenam com conteúdos explícitos tais como: “Igreja da Bênção Mundial Fogo de Poder”; “Igreja Batista Incêndio de Bênçãos”. Há também as que assinalam fins programáticos, como a “Igreja Evangélica de Abominação à Vida Torta” – o que quer que isso signifique. Perplexa, pergunto-me, quais serão os fundamentos teológicos da “Igreja Pentecostal Marilyn Monroe”, ou da “Igreja Batista Moça Bonita”?

No que diz respeito à manutenção e ao funcionamento de tantas congregações, bispos, pastores e acólitos, sabe-se que a cobrança de dízimos tem possibilitado a existência de reverendos multimilionários e templos magnificentes, de discutível suntuosidade e gosto duvidoso. Apela-se para a generosidade e a credulidade dos fiéis, gente humilde e crédula, que pensa estar comprando a salvação eterna com donativos e esmolas para o Senhor. Algo semelhante ao que aconteceu há séculos, no escândalo das indulgências que levou à rebelião de Lutero e ao cisma protestante. E, igualmente, à Contra Reforma e a profundas mudanças ulteriores na Igreja Católica.

A humanidade só muito lentamente absorve as lições de sua própria história. Certo é que, neste nosso mundo em parte agnóstico e ateu, proliferam milagres. Com a precisa indicação do nome de quem irá operá-los, assim como do lugar em que ocorrerão, com hora marcada. Tudo anunciado em folders, cartazes e outdoors – inclusive avisando ao crente que deverá pagar pela graça que vier a pedir.

Circula na mídia a notícia de que, em certa igreja milionária, o fiel pagou a taxa de milagre com o cartão de crédito e teve atendido o seu pedido. Mas esqueceu-se de liquidar a fatura do cartão; consequentemente, o milagreiro não entrou na posse do dinheiro. Pelo que tal santidade cancelou o milagre!

Assalta-me a dúvida: que milagre seria esse, cassável dias depois de ter acontecido?

 

(Lena Castello Branco, escritora. E- mail: [email protected])

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