Crise, criatividade, medo e cultura
Redação DM
Publicado em 5 de agosto de 2016 às 02:12 | Atualizado há 10 anosToda vez que uma crise aparece logo surge o jargão “na crise, crie”. E dessa vez não foi diferente:memes no Facebook substituem o “S” por um cifrão ($), consultores aproveitam para divulgar suas palestras sobre o tema, artigos são reciclados e publicados no LinkedIn, enfim… tudo leva a crer que crise combina com criatividade.
Só que dentro das empresas não parece ser bem assim. Aliás, nos corredores do mundo corporativo, o fenômeno parece ter efeito contrário. Com medo de perder seu emprego nas reduções de quadro ou na substituição de pessoal por headcounts de menor custo, muita gente prefere se “fingir de morto”, afinal, a ousadia pode custar caro.
É nesse momento que o desafio da cultura organizacional surge com força e a turma do RH (dito a responsável pelo tema nas empresas) começa a tentar entender por que a campanha com ideias sobre como vencer na crise não decolou.
Seria esse paradigma um paradoxo? Ou seria esse paradoxo um paradigma?
Trocadilhos à parte, crise e criatividade não caminham juntas quando a cultura propicia um ambiente de medo. O processo de criação passa pelo brainstorming que prega a ausência de filtros.
Expor ideias pouco elaboradas, mas muito úteis para se chegar a algo novo e implementável, é arriscado e, numa empresa que caça motivos para justificar a demissão de alguém e se sentir menos culpada, é um risco que poucos estão dispostos a correr.
Na última ATD International Conference & Exposition (Congresso Internacional de Talent&Development) realizada em maio, nos Estados Unidos, duas palestras magnas abordaram esse assunto sob perspectivas diferentes.
Em uma delas, o consultor inglês Simon Sinek, conhecido pelo seu círculo dourado, apresentou outro círculo: o da Segurança. Sua teoria está baseada na importância de os líderes criarem um ambiente seguro para que as pessoas possam experimentar, crescer e, inclusive, defender a empresa. Segundo ele, “não é a estrutura corporativa que produz resultados, mas a confiança que as pessoas sentem umas pelas outras em trabalhar juntas”. O desafio é construir uma liderança forte o suficiente para “proteger sua equipe” e capaz de tomar decisões que podem ser difíceis num curto prazo, mas protegerão a empresa no longo prazo. Para isso é preciso coragem.
E, por falar em coragem, esse foi o tema da palestra da Brené Brown, pesquisadora que há mais de 15 anos estuda questões relacionadas à empatia, vulnerabilidade e conexões humanas. O ponto alto da apresentação foi quando ela falou sobre a coragem de ser imperfeito e a compaixão de ser primeiro gentil com você mesmo para depois ser com os outros.
Segundo ela, conviver com o fato de que você não é perfeito não significa que você aceita a sua condição e ponto final. Isso significa que, a partir da consciência que se tem dos seus desafios, as pessoas devem ser capazes de se expor de forma autêntica e se arriscar. Só assim é possível experimentar coisas novas e crescer.
Enquanto o paradigma de “menos é mais” instalado no momento de crise econômica (e alardeado aos quatro cantos) não for traduzido para o que se espera das pessoas e até onde elas podem (e devem ir), o paradoxo de que menos exposição é mais tempo sem ser notado e, consequentemente, mais tempo no emprego, pode continuar a ser interpretado.
E, como num ciclo vicioso, talentos são triturados com excesso de desafios, líderes caem na operação por falta de recursos, a inércia se instala em quem acha melhor “não mexer com o que está quieto” e o RH luta em vão pela construção de uma cultura de engajamento.
Em resumo, já que o jargão não vai sair de moda: na crise, crie. Crie um ambiente seguro e confiável onde as pessoas possam efetivamente dar o melhor de si.
(Carolina Manciola Wulfhorst, head da Escola de Vendas da Affero Lab)