Cruz metálica
Redação DM
Publicado em 7 de junho de 2016 às 02:48 | Atualizado há 10 anos
Seja grande ou pequena, uma cidade não é ilha. Pela cidade, casas, ruas, pessoas. Pela cidade, escola, lojas, botecos. Árvores não podem faltar numa cidade. Igrejas, carros e cachorros perambulando também não. Os olhos da gente se acostumam tanto com tudo isso num cenário urbano, que quando algo muda, impossível não notarmos. É quando, sem escapatória, queremos saber o que houve, como se tudo fizesse parte de cada um, sobretudo os que nasceram e cresceram no lugar. É quase terrível. Uma casa demolida ou uma árvore cortada salta aos olhos e parece sempre causar certa tristeza. Uma parte dissipada. Pois a cidade mora dentro de nós.
E aconteceu que um dia desses, eu vinha passando em frente ao cemitério de Itauçu, e dei falta de algo. De imediato, pela rapidez que vinha, não consegui decifrar do que se tratava. Voltei para casa. Sem encafifar exageradamente, prometi tentar descobrir o que faltava assim que passasse novamente perto do cemitério. Isso se tornou um pequeno desafio para a memória, jogo de um erro.
Não passou muito tempo, voltei a passar pela rua do cemitério. Decidi parar e, com mais tempo, tentar desvendar aquilo de vez. Os olhos ficaram em agonia campeando a frente do cemitério, de lado a lado, de cima a baixo. As árvores estavam no lugar. Os muros, sem mudança. Na pracinha em frente, sem alteração nenhuma. O portão, do mesmo jeitinho de antes. Talvez seja uma mera impressão, pensei tentando me conformar antes de ir embora. Mas não era possível ser engano. Vasculhei com os olhos, uma vez mais, cada detalhe. Até que: bingo! Cá atrás estava a resposta. Que distraído sou. Como não percebi antes? A cruz. Cadê a cruz? Por que tirar dali a cruz, cujo valor histórico é inestimável? Lembro-me dela desde pequeno, principalmente nas idas e vindas para o colégio. Um vazio ruim confesso ter sentido. Voltei macambúzio para casa e, mordendo de curiosidade, queria logo saber a causa da retirada. Comentando com um e outro, fiquei sabendo que a base dela, devido às velas que os devotos punham próximo, acabou queimando, comprometendo o seu prumo. Menos mal, me aliviei. Ainda bem que não foi arrancada sumariamente.
Não sei se é possível reconstituir madeira. Boa questão. O certo, a bem da verdade, caso fosse viável, seria refazer a parte atingida da cruz. De outro modo, sendo irrecuperável a estrutura, há de se pensar em providenciar outra, talhada em madeira, com as mesmas características da anterior, o que preservaria a tradição, mantendo características da cultura religiosa e uma ligação com a original. Pois bem, sinto informar que nada disso ocorreu. Uma pena. Não passou muito tempo, o que sucedeu foi que a prefeitura tratou de cravar no local outra cruz, totalmente diferente da original. Não sei de quem foi a ideia, tampouco interessaria saber, mas a nova cruz é feita em estrutura de metal, com luzes escancaradamente azuis, que de noite chega arder os olhos.
A contemporaneidade e suas modernidades tecnológicas, tão importantes para o cotidiano, não devem suplantar traços e simbologias tão marcantes para uma sociedade indiscutivelmente cristã. Não faltam motivos para que haja tal afirmação. Um deles, e o mais óbvio, é que se a cruz do calvário, onde Cristo foi sacrificado, sendo de madeira, não haveria motivação minimamente plausível nem explicação razoavelmente convincente para que houvesse a escolha do metal como material usado na cruz reposta. Outro motivo são as luzes extravagantes. Tudo bem, consideremos que as luzes embelezem o símbolo religioso, dando destaque, mas tinham que ser azuis tão arregalados? Não seria de bom tom se fosse relevada e usada outra cor, nem que fosse um azul mais comedido? Perguntinhas apenas, que soam como pequenos apontamentos, de um ponto de vista objetivo, sem que se possa dizer que haja fundamentalismo religioso.
Como se não bastasse, não demorou muito, outra cruz, agora na praça da Igreja Matriz, foi retirada. Algumas pessoas, sobretudo aquelas de raízes religiosas, não tardaram a correr para saber o porquê. A justificativa dada pelos responsáveis, difundida pelas redes sociais, foi que a estrutura desta estaria também comprometida por ações do tempo. Não passou muitos dias, condefé outra cruz luminosa de metal foi fincada no lugar.
Não me lembro de ouvir ninguém até agora dizer algo acerca das cruzes novas. Estou certo que muitos se atinaram para a inovação, percebendo desproporcionalidades, e não sei se todo mundo aprova. Se ninguém ainda não disse nada a respeito, eu digo. Digo e não perco a chance de explicar incansavelmente a meus pares, sempre quando passo perto das duas cruzes de metal, do absurdo distanciamento dessas com aquela uma, onde se acredita que tenha o filho de Deus sido sacrificado. E sem querer ser dramático, não há dúvida de que a falta das cruzes de madeira não foi suprida pelas de metal. Certo vazio fica.
No mais, seria um pecado medonho terminar sem contextualizar o presente assunto com a importante tradição dos cruzeiros, outrora tão recorrente, hoje bem menos, em que os devotos, em épocas de seca intensa, costumavam jogar água no pé da cruz. Segundo creem, esse procedimento faz com que chuvas desçam dos céus. Acreditemos ou não que funcione, faz parte da nossa história. E então, por assim dizer, topamos aqui com outro problema. Torna-se inimaginável molhar as cruzes sofisticadas. É que, sem falar dos riscos de choque por causa da fiação interna, a pele fria e rígida do metal não agradece a água como faz tão bem a madeira.
(Hailton Correa, agente prisional, graduado em Letras pela UEG campus Inhumas e escritor. Contato: [email protected])