Brasil

Da Vinci e Camões

Redação DM

Publicado em 16 de dezembro de 2015 às 22:51 | Atualizado há 11 anos

Não só Leonardo da Vinci amou a mulher do banqueiro (se não pela moeda, mas pela efígie). A mulher do sorriso mais famoso do mundo existe na imaginação de todos os amantes da beleza. Mas só Leonardo da Vinci conseguiu pela primeira vez criar a expressão plástica de um sorriso ambíguo e tão enigmático como o de Monna Lisa. Desde então, Monna Lisa del Giocondo (o nome vem do marido, Francesco del Giocondo) tornou-se o símbolo da mulher renascentista, elevada à categoria de uma Afrodite grega, de uma Vênus romana ou da musa imaginária que tem o mágico veneno capaz de transformar o pensamento do homem, como diria Luís de Camões.

Camões também idealizou sua musa na figura mítica de Circe, a mulher feiticeira que, segundo a lenda, transformou em porcos os companheiros de Ulisses, para que o herói grego permanecesse por mais tempo perto dela. Leonardo transformou uma mulher real em beleza ideal. Camões transformou uma mulher ideal em beleza real, como é o sonho de todas as mulheres. A imagem da musa de Leonardo migrou para a musa de Camões, passando da pintura para a poesia. O retrato pictórico da musa de Leonardo se insere no todo da natureza de que é parte o ser humano. O retrato poético da Circe de Camões se insere no todo da imaginação: território onde habitam as mulheres de todos os homens.

O todo da natureza se fenomeniza na sua parte – como diria o mestre Argan – parte que constitui relação harmoniosa com o todo natural, idealizado na forma perfeita. O retrato poético de Circe se insere no todo humano, particularizado pela idealização amorosa. O sorriso emblemático de Monna Lisa se insere no seu todo expressivo, como fenômeno singular que guarda relação do real com o ideal. O sorriso de Monna Lisa é um sorriso ideal, mesmo tendo como real um fundo psicológico. O todo idealizado da Circe de Camões se manifesta ou se particulariza não no sorriso, mas no olhar: num mover de olhos, brando e piedoso.

Mudado o ponto focal do olhar e do sorriso, Circe e Monna Lisa se parecem, como duas gêmeas. Ambas têm um sorriso brando e honesto, quase forçado. Ambas têm um doce e humilde gesto, que não é alegre nem triste: é discreto. Ambas trazem ligeira insinuação, retraídas por um leve recolhimento. Ambas ostentam uma pura bondade, protegidas da necessária malícia. Ambas têm a beleza e a graça, com manifesto indício da alma. Ambas têm um encolhido ousar e uma contida brandura. Ambas têm um secreto medo sem ter culpa, e um ar sereno. Monna Lisa com seu olhar interrogativo e Circe com sua contida inquietação: são duas medidas que se ajustam na mulher completa ao olhar do poeta e do pintor.

A celeste formosura de Circe apaixonou Camões. Da Vinci exaltou a força mágica de Monna Lisa. Os dois artistas tiveram a mesma sorte. Leonardo da Vinci deixou a Itália levando consigo o retrato de Monna Lisa, que foi adquirido pelo rei Francisco I da França. Seu endereço atual é o Museu do Louvre em Paris. Luís de Camões deixou Portugal para enfrentar aventuras militares – Marrocos, Moçambique, Índia – afinal voltando à sua pátria, fidalgo e pobre, onde morreu na mesma Lisboa em que nascera, qual gênio sem ventura e amor sem brilho, como dele diria Olavo Bilac.

Quanto a seus amores, guardadas as diferenças do mágico veneno de Circe e do sorriso mágico de Monna Lisa, do sofrimento de uma, que nos envolve, e do sorriso da outra, que nos interroga, as duas musas – de Camões e de Da Vinci – continuam fascinando os homens que até hoje não conseguem decifrar o poder enigmático das mulheres. Resta saber como o poeta português, que não conheceu o pintor italiano, pintou com palavras o retrato de Circe que lembra Monna Lisa, tal como o pintor compôs o retrato poético de Monna Lisa, que lembra Circe. Quem quiser conferir, veja logo a seguir o retrato de Monna Lisa e leia ao lado o soneto de Camões. Ou troque os verbos: leia o retrato que Da Vinci escreveu com linhas e cores e veja o retrato que Camões pintou com palavras e rimas.

*Um mover de olhos, brando e piedoso, sem ver de quê; um riso brando e honesto, quase forçado, um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso; um despejo quieto e vergonhoso, um repouso gravíssimo e modesto; uma pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso; um encolhido ousar; uma brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento: esta foi a celeste formosura da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento.

(Este artigo, revisado pelo autor, foi originalmente publicado no livro Italia Mater, de Emílio Vieira, Goiânia: Kelps, 2012, p. 71 a 74).

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])


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