Depois de Iris, é só bala
Redação DM
Publicado em 20 de julho de 2016 às 03:37 | Atualizado há 10 anosAs decisões mais sábias de Iris foram essas: quando entrou para a política, aos 24 anos, e quando decidiu sair dela, agora, aos 82.
Oh! bons tempos aqueles em que chegou da “pequenina Cristianópolis”, com botina rangindeira de caipira, fala arrastada de caipira e esperteza matreira de caipira.
Tanto valor, que chegou a se eleger presidente de dois grêmios a um só tempo, quando Goiânia tinha apenas quatro colégios de segundo grau.
Alardeava a pobreza com tanto convencimento que parecia filho de sitiante do êxodo rural, e cunhou o slogan de sua vitoriosa careira política:
“Venho da roça e meus pés só conheceram botinas depois dos 15 anos.”
Iris não era filho de sitiante, como parecia. Era filho de fazendeiro rico. Mas era caipira no jeito, no andado, na fala e, principalmente, na matreirice e na ambição.
Aos 24 anos, se elege o vereador mais votado de Goiania e se torna presidente da Câmara.
Oh! bons tempos aqueles: Mauro Borges, o major Mauro, em campanha para se eleger governador de Goiás em 1961. Iris é candidato a deputado do seu lado, mas ninguém acreditava na sua eleição.
- Gercina, a mãe de Mauro e “dos pobres”, o convoca para, juntos, pedirem votos em Campinas, o reduto eleitoral de Iris.
“Eu levei d. Gercina em meu próprio carro, um fusca”, conta Iris, para lembrar o seu desprendimento. “Paramos em um posto de gasolina para abastecer. D. Gercina abre a bolsa para pagar o combustível, mas eu não aceitei. Paguei a gasolina do meu próprio bolso.” Ainda hoje, Iris não cansa de repetir essa história, como prova do seu desapego ao dinheiro.
Candidato a governador, o major Mauro marca maratona leitoral pela Estrada de Ferro. A saída foi da Celg, em frente ao Lago das Rosas. Mauro reservou para os candidatos a deputados que tinham chances eleitorais carros de passeio. Para os outros, Kombi. Iris foi de Kombi.
Na eleição, em Bela Vista, o padrinho de batismo de Iris encheu as urnas de votos para ele e Goiânia também. Foi o deputado mais votado de Goiás e virou presidente da Assembleia.
O golpe militar decide tirar Mauro Borges do governo e em 26 de novembro de 64 consuma-se a intervenção federal. O coronel Carlos de Meira Matos chega como interventor.
Iris é o presidente da Assembléia, e negocia a transição com os militares, elegendo governador, pelo voto indireto, o marechal Emílio Ribas Junior, tendo o deputado estadual Almir Turisco, do PSD, como vice.
Aos 70 anos, Ribas casou-se em palácio, e serviu aos convidados os peixes do aquário e até os pavões que ornamentavam o quintal do Palácio.
Um ano depois, acontecem eleições para governador e prefeitos. Iris é candidato do PSD a prefeito de Goiânia contra o ex-governador José Ludovico, da UDN. Iris ganha de capote.
No primeiro mandato de prefeito de Goiânia, Iris revela-se o administrador dos sonhos que abre as veias da cidade pacata e suburbana para os caminhos da grande metrópole que hoje é: indenizou e derrubou centenas de casas para continuar a duplicação da av. Anhanguera, cortando Campinas, uma obra de estadista.
Abre a Av. Universitária e constroi a praça do mesmo nome. Rasga a Av. Assis Chateaubriand e implanta a Praça Tamandaré.
No aniversário de Goiânia, 24 de outubro, inauguração da Tamandaré e um foguetório sem fim, marca da carreira política de Iris.
No palanque, o prefeito, o arcebispo da cidade, D. Antônio Ribeiro, e também o construtor de Goiânia, o senador cassado Pedro Ludovico Teixeira.
A palavra estava com D. Antônio Ribeiro, o arcebispo de Goiânia. E ele elogiava o prefeito, os engenheiros Coimbra Bueno e Atílio Coreia, os operários que ajudaram na cosntrução da cidade, e até os militares do poder que nada tinham a ver com a construção da cidade, mas nada de fazer referência ao verdadeiro construtor de Goiânia ali a seu lado. E o arcebispo continuavam no iem… iem… iem… sem fim, até que o dr. Pedro toma-lhe o microfone e dispara:
“Eu quero dizer a esse padre da UDN que eu não tenho medo dele nem da Igreja, pois já enfrentei e derrotei a Liga Católica em muitas eleições.Esse padre pode continuar a ser cabo eleitoral da UDN, é problema dele, mas não aceito que ele negue ou ignore a história…”
A praça veio abaixo, e Iris, o prefeito, pediu “calma, dr. Pedro”, ao que o velho cacique retrucou enérgico: “Eu não sou moleque para ficar calado.”
O incidente político não desmerece em nada a grande administração de Iris.
Bastavam essas obras citadas para fazer de Iris o grande prefeito de Goiânia, mas ele fez muito mais. Quando assumiu a prefeitura, a ditadura militar tanto perseguia, prendia e matava, como acenava para a classe média e para os pobres com moradias.
Nessa época, fundou-se o Banco Nacional de Habitação(BNH), e corria dinheiro a rodo para casas populares e de luxo.
Iris transitava bem nos meios militares e até tinha a simpatia da ditadura pelo seu dinamismo de administrador eficiente. Não lhe faltou dinheiro para a construção de casas populares. E ele construíu milhares.
Estão aí as cidades que ele plantou: Vila União, Novo Horizonte, Canaã, Redenção. Na construção da Vila Redenção, um escândalo de corrupção em todos os graus veio a púbico – propina, extorsão e gatunagem.
Explico: a Prefeitura de Goiânia criara a Companhia Habitacional(Cohab), vinculada à secretaria da Fazenda municipal, cujo titular era Nion Albernaz.
Braga(um personagem que surgiu e sumiu de repente) era o titular da Cohab, e foi acusado de cobrar propina dos construtores do conjunto habitacional. O escândalo logo tomou conta da cidade, caiu na Câmara Municipal e na Assembléia, onde a oposição a Iris deitou e rolou.
Iris, o prefeito, mandou prender Braga. Na polícia, Braga disse que agia a mando do secretário Nion com objetivo de “fazer uma caixinha” para a campanha de Iris ao governo do Estado. Iris demitiu Nion da secretaria da Fazenda. E o escândalo terminou em pizza.
O governador do Estado era Otávio Lage, adversário político do prefeito. A partir do escândalo da Vila Redenção, consta que seus adversários montaram uma peça acusatória, levada em mãos à Brasília pelo próprio governador do Estado, e de lá trouxeram a cassação do mandato de Iris e suspensão de seus direitos políticos por 10 anos.
Para o lugar de Iris a ditadura nomeou o engenheiro Leonino Caiado, que permitiu que ele, depois de cassado, inaugurasse o parque Mutirama, uma das suas grandes obras.
No ostracismo político, Iris continuou querido e lembrado pelo povo de Goiânia. Fazia parte de um escritório de advocacia, mas nunca exerceu a profissão.
Nos Júris no interior do Estado, quando se tinha certeza da absolvição do réu, seus parceiros de escritório o levavam para a defesa oral (era bom orador) sem remuneração “para ficar conhecido também no interior, que depois da ditadura, ele voltaria à vida pública”, dizia um advogado amigo.
E voltou.
Em 82, na primeira eleição direta para governador de estado depois da ditadura, Iris convenceu Mauro Borges a não se candidatar ao governo e apoiá-lo. Mauro se elegeu senador e Iris governador. Eu estava na campanha e cheguei a fazer parte do governo.
Depois de eleito governador, Iris viajou para Mato Grosso e de lá voltou anunciando a compra de uma fazenda. No comitê da praça Tamandaré não escondia a ninguém que o dinheiro foi sobra de campanha. O negócio foi tão grande que diziam haver entrado mil cabeças de gado de “forgo morto”, já que a fazenda teria sido comprada de porteira fechada.
Na época, o senador Mauro Borges era o presidente estadual do PMDB e reivindicava a sobra de campanha como pertencente ao partido. Iris entendia que as contribuições foram doadas ao candidato e não ao partido. Daí começou o desentendimento entre os dois que durou até a morte de Mauro.
Ary Valadão fora o último governador nomeado e era um democrata de verdade. Eu ajudei a combatê-lo e fui injusto com ele, mas me penitenciei disto.
Como governador, Ary contraíra um empréstimo a longo prazo do Japão, cuja liberação dependia de aprovação do Senado Federal. Os senadores Henrique Santillo, do PMDB, e Benedito Vicente Ferreira, do PDS, sentaram-se em cima do processo, até que ele tomasse posse. Iris chegou ao governo com milhões de dólares desse empréstimo. Estendeu muito asfalto pelo Estado. O que demanda Catalão é o melhor exemplo.
O primeiro ato do seu governo em 83 foi um decreto revogando todas as nemeações feitas pelo seu antecessor, o famoso decretão que exonerou milhares de funcionários. Fechou o programa agrofrutífero de Alto Paraíso e vendeu a usina de Corumbá, um negócio cheio de segredo como se fosse clandestino. Ninguém sabe de nada. Um mistério, onde se houve falar de Wolney Siqueira e Lázaro Barbosa, dois secretários de Minas e Energia de governos diferentes.
Logo, logo colocou em dia o pagamento ao funcionalismo. Organizou um mutirão para levantar em um dia de domingo 1.000 casas populares em placas pré-fabricadas – a Vila Mutirão, e a Rede Globo de Televisão abriu espaço no Fantástico para o grande feito.
Depois, Chico Anísio esculhambou com a façanha, da maneira mais picaresca e debochada, chamando o conjunto habitacional de “pombal” e as casinhas de “fornos”.
O feito mais deplorável do primeiro governo de Iris foi o fechamento do jornal Diário da Manhã, por asfixia financeira, um atentado à liberdade de imprensa que mancha a sua biografia para sempre.
Antes de terminar o governo, Iris foi para o Ministério da Agricultura e anunciou “safra recorde” na sua gestão. No cargo, ele e o Plano Cruzado elegeram Henrique Santillo governador, derrotando o senador Mauro Borges.
Depois, em 89, Iris disputou a convenção do PMDB como candidato a presidente do Brasil, com o apoio do presidente Sarney e do Centrão, e contra os deputados Ulisses Guimarães e Waldir Pires. Foi o último colocado e não teve sequer o apoio do governador Henrique Santillo. Mas também não votou no candidato do PMDB, apoiou o alagoano Fernando Collor, o picareta mais notório da política brasileira.
Iris sai do Ministério da Agricultura, volta para Goiás e se elege governador pela segunda vez, graças a um acidente que quase lhe tira a vida. Foi eleito em uma cama de hospital, com novenas de rezadeiras alugadas, repetindo contritas na televisão “ave-marias”, apesar dele ser protestante.
No segundo governo parece que lhe deu um branco, e muito pouco se fez. Sai do governo e se elege senador, mas teve dificuldade de eleger o sucessor Maguito Vilela, que estava perdendo a eleição para Lúcia Vânia,quando apelou para a cesta básica, isto é, sacos de comida em troca de votos.
Como senador, foi presidente da importante Comissão de Constituição e Justiça e chegou a ser candidato à presidência da Casa, mas não foi lembrado por ninguém. Nomeado ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, deixou indelével marca de sua sabedoria jurídica, ao declarar à imprensa essa máxima filosófica: “Às vezes, o crime é inevitável.”
Do Ministério da Justiça voltou a Goiás para enfrentar a sua via crucis. Em 98, tira de Maguito Vilela o direito de reeleição. Toma o seu lugar e amarga a derrota mais improvável.
Em 30 de julho daquele ano, a dois meses da eleição de outubro, pesquisa da Vox Populi, encomendada e publicada pelo Correio Brasiliense, trazia Iris com 76 por cento das intenções de votos e Marconi com apenas 6 por cento.
Iris chegou na eleição derrotado no primeiro e segundo turno. Essa derrota foi a primeira oportunidade que Iris teve de deixar a política. Voltou e perdeu de novo. Perdeu e voltou de novo, e perdeu…
Derotado em 98, viu seu nome e de sua família envolvidos em escândalo de corrupção, quando foram retirados 10 milhões de reais de servidores da antiga Caixego. Logo depois, o seu irmão Otoniel Machado foi preso e teve dificuldades de sair.
O mais grave é que foi gatunagem confessa, pois foram devolvidos cinco milhões de reais do dinheiro subtraído.
Depois disto, Iris se tornara um político apenas municipal. Elegeu-se e se reelegeu prefeito de Goiânia.
Mas reinava absoluto no PMDB estadual, um partido que chegou a ter 14 deputados federais, mas que foi reduzido a dois nas últimas eleições.
Na última convenção partidária, a maioria ofereceu a Iris a presidência do partido e ele não quis, porque não queria só a presidência, queria o partido todo como sempre o tivera.
Foi para a eleição enfrentar a juventude do partido. Perdeu feio, um vexame. Perdeu o mel e a combuca. Teve aí a segunda oportunidade de deixar a política, que a política o deixara desde o fim do século passado.
Despontava em todas as pesquisas como favorito à prefeitura de Goiânia. De maneira surpreendente, Iris anuncia a sua saída da política. Desta vez, ele não quis dar chance para o azar. Tinha tudo para ganhar, mas tinha tudo também para perder no segundo turno.
A carta de sua retirada da política é um documento triste, magoado, choroso e machucado em relação aos jovens que lhe tomaram o PMDB. Romper com a juventude no último por do sol da vida é penetrar na noite e romper também com a madrugada que vai chegar.
O deplorável nessa sua despedida é a ponta de ódio que deixa em relação aos vencedores, a seu partido e ao povo: ao PMDB nacional porque ajudou a encerrar a CPI contra Cachoeira e ao povo, porque, depois de Cachoeira, ainda votou em Marconi, derrotando a ele, Iris, mais uma vez.
PS – Iris candidato e o BBB estava bem montado nas eleições de Goiânia, pois ele representava a Bíblia e o boi. Agora, só resta o b de bala. Bala do delegado Valdir e Bala da delegada Adriana Acorsi. E o sargento Araújo acaba de anunciar sua candidatura. Vem mais bala por aí.
(Carlos Alberto Santa Cruz, jornalista)