Desde a plantação da roça, a indolência do sertanejo mostra sua imprevidência
Redação DM
Publicado em 31 de março de 2017 às 02:11 | Atualizado há 9 anos
Com a falta do que fazer, o sertanejo vive é zanzando de um lado para outro, inteiramente desprovido de iniciativa. Em vez e plantar uma roça que lhe assegure o de comer durante um ou dois anos, alguns se limitam a brocar e plantar um quintalejo com umas touceirinhas de arroz, umas covas de milho, escassas toras de manaíba para garantir a mandioca e uma ou duas moitas de cana para terem o doce de temperar o café e a garapa dos meninos.
Parece que fazem um imenso favor em plantar, não cuidando da rocinha, como se a terra tivesse mãos para cuidar de si mesma. E a prodigalidade da natureza leva a terra a produzir independentemente de cuidados.
É impressionante a indolência do sertanejo, diante de uma terra que chega a dar oitenta quartas de arroz por caneco plantado, sem depender de adubo e de cuidados outros senão o de espantar passarinhos no tempo da parição do arroz.
Mas a sertanejo prefere é ficar empoleirado nos calcanhares à beira do fogo pitando o cigarro de fumo brabo e bebendo o coité de cachaça adquiridos em troca de um dia de serviço. Só volta a plantar quando rapa do fundo da estiva o último caroço de mantimento, não se preocupando em fazer uma provisão, plantando um pouco mais do normal ou cuidando da roça quando o paiol estiver pelas metades.
A idéia de fazer provisão para as épocas de vacas magras não existe, e é fato comum o roceiro vir, na época do plantio, buscar na mão dos outros as sementes para a roça, porque não teve a deliberação de esconder umas espigas de milho, uns cachos de arroz ou duas ou três varas de manaíba da última colheita. Come até a semente.
Todo ano, na época de brocar sua rocinha de todo ano, cercada com uma tosca cerca-de-cama mode porco e bicho do mato, vai ao seu protetor pedir um corte de mato pra fazer sua rocinha de toco com pouco mais de uma tarefa.
Exemplar é o caso de um afilhado de meu pai, por nome de Pedrão, que todo ano fazia sua rocinha de mantimento. Rocinha mesmo, eitozinho de cuidar sem precisar de adjutório.
Na época da colheita, já o milho estava pelas metades, de tanto ser colhido verde para assar e para fazer curau; o arroz, mal passava a parição, era colhido e secado ao fogo, para ser pilado e comido, a mandioca nem chegava a inchar direito, que os dentes da meninada de Pedrão já lhe davam vencimento. Mesmo assim, na época de arrancar a mandioca, apanhar o arroz e quebrar o milho, Pedrão juntava gente para ajudá-lo. E no acertar das contas, a “colheita” não dava nem para pagar os ajudantes: ele ficava sem nada e ainda devendo para pagar na próxima safra. E por mais que recebesse conselhos e até carões de meu pai, Pedrão não se constrangia em voltar todo ano para pedir arroz, feijão e milho para semear a rocinha de enganoso proveito.
Pedrão era a imagem do sertanejo. Quando parece dar o estalo e um descobre que a terra dá, este vai para frente e em breve passa a ser remediado, quase rico, o independente das redondezas. Em vez de lhe seguirem o exemplo, os indolentes pegam a dizer que é sorte, que isto, que aquilo, atribuindo ao trabalhador outra coisa: foi o Capeta que apareceu pra ele e deu-lhe a sorte de botar pra frente.
Mal sabem que a sorte está ali na enxada enferrujada que só sai do canto do casebre para trabalhar para os outros, a troco de pinga e fumo.
E quando se indaga o porquê de o sertanejo não se movimentar para plantar nova roça, ele responde indolentemente:
– Quá! O que prantei ano passado inda tá dando mode cumê. Quando acabá, vou ver se pranto outra.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])