Devo descer de qual pedestal?
Redação DM
Publicado em 25 de julho de 2016 às 21:57 | Atualizado há 9 anosEu havia prometido o terceiro e último capítulo, entretanto, como o misericordioso leitor certamente deduziu, lendo o subtítulo, eu não dei conta, como costumam dizer, mais uma vez não consegui dar-me por satisfeito com esta minha defesa em relação à acusação de que estou em cima dum pedestal e que devo descer e, enfim, como não consigo vê-lo, o tal do pedestal, ainda mais porque nunca estive numa pindaíba financeira tão grande, tão imensa devido à perda de um alvará e da minha habilitação, que não consegui renovar , por causa de um problema raro na vista direita e a perda significativa da esquerda, uma cirurgia que farei nas vistas, então, prometi relembrar os meus tempos assassinando, matando, eliminando, como queiram, milhões e milhões, aliás, bilhões de pernilongos, baratas, carrapatos, pulgas, ratos e demais pragas e, lógico, concomitantemente, evitando doenças e mortes em três Estados e no Distrito Federal. Relembrar os meus tempos trabalhando na empresa que fundei, com 20 aninhos, após demitir-me da “Folha de S. Paulo”, para a surpresa de muitos, inclusive do editor geral, o Bóris Casoy, então, pedi as contas e na periferia das periferias, próximo dum lixão, pura terra, materializei o sonho de criança de ser “empresário” – já contei, por aqui, que tinha dois sonhos: ser jornalista e empresário, aliás, pensava até em ter o meu jornal através da empresa, entrementes, como comentei com o editor geral deste matutino vanguardista, o jornalista Batista Custódio, num cafezinho gostoso em sua biblioteca, em 2010, que se assumisse a editoração de um jornal, ou mesmo de um só caderno, em menos de duas semanas, tornar-me-ia assassino ou seria assassinado –, voltando, abrimos e registramos a empresa num cartório de Taboão da Serra, bem próxima da “sede”, daí em diante, com cartões de visita xerocados, começamos a luta e foram jornadas de 18 horas dormindo no domingo o dia inteiro, suando bastante debaixo dos fornos das padarias, aonde se coloca as lenhas e as baratas adoram proliferarem-se, assim como nos túneis escuros do Aeroporto de Congonhas, repletos de morcegos e similares, em madrugadas friíssimas, mas, claro, logo o nosso trabalho seria reconhecido e passamos a atuar, também, em empresas de renome nacional e internacional. Entre elas a Drogasil S.A., C&A, Mesbla, Bazar 13, Sé Supermercados, Companhia Antárctica, Pulmann e etc e, verdade, detesto utilizar-me do etecetera e estender-me num primeiro parágrafo.
Fomos pioneiros atuando em shoppings, inclusive no Shopping Flamboyant, por mais de vinte anos! Lembrei-me agora e, como se fosse agora, quando aterrissei no “Aeroporto Santa Genoveva” pela primeira vez, em 1989, para visitar o cliente que eu servia desde 1984. Na tal aterrissagem a minha querida irmã Zenaide, que me assessorava na época, com os olhos grudados na janela da aeronave, inocentemente gritou bem alto: “Henrique do céu, Goiânia não é asfaltada mesmo irmão!”. Houve um breve silêncio e ouvi algumas risadinhas. Lógico, na época eles diziam que as pessoas eram comidas por onças nas filas dos cinemas em Goiânia e, pior, pior mesmo, havia aquela lorota mentirosa sobre o Roberto Carlos ter dito que Goiânia seria uma “fazenda asfaltada”, mas, voltando às explicações que alguns dirão serem fajutas, mas, venhamos e convenhamos, é praticamente impossível escrever a tal terceira e finalíssima parte, “falando” desta fase vivida, sem parecer esnobe, arrogante, convencido, presunçoso, saudosista, fracassado, preguiçoso – “Esse cara não tem o que fazer?” – e, pior, muitíssimo mesmo pior, mentiroso, mas, como enfatizei no primeiro capítulo, eu não posso omitir tais fatos do misericordioso leitor nem muito menos da minha descendência e, agora, agorinha mesmo, veio-me à mente outro episódio ocorrido nesta nossa visita à Goiânia, em 1989. Eu estava fotografando o Shopping Flamboyant – com uma máquina Kodak, último tipo, toda automática, que havia importado e ainda guardo como relíquia – e a Olinda, que nos acompanhava na visita às instalações, por incrível que pareça me perguntou: “Você não vai mostrar estas fotos lá em São Paulo né Henrique?”. “Como assim Olinda?”. “Você não vai mostrar estas fotos lá pro pessoal do (shoppings) Morumbi e do Ibirapuera vai?”. “A senhora pode não acreditar, mas estou achando este shopping um dos mais lindos que conheço”. Naquela época desinsetizávamos quase meia dúzia de shoppings, entre eles: Shopping Morumbi, Shopping Ibirapuera, Shopping Butantã, Shopping Interlagos, em São Paulo e no interior o Ribeirão Shopping, em Ribeirão Preto, o Center Vale Shopping em São José dos Campos, o Máxi Shopping, em Jundiaí, o Sorocaba Shopping, o Park Shopping, em Brasília, DF, entre outros, tornando-nos a primeira empresa a servir um shopping ininterruptamente por mais de 20 anos que foi o caso do Ribeirão Shopping, Shopping Morumbi e Shopping Ibirapuera e é claro, evidente, óbvio que na época eu era o “companheiro maravilhoso de todos”, o “filho que eu não tive”, o “gente boa demais da conta”, o “amigo de todas as horas”, cumprimentado nos aeroportos do país, tanto pelos policiais federais – para os quais entregava a minha arma durante o translado, um 38 turbinado e refrigerado, do qual não me separava nunca, nem em viagens – como pelos funcionários, os comissários de bordo e as aeromoças, da empresa aérea que eu gostava de viajar e, claro, estava sempre indo pra lá e pra cá, dormindo e comendo nos melhores hotéis e restaurantes com os diretores das referidas empresas, enfim, enfim mesmo, por agora, porque pretendo perturbar o misericordioso leitor com o último capítulo, em breve, então, enfim eu pergunto novamente: aonde está esse maldito pedestal que eu não vejo assim como não vejo, aliás, nem consigo ler as legendas dos filmes, jornais, revistas, livros – umas das poucas atividades que amava fazer – então, caramba, para não falar outro palavrão, não consigo nem ler os letreiros dos ônibus que utilizo para locomover-me com a minha filha, a Sophia Penellopy, a minha caçulinha de 8 anos, que volta e meia me pergunta, principalmente quando o tal do ônibus demora: “Papai quando o senhor vai voltar a dirigir?”. Grande pedestal! Até.
(Henrique Dias, jornalista)