Dicionário do Brasil-Central
Redação DM
Publicado em 18 de maio de 2016 às 03:14 | Atualizado há 10 anos
“Vaí por uns trinta anos, quando do aparecimento da primeira edição do Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, um professor universitário de França, de apreciável nomeada, em visita ao Brasil, ao tomar conhecimento da obra e compulsá-la, não quis acreditar que se tratasse de livro devido a um único autor.
Obra daquele naipe, argumentou, pela riqueza de informações, método, bibliografia arrolada, extensão e profundidade do assunto, mais parecia ser obra de uma equipe altamente treinada e competente, de pesquisadores universitários, portentosamente armados dos mais modernos meios de estudo, bibliotecas vastíssimas, arquivos e computadores do que resultado em um cérebro só. Realmente, o Dicionário do mestre natalense (hoje em 6ª edição) é trabalho de uma vida toda. No estrangeiro, nos centros mais cultos da Europa ou dos Estados Unidos, não se concebia a fazer obra de tal vulto.
“No Brasil, porém, é diferente. Os grandes monumentos da cultura literária brasileira têm sidos, regra geral, fruto do trabalho individual de uns quantos talentos, à margem dos centros acadêmicos tradicionais, fora dos quadros universitários e até contra a resistência dos meios eruditos oficiais”.
De fato a monumental História Geral do Brasil, de Varnhagen, é produto do talento individual de seu autor, o primeiro brasileiro a escrever uma História do Brasil com bases cientificas, modernas, no século 19. A História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero, outro portento, o gênero, é também obra de um só escritor, no mesmo século. Nem uma das duas foi até agora superada.
Em nosso século, temos o exemplo de Os sertões, de Euclides da Cunha – obra de muitas cabeças pensantes, já foi dito, pela vasta cultura sintetizada; – o Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral; a Cultura Brasileira, de Fernando Azevedo; o Dicionário Musical, de Mário de Andrade e, mais recentemente, a História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. O livro de Bariani Ortencio está na mesma linha.
Durante mais de trinta anos vem ele coligindo, pacientemente, com a tenacidade de um sábio e a humildade de um monge, os tesouros do léxico e da linguagem popular do Brasil-Central, especialmente de Goiás, onde vive.
Contista, regionalista, musicólogo, folclorista, a paixão de Bariani Ortencio pela cultura popular brasileira se revela inteiriça no molde talhado por este seu livro – Dicionário do Brasil-Central.
Trabalho que, noutros centros, exigiria uma equipe de técnicos, ao nível de universidade, com mestres e doutores em pesquisas e corrigendas – e talvez não saísse melhor. Se é que saísse alguma coisa. Por este aspecto, o autor (paulista, embora vivendo há muitos anos em Goiânia) se enfileira ao lado dos melhores talentos nacionais que se dedicaram ao assunto, levantando o vocabulário regional como por exemplo – Raimundo de Morais (Meu Dicionário de Coisas da Amazônia), Leonardo Motta (Adágio Popular Brasileiro), Pereira da Costa (Vocabulário Pernambucano), e outros, o trabalho de Bariani Ortencio, porém, tem mais amplitude. São mais de 14.000 verbetes registrados não só a linguagem usual do sertão, no dia a dia do povo, em todas as circunstâncias, mas, ainda, a toponímia, usos e costumes, tradições, poesia popular anônima, literatura oral e folclore.
O mais espantoso, todavia, não é que Bariani Ortencio tenha realizado obra de tal importância, mas que tenha encontrado uma editora que se dispusesse a publicá-lo. O milagre correu por conta da Ática de São Paulo, empresa que vem se destacando na promoção das letras em língua Portuguesa, em três continentes, dos dois lados do Atlântico: no Brasil, em Portugal e na África, nos países colonizados pelos portugueses e onde a nossa língua é também correntia e oficial, como em Ângola.
O autor, modestamente, na introdução do livro, com suas quase 500 páginas, oferece o trabalho como um subsídio à Filosofia. No que se engana. O Dicionário do Brasil Central não traz somente subsídios preciosos e indispensáveis à Filologia, porque os traz também à Sociologia e ao Folclore; à Antropologia Cultural e à Etnografia; à Geografia e à História do Brasil; à Literatura oral e ao Jornalismo; à Comunicação em geral e à dialetologia; à Lexicologia, à Estilística, a todos as disciplinas, enfim, da área da Antropologia e da Psicologia coletiva. Em suma, ao conhecimento sério e documentação da Cultura Brasileira cabocla, numa de seus mais importantes aspectos e numa das mais expressivas regiões do Brasil, filão permanente e inesgotável, onde abeberaram Americano do Brasil, Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Elis, Guimarães Rosa, Couto de Magalhães, etc., aos quais sem favor, vem se juntar agora, numa área específica, o pesquisador de Goiânia. O vitorioso ficcionista de Sertão Sem Fim, ficcionista. Vão dos Angicos, O que foi pelo sertão, etc., com seu Dicionário nos premia a nós todos, que com ele, nos consideramos também vitoriosos, pelo que vem produzindo, no campo cultural em que é mestre”.
Adelino Brandão é historiador, ficcionista, folclorista emérito, muitas vezes premiado, professor e advogado, o maior estudioso de Euclides da Cunha. Reside em Jundiaí-SP
Macktub!
(Bariani Ortencio. [email protected])