Dificuldade de acessibilidade urbana
Redação DM
Publicado em 15 de novembro de 2016 às 00:40 | Atualizado há 10 anosDepois do acidente e assim que saí do hospital, fui reaprendendo a fazer as coisas, sabia que seria difícil, mas estava disposto a enfrentar tudo a qualquer preço. A partir de então à medida que avançava nas atividades percebia que na maioria das vezes a questão de eu conseguir ou não chegar a algum lugar dependia mais de fatores externos do que minha própria deficiência.
Minha mãe, quem me acompanhou todos os dias tinha medo de minha maior autonomia pois sabia que a situação dos esquipamentos que por hora se propunham a melhorar essa acessibilidade, muitas vezes fracassavam. É incrível como um único degrau ou mesmo toda a estrutura pode te separar de alguns ambientes. O sentimento é como se dissessem: só aceitamos pessoas andantes. Só mergulhando mesmo de cabeça nesse meu “novo mundo” pra eu perceber o quão difícil pode ser a vida de uma pessoa que não se encaixa aos padrões que são considerados normais por nossa sociedade. E sim, é isso que eles dizem – você não existe.
Ferramentas e equipamentos urbanos para dar conta da questão da acessibilidade estão começando a surgir mas ainda timidamente. Nas cidades grandes onde tecnicamente deveriam portar esses equipamentos adequados, a situação ainda é de exclusão quando se trata desse recorte. E considero que a discução com os cidadãos e toda a sociedade, mesmo que para conhecer a vida e rotina dessas pessoas, pode conscientizar toda a população (é o que pretendemos) a olhar com mais cuidado e atenção para os detalhes sobre mobilidade em sua cidade.
Durante esse tempo pude perceber diversas coisas que ainda estavam, por assim dizer, distantes da minha visão porém, bem em frente aos meus olhos. Realmente é impressionante a quantidade de esforço adicional que uma pessoa, que não caminha do modo convencional, ou já sente o peso da idade sobre as costas, tem de fazer ao se locomover, enfrentando os obstáculos da sua caminhada diária. A correria e a falta de espaço marcam a vida desse grupo, que se espreme para conseguir um lugar no ônibus, mesmo que esse esteja reservado para portadores de alguma necessidade de diferencial.
No meu caso e de minha cidade, faço minhas as queixas que surgem quando o assunto é tratado. Ir ao trabalho, faculdade ou a qualquer lugar que para muitos é uma tarefa simples, é dificultado por falta de estratégia na construção de políticas públicas de acessibilidade. Na contramão tenho muito a agradecer as muitas pessoas determinadas a ajudar que encontrei pelo caminho, que mesmo em uma pequena ação, ajudar a atravessar a rua, por exemplo, tornava meu dia mais fácil e agradável. Mesmo assim esse comportamento não representa uma regra no contexto, mas sim uma exceção.
Um depoimento: – Segunda à noite, ao sair da faculdade, esperava o ônibus. Depois de um longo tempo, vi que um ônibus acabara de fazer a curva na rotatória e dar meia volta, não entrando dentro do campus, o que seria sua rota comum. Estava com um amigo e ele propôs que nós caminhássemos até o ponto fora do campus, para não correr o risco de perder o ônibus. Mais alguns minutos aguardando, aparece o motorista e diz qual linha ele iria dirigir, e era a que eu pegava para ir pra casa. Quando disse que pegaria aquela linha, ele me disse com uma cara de desprezo: “Não vai dar pra te levar não porque o elevador está estragado, espera o próximo, ele sai 11:40.” Já não tinha quase ninguém na rua a não ser algumas pessoas no outro ponto. Disse ao motorista que não podia esperar o outro que já era o último. E se o elevador não funcionasse eu ficaria sem ir pra casa? Ele deu com os ombros e disse: “Não posso fazer nada por você!” Subiu no ônibus e deu a partida. Antes do ônibus sair pedi pro meu amigo perguntar aquelas pessoas do outro lado da rua se alguém poderia ajudar a subir a cadeira. Veio um casal que ajudou e ainda abençoou. Por isso digo que tenho me surpreendido com a capacidade das pessoas de se importar e não se importar. Algumas até agridem verbalmente. Espero que nunca passem pela mesma situação.
Em um passado não muito distante a visibilidade e reconhecimento das pessoas com alguma deficiência era quase inexistente, a não ser por associações e entidades filantrópicas. Mas agora é hora de todo mundo tomar conhecimento da questão que acessibilidade é um direito de todos que não pode ser negado a alguém por suas características fisicas ou motoras. O estado deve subsidiar tanto os debates quanto a implementação e reforma dos equipamentos urbanos e prédios públicos para garantir o direito de ir e vir das pessoas, sem exclusões.
Grandes passos ainda precisam ser dados nessa caminhada de pés, rodas, muletas, próteses. Pensar e discutir soluções para a acessibilidade global é tratar como igual aqueles que são alienados do desfrute da cidade por fatores externos. Facilitando portanto a vida de várias pessoas que só querem mesmo o que lhes é de direito, caminhar sobre a terra que os concedeu.