Dilma leia Scruton e “peça para sair”
Redação DM
Publicado em 26 de abril de 2016 às 01:43 | Atualizado há 10 anos
Depois desta ausência, em decorrência da perda significativa e repentina da minha vista esquerda, pensei no que alguns astrólogos e místicos afirmam. Nos 40 dias que precedem o nosso aniversário, segundo eles, ficamos mais suscetíveis às energias negativas porque nossas defesas físicas e mentais diminuem consideravelmente, tornando-nos, concomitantemente, suscetíveis também, às adversidades e até a morte. Cruz credo! E eu que nasci no quatro do quatro, portanto, já de quatro para o mundo, foi em tudo isto que eu pensei quando tentei reler o que havia sublinhado no livro “O que é Conservadorismo”, do polêmico professor inglês Roger Scruton, com o propósito de escrever uma sinopse para um amigo e, surpreendentemente, não conseguir ler sequer uma palavra. Entrei em pânico, literalmente. Tentei ler num trecho não sublinhado. Nada. Peguei uma revista e, droga, a mesma coisa! Agora eu compreendo que eu não deveria ter ficado tão surpreso, tão melindrado, tão inconformado assim, afinal, já havia sido advertido sobre o fenômeno, que ocorreria repentinamente, por mais de uma dúzia de especialistas, inclusive do CBCO, aí em Goiânia, que é referência internacional em oftalmologia. Explicando de modo grotesco, coisa de leigo mesmo, a minha vista direita, devido ao achatamento do globo ocular – caso raro mesmo, está parecendo um ovo deitado –, tornou-se parasita da esquerda, lá na minha saudosa adolescência, quando comecei a devorar livros. Nestes últimos anos o meu recurso, para a coitadinha da esquerda, foi escrever e ler no corpo 24, 26, 28, quer dizer, com as letras enormes, na tela iluminada do meu notebook e, pior, muito pior, com a cara de pau colada nas telas, tanto do computador como da tv, contrariando todas as recomendações médicas e destruindo o que restava da esquerda. Bem feito! Sê é uma coisa que aprendi é não ter dó de mim, das minhas dores e aflições, desde moleque, senão já teria sucumbido, mas, confesso, “chorei largado”.
Não vou entregar as pontas e pretendo voltar às cargas e, para não perder a viagem, volto a repetir, para os que nunca leram um livro na vida, que não minto em hipótese alguma. Não preciso mais disso. Descobri, faz meia dúzia de anos, que passei a vida inteira mentindo para mim mesmo. Basta! Acusam-me de ter-me afastado, nestas últimas semanas, por estar em cima do muro em relação ao impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Aquela mocinha que assaltou bancos, arriscando a sua e a vida de outras pessoas, para angariar dinheiro para a causa, para a revolução companheiro ou companheira, durante a ditadura civil e militar, instalada no Brasil em 1964, aquela menina repleta de ideais de libertação, enfim, no emaranhado dos bastidores governamentais, em meio ao turbilhão de tubarões machos ávidos por poder, foi crescendo, crescendo e ocupou cargos de comando em vários setores, inclusive na Petrobras. O agudo da letra ´“a”, que digitei na palavra Petrobrás, foi proposital. Eu iria encompridar muito este texto se fosse explanar sobre o assunto incrível, mas, gostaria que o misericordioso leitor pesquisasse, na Internet, sobre a razão disto, de muitos, como eu, continuarmos utilizando-nos do tal agudo, enquanto a imensa maioria da Imprensa aboliu-o. Tenho certeza que ficará impressionado ao saber o que alguns vadios tentaram fazer com o nome da maior empresa de petróleo da América Latina. Já falei uma porção de vezes, por aqui, e o misericordioso leitor assíduo é testemunha, que o Paulo Francis faleceu em decorrência do stress sofrido pelo processo movido, contra ele, por sete diretores da Petrobras à época – final do século e milênio – na corte de Nova York, acusando-lhe de calúnia e exigindo uma indenização de 1 milhão de dólares. Tudo porque ele comentou que tais diretores eram corruptos e recebiam propinas. Que sacrilégio, à época. A imprensa marrom é tão sem vergonha que tentou plantar que o mestre havia morrido por overdose. Eu já mencionei que vi e ouvi inúmeras vezes o Bóris Casoy, que era o nosso editor chefe na Folha de S. Paulo no final da década de 70, fechando a edição com o Paulo Francis, ao telefone, porque este já morava em Nova York, então, entendem porque eu gostaria de ver uma estátua do Paulo Francis, um monumento lembrando a sua pujança intelectual, bem, voltando à nossa presidenta Dilma eu, pessoalmente e na minha humilde e dispensável opinião, acho que se fosse ela renunciaria imediatamente e preparar-me-ia para uma volta triunfal como a Senadora mais votada da história do Brasil. Ela foi conivente e até, pode-se dizer, pelas evidências até agora, inocente, mas, deveras, fez um brilhante governo em alguns aspectos e em setores fundamentais e, nunca na história deste país, vimos tanta gente na cadeia. Não posso e não vou crucificá-la, nem mesmo lavar as mãos. Ela perdeu o prestígio quando tentou proteger o seu mentor e acusou a Polícia Federal e as nossas instituições de estarem em conluio para o seu desastre político. Volte, reconstrua o seu partido, faça com que as mulheres acordem porque mulher não vota em mulher. Veja a Câmara e o Senado! E olha que as mulheres constituem cerca de 52% do eleitorado tendo, sempre, míseros 10% de representantes nas Casas. Vergonhoso!
Eu ler a obra do professor Scruton foi uma honra. Se eu tivesse lido Scruton na adolescência, assim como li o seu conterrâneo, o sociólogo Erich Fromm – citado e transcrito na obra do Scruton duas vezes, para a minha grande alegria, porque acho que as suas ideias são similares com respeito a esta sociedade mundial doentia, além do estilo de escrita, claro, objetivo, de simples compreensão para qualquer leigo – então, se eu tivesse lido o livro que foi publicado na Inglaterra em 1984, não teria me encantado com o discurso da esquerda. Vai lá se saber por que cargas de águas a publicação do livro, no Brasil, ocorreu somente agora, 30 anos depois. Talvez tivéssemos que aprender esta lição deste modo tão árduo. Aprendi muito com a leitura da obra que é repleta, imensamente repleta de citações de autores das mais diversas áreas e escolas, provando assim, de modo indubitável, inexorável, o cabedal de conhecimento do autor e os fundamentos dos axiomáticos ideais e ideias do fenomenal Roger Scruton. A obra escrutina o porquê do Conservadorismo não ter bandeiras, nacionalidade e nem partido e, mesmo assim, fomentar as instituições, os pilares que sustentam a estrutura social e econômica, que regulamentam o nosso cotidiano, as nossas vidas. Fiz uma promessa. Caso consiga “reaver” a minha visão, caso consiga sucesso na colocação dum anel que dará forma arredondada ao meu achatado globo ocular direito, o primeiro livro que relerei será “O que é Conservadorismo”. Até.
(Henrique Dias, é jornalista)