Disciplina na expansão evita deterioração
Redação DM
Publicado em 5 de novembro de 2016 às 01:34 | Atualizado há 10 anosUma rápida deterioração da situação financeira de muitos produtores agrícolas tem sido observada desde 2014. A inadimplência no setor se tornou um elemento inquietante e já atingiu mais que o dobro do nível histórico em julho deste ano (2,04%), segundo o Banco Central. Essa situação poderia ter sido evitada com três medidas simples: regras de limite de tomada de risco financeiro, expansão na proporção em que se acumula capital próprio e reservas para intempéries.
Quando se fala em deterioração financeira, o que tende a vir a nossa cabeça são quebra de safra, queda de preços ou aumento de juros. É inegável a influência desses fenômenos, porém, ao examinar centenas de casos nos últimos 11 anos, as razões primordiais para a piora financeira são, principalmente, expansão rápida e investimentos fora do negócio agrícola.
Tipicamente, o imbróglio se inicia com a compra de uma área grande – normalmente financiada pelo vendedor – na busca de expansão do negócio sem a devida retaguarda de capital próprio. Na sequência, ocorre perda de liquidez devido aos compromissos assumidos, busca de mais financiamento para corrigir o aperto de caixa e complicações na gestão financeira.
Como a maior parte do investimento de operações agrícolas está centrada na aquisição de terras e apenas uma fração disso em capital operacional, o produtor tende a ter garantias reais de sobra para a tomada de novos financiamentos. Isso pode leva-lo a um risco mais alto através do endividamento crescente, juros maiores, decisões de gestão focadas na preservação do caixa, ou seja, uma ciranda perniciosa.
Como os produtores normalmente usam sistema de livro caixa, sem produzir relatórios contábeis, nos quais se notaria o desequilíbrio entre usos e fontes de fundos, a percepção de que algo está errado demora a surgir. Disciplina e planejamento do ritmo de investimentos são primordiais para a manutenção da saúde financeira.
E aqui valem algumas recomendações. A primeira delas é que o total de endividamento não deve ultrapassar a receita anual. Já em caso de atividades de alta rotatividade e alta volatilidade, como hortifrútis, o total de dívidas não deve passar da metade da receita anual. Outro indicativo é que o total de endividamento não deve ser maior que quatro vezes o resultado operacional (o resultado operacional é igual a receitas do ano menos despesas de campo, de mecanização e de escritório).
Também é importante que o total de compromissos (fornecedores, prestações de máquinas, de financiamentos e de terras) a vencer no ano seja um pouco menor que o valor dos haveres, como estoques, aplicações financeiras, recebíveis e o valor da safra no campo. Ou seja, os ativos de curto prazo devem ser maiores que os passivos de curto prazo.
E o racional de finanças pessoais sobre ter uma reserva para emergências também se aplica aos negócios. É fundamental manter-se o equivalente a três meses de despesas gerais (escritório, combustíveis, folha de pessoal, por exemplo) em aplicações financeiras reservadas ou em estoque totalmente livres de compromissos. Por fim, a expansão de área anual não deve ser maior que 15% da receita.
A expansão dos negócios agrícolas se faz necessária, tanto para ganhos de escala como para manter market share, num mercado crescente. Porém, esse crescimento precisa ser feito com disciplina e adequação do fluxo de caixa. Seguindo essas recomendações, o negócio será mantido dentro de uma zona de boa segurança e manterá sua resiliência diante das intempéries.
(Antonio Carlos Ortiz, diretor de Produtores Rurais no Itaú BBA)