Brasil

Doando vidas

Redação DM

Publicado em 13 de janeiro de 2017 às 01:42 | Atualizado há 10 anos

A decisão de doar órgãos e tecidos é profundamente pessoal. Embora seja um ato legítimo de disposição do próprio corpo, o doador nem sempre tem o pleno poder de anuência quanto à sua contribuição. Deve manifestar esse desejo conscientemente, em vida, por escrito ou verbalmente, para algum membro da família que tenha o poder legal de autorizar o desligamento dos aparelhos de suporte à vida e permitir a coleta dos frutos de sua generosidade.

Não se trata de um assunto fácil para a família. Por desconhecimento, crença religiosa ou luto, os familiares nem sempre consentem com o prosseguimento do desejo manifestado pelo doador. O prazo para a coleta de órgãos e tecidos é curtíssimo. Trata-se de uma janela – em casos de morte encefálica – breve para a remoção sem danos ou riscos aos receptores. O atraso na confirmação dos parentes pode inviabilizar a doação e prejudicar pacientes.

Um único doador pode salvar até uma dezena de vidas com seu corpo. Coração, rins, fígado, pâncreas, pulmões, córneas e, em alguns casos, ossos e pele podem ser aproveitados em pacientes vivos. Atualmente, Goiás possui uma considerável lista de espera para transplantes de órgãos. São pessoas que vivem sob a angústia da espera em um paradoxo complicado: precisam aguardar que uma pessoa saudável perca a vida para que possa preservar a própria.

Se para o doador a decisão em ceder seus órgãos e tecidos é inegavelmente altruísta, para o receptor o aspecto psíquico é muito mais complexo. Há um sentimento misto de esperança com autopreservação, que convive com a sensação de esgotamento e responsabilidade. Não é exatamente confortável saber que a própria vida depende, em alguns casos, da morte de outra pessoa. A generosidade de doadores alivia o sofrimento emocional desses pacientes, que tendem ao sentimento de amparo pelo amor incondicional de um desconhecido.

A importância da doação não se resume às vidas salvas. As vidas que se perdem ganham nova dimensão. Doadores são heróis. Familiares de doadores são ainda mais altruístas. É relativamente fácil a decisão de dispor do próprio corpo quando se sabe que vai morrer. Por outro lado, é doloroso para um familiar admitir a morte do ente querido e autorizar o aproveitamento dos órgãos e tecidos.

Há muito tabu e desinformação sobre a doação após a morte encefálica. Como assegurar que a pessoa, de fato, não está mais viva? Como morreu se o coração ainda bate no peito? O doador ainda está lá, preso por algum truque do cérebro, aguardando apenas o momento para emergir e esclarecer os fatos? Hoje, a ciência médica consegue identificar com precisão a irreversibilidade da morte. Não se trata apenas do óbito cerebral, mas da completa falta de reação à estímulos daquele organismo. Se é razoável definir assim a morte, mesma cortesia não é possível quanto ao conceito de vida.

Não há uma definição precisa ou perfeitamente adequada para a vida. O conceito científico de vida quase sempre está vinculado às suas características intrínsecas – capacidade reprodutiva, funcionalidade, metabolismo, etc. Não há uma idéia única sobre vida para a Biologia ou para a Filosofia. Há momentos de vida, que se expressa de várias formas. Para os familiares que autorizam a doação de órgãos do parente finado, a vida subsiste por meio de outra pessoa. É um conforto. E uma grande verdade.

Campanhas e ações de divulgação são fundamentais para ampliar a quantidade de doadores de órgãos. É preciso desmitificar tabus e incentivar o gesto. Se não é fácil conseguir doadores de sangue e medula, apesar do volume de incentivos públicos, considere o quão mais desafiador é estimular a doação de órgãos e tecidos.

A Central de Transplantes tinha aproximadamente 1.100 pacientes aguardando transplantes em setembro de 2016. Para se ter noção do problema, apenas quatro doações de órgãos são efetivadas em média por mês. Por isso, a importância em assegurar informações e meios que permitam à família do doador autorizar o procedimento sem qualquer receio, ainda que fragilizada emocionalmente pela dor da perda.

A grandeza da doação de órgãos e tecidos não é exclusiva do doador, mas da família que autoriza apesar da dor e da tristeza. Talvez este seja um dos momentos mais sublimes da vida em sociedade. Transformar o próprio sofrimento em conforto para o outro. Quando se noticia aumento no número de transplantes e doadores, o mundo se torna um lugar melhor para se viver. Ao menos, mais humano.

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)

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