Brasil

Dois estudantes caipiras soltos na cidade grande

Redação DM

Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:31 | Atualizado há 10 anos

A dureza dos tempos de estudante recém-chegado do interior é sempre lembrada com uma pontinha de saudade, por maiores que tenham sido as agruras daqueles tempos magros.

Cheguei a Belo Horizonte no início de sessenta e dois, levado diretamente de Dianópolis, e o impacto da cidade grande me deixou com uma baita sensação de insignificância diante dos arranha-céus belo-horizontinos.

Lá chegando, meu pai, que cultivava a filosofia segundo a qual a gente devia sentir a vida e vencer dos próprios esforços, deixou-nos (eu e meu irmão Francisco Liberato, o Ié) na pensão de dona Salomé, uma velhinha conhecida de Barreiras, na Bahia, do tempo em que meu pai mercava com a “Casa Braga”. Deixou-nos com um ou dois meses de pensão pagos e foi-se embora, recomendando-nos, entretanto, que em caso de qualquer necessidade a gente procurasse a “Casa Palhares”, da qual era freguês antigo.

E comecei minha experiência entrecortada de surpresa, de medo, de “ratas”. Logo nos primeiros dias, tive um incidente com um guarda civil, duns de roupa azul que desapareceram com a extinção da corporação. A dona Salomé, muito metódica e rígida em questões de horário, estabelecera que o almoço seria servido até o meio-dia, sob pena de ficarmos sem. Estávamos, meu irmão e eu, num passeio de reconhecimento lá no início da Av. Afonso Pena (a uns quatro quilômetros da pensão), quando notamos que estava passando a hora do almoço. E saímos às carreiras para pegar o ônibus “Avenida”, cujo ponto final, perto da “Feira de Amostras” (onde hoje é a Rodoviária), estava com uma quilométrica fila dobrando o quarteirão. Eu – bariru daqui, feito bicho pego no laço – ia lá saber o que era respeitar fila? E na mesma embalada em que vínhamos, furamos a fila e aboletamos-nos comodamente no primeiro banco, satisfeitos por sentirmos que o almoço estava possivelmente salvo.

Mas quá! Aí é que deu crisipa: malmente o coletivo arredou do ponto, chegou um guarda civil querendo saber por que estávamos escarreirados e furando fila. Eu não tinha um toco de documento, forante o alistamento militar. Quando, assustados que nem rolinha fogo-apagou, explicamos o problema do almoço, e o guarda viu nosso jeitão espantado e observou que éramos crus em matéria de cidade grande, largou-nos de mão, seguramente rindo de nossa bestagem.

Meu irmão, Francisco Liberato, na época, era menor, e isto lhe permitiu arranjar um emprego no antigo Banco da Lavoura, que estava admitindo menores como estagiários. E eu, por estar com minha situação militar num chove-não-molha miserável, andei dando cabeçadas aqui e acolá atrás de um ganhame de vida, que o negócio aquele tempo era rocha. Acabei foi valendo-me de um pedido de meu pai, que conseguiu uma ocupação na “Casa Palhares”, para me garantir pelo menos o dinheiro da pensão. Eu ganhava sete mil cruzeiros e pagava seis mil pra dona Salomé. Com os mil sobrantes eu tinha uma enormidade de alternativas para gastá-los, depois de comprar roupas, pagar ônibus, lanches etc.

Morando a uns três quilômetros do serviço, e como a fortuna que me sobrava não permitia o luxo de um ônibus, eu torava era a pé de manhã, ao meio-dia e à tarde. No fim do dia, quando chegava à pensão, jantava às carreiras e andava mais idêntica distância para o Colégio Estadual, pois nunca tive essas regalias de estudar em escola particular. Preferia gastar o solado do sapato a dar a mão à palmatória, mandando pedir dinheiro ao velho em casa.

Na época, o então prefeito Amintas de Barros instituiu os passes de meia passagem para aliviar o bolso dos estudantes, e passei a andar de condução, pegando o ônibus elétrico (o tróleibus) que passava perto do colégio. Com aquilo eu me libertei, pois, como a passagem prestava para andar em qualquer linha, eu passei a andar pra riba e pra baixo dando minhas voltinhas, com o cuidado de não perder o horário do de comer de dona Salomé, que nos submetia a forçado jejum em duas situações: quando chegávamos atrasados e quando descobria que algum de nós não havia assistido à missa dominical ali pertico, na Catedral da Boa Viagem.

Por causa dos tais passes passei apertos, pois os benditos papeluchos (que me permitiam andar de condução) só valiam nos dias de aula, e num domingo resolvi dar um passeio no bairro Sion, tradicionalmente cheio de meninas bonitas, e, apesar da quebradeira e da feiúra, até que eu era meio influído. E lá fui. No fim da linha, estirei o passezinho salvador, e o cobrador, um tremendo brutamontes, mal-encarado que só ele, aprontou um tendepá e, aos berros, mandou o motorista abrir a porta traseira, porque “vai descer um malandro”. Isto, depois de uma discussão armada, durante a qual eu tentava empurrar-lhe o passe e ele não aceitava. No fim, ele disse que eu estava era “duro”, e isto me feriu os brios, e, para não encompridar conversa, desci “em protesto”, dizendo que tinha dinheiro e que não pagava por mode o desaforo dele e para pelo menos salvar as aparências do coletivo atopetado de gente.

Na verdade, o “protesto” foi compulsório, pois estava de bolso completamente areado. Naquele ermo e sem conhecer nada, fiquei ao deus-dará, bestando na rua, tomando informações aqui e acolá sobre o rumo onde ficava a Rua Pernambuco, onde eu morava. Resultado: só cheguei em casa lá pelas nove da noite, ante o olhar censuroso da puritana e beata velhinha, que conjeturava os mais perniciosos antros de pecado em que eu estava. Custou-me a explicar.

Namorada, consegui no colégio um xamego de outra sala. Eu botava a roupinha de ver Deus, alternado com as do meu irmão, e tirava minhas ondas para fazer bonito perante a menina. Para ela, eu era filho do dono da loja (onde fazia até faxina). A falta de coragem para dizer-lhe a verdade alimentou o namoro e vivi numa situação como aparente “filho de papai”, e sempre driblava qualquer programa que implicasse gasto, pois não tinha dinheiro nem pro cineminha semanal. Só se fosse sozinho.

É por isto que a porqueira da mentira não presta! Pois assuntem:

Um dia, a namorada me flagrou de macacão e vassoura limpando cascas de jabuticaba na calçada da loja. Não caí de vergonha porque me escorei no cabo da vassoura.

Foi a derradeira vez que vi a cara dela. E ela, a minha.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected] )

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