Brasil

Dosando as coisas: como consegui, como juiz de Taguatinga

Redação DM

Publicado em 27 de outubro de 2016 às 00:36 | Atualizado há 10 anos

Segundo consta, Taguatinga, em doze anos que antecederam minha lotação como juiz na Comarca, em 1988, ficou nada menos que oito sem juiz, pois era considerada de difícil provimento, precisando um incentivo nos vencimentos para que o juiz ficasse por ali.

Quando escolhi Taguatinga o Presidente do TJ-GO, Des. João Canedo Machado tentou dissuadir-me da idéia de ir para o interior, preterindo Comarcas mais futurosas, como Bela Vista, Nerópolis e outras nas rodeanças de Goiânia. É que a minha boa colocação no concurso me dava o privilégio de escolher um lugar melhor para trabalhar. Mas bati pé, que Taguatinga era a escolhida.

– Mas, doutor, aqui perto é melhor, pois está mais perto do centro de decisões… – insistia João Canedo.

Não adiantou. Escolhi Taguatinga, tanto por sua proximidade de minha cidade, Dianópolis, quanto pelo fato de ter fortes ligações com o povo dali. Mas, no fundo, o motivo preponderante era o de que ali seria Tocantins em menos de um ano, e eu já estaria aboletado no meu próprio torrão para ajudar a construir o Estado caçula.

Ele me preveniu que Taguatinga era uma comarca complicada, não pelos problemas judiciais, mas porque a política ali era terrível, com os Almeida brigando com os Carmo, de sorte que uma eleição era uma verdadeira batalha. E para inteirar as medidas, aquele meu primeiro ano de magistratura, o ano de 1988, era um ano eleitoral, com eleições gerais no Tocantins, quando seriam escolhidos do governador a vereadores. Era um ano histórico, pois seriam escolhidos os primeiros dirigentes do nosso Estado.

Ser juiz naquelas circunstâncias era uma temeridade, ainda mais que eu era amigo dos Carmo e dos Almeida (de um lado, Gercílio e Tonico, e do outro, Natacilio e Conceição de Gaby), não podendo cair no deslize de tratar um melhor do que ao outro, sob pena de correr o risco de uma impugnação por suspeição. Mas me arrisquei.

Chegando a Taguatinga, como era natural, recebi visitas, aceitei convites para almoços e jantares, mas sempre com um pé adiante e outro atrás. Como não sabia quem era quem politicamente, pois a cada pleito eles podem se misturar, de vez em quando alguém prevenia:

– Doutor, o senhor vai almoçar com Antônio Bonfim, candidato a Prefeito?

– Vou, é claro!

Só que, na hora do almoço, eu passava na casa de Tonico Almeida, que era o candidato do outro partido:

– Tonico, você vai almoçar comigo hoje!

Quem iria deixar de aceitar o convite do Juiz Eleitoral em ano de eleição? E na hora do almoço eu chegava com o candidato adversário a tiracolo, desarmando eventuais mexericos. O assunto morria ali.

Era costume os candidatos majoritários, por ato de cortesia, visitarem o Juiz de Direito, e ambos os candidatos a Governador, Siqueira Campos e José Freire,  estiveram lá em casa para conversar amenidades.

No dia do comício de Siqueira Campos, como soía acontecer com todos os candidatos, que visitam a casa do juiz, ele esteve lá em casa com seu vice, Darci Coelho, e me convidou para do comício.

Declinei do convite para o comício, mas aceitei o do jantar. Fui e jantei, não sem antes ter sustentado bons dedos de prosa sobre o futuro do Estado caçula. Houve até um início de zunzunzum no dia seguinte, comentários de rua, que me deixaram em justificável desconforto.

Mas me redimi: dois dias depois, no dia do comício de José Freire, candidato oponente; ele também esteve lá em casa com seu vice, Brito Miranda, e me convidou para o comício.

– Ao comício eu não vou, mas ao jantar estarei lá, com prazer – redarguí.

E fui, para calar os possíveis malfazejos, comportando-me tal qualmente fizera no jantar de Siqueira Campos. E assim passei incólume em Taguatinga em pleno ano eleitoral, gozando da estima de todos os partidos, sem um só incidente de suspeição. E, sem ser um mão-de-ferro nem água morna, cumpri a lei, e às vezes a lei que adaptei à minha maneira para adequar à cidade, mas isto já é outra história.

Às vezes, quase trinta anos depois, vou a Taguatinga visitar minha irmã Luzia, os sobrinhos Xande e Aldaísa, Martha e Romeu, os amigos Gercílio e Stella, Saulo e Suely, Luso e Alzira Maria, Edilson, Almiron, Marco Antônio e Dr. Soares (que era advogado quando fui juiz) e outros, meus velhos serventuários Belzi, Solange, Maria Amorim e Monique, largando em cada prosa gostosos retalhos de lembranças que ficaram.

Mas marquei época exatamente por ter implantado uma nova espécie de convivência, numa cidade de política tradicionalmente acirrada, a ponto de, muitos anos atrás, terem escoltado, soltando foguetes no carro de um juiz por nome Dr. Homero (que não é o Sabino), promovido de lá, porque queriam vê-lo pelas costas.

Com isto, cheguei à conclusão de que fazer Justiça é questão de bom senso.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])


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