É tarde e eu estou ficando longe
Redação DM
Publicado em 21 de dezembro de 2017 às 22:08 | Atualizado há 9 anos
Lá pelas tantas, risquei a bombinha junina no fósforo e a joguei por baixo das camas ao longo do imenso dormitório dos garotos, quando dormiam, no Ginásio Anchieta; deitei-me e fiquei quietinho, dormindo tal como um bebê, após o mingau, inocente. Devido ao silêncio da noite, o artefato provocou um barulho intenso, acordando alunos e padres. Alguns meninos choraram de raiva, de susto e por terem sido despertados àquela hora.
– Quem fez isso? Foi a voz tonitruante do Seu Edgar, um dos noviços do Colégio.
– !?… O silêncio era tal que, se caísse um fio de cabelo no assoalho, provocaria o som de uma espada ao chão.
– Alguém, fale! Bradou o padre. Pensei, “não teria graça se eu contasse, fica como está”. E assim ficou. Mas alguns moleques demoraram a dormir devido ao simples despertar inesperado. Ou ao susto.
Só que na noite anterior eu tinha cometido outro pecado. Por volta das vinte horas os padres nos puseram a dormir, mais cedo. Eu não gostei. Não, porque a vida toda eu tive problema pra pegar no sono. Então, enquanto as cento e tantas ovelhas do Seu Edgar Poss dormiam, e ele também, eu sentava no peitoril da janela e ficava observando a natureza durante a noite. Era bom. Sentia-me calmo e feliz. Permanecia ali ouvindo os grilos e ruídos da noite, olhando o luar.
“Será por que os padres nos puseram a dormir mais cedo?” À minha indagação mental, veio a resposta na hora. Da janela, vi as garotas do “Colégio Auxilium”, de Luziânia, entrar de fila, sem o mínimo arruíno, ao refeitório do nosso colégio. Elas foram assistir ao filme que o Padre Januário projetaria para elas. Na hora improvisei uma “Teresa” com meu lençol e dos meus irmãos e a joguei janela abaixo, amarrando a ponta na cabeceira da minha cama. Desci por ali, achando tudo “beleza”. Mas, de repente, todos os garotos do meu dormitório estavam rodeando as meninas que recebiam nossos beijos e abraços. Olhei de onde vinha aquela turma de moleques: todos pisaram na minha cama e desceram pelos meus lençóis. “Que lameiro deve estar meu “berço”!” Concluí.
Eu pensava naquilo tudo e mais o caso da bombinha e me condenava como um “estraga prazer” e que, por isso, devia me confessar. No próximo domingo o Padre Conselheiro versou no sermão sobre as maldades ocultas e silenciosas que “nós pensamos que não estarem sendo vistas, engano! Deus nos vê e sabe de tudo”. E eu pensava ainda: “Como Deus vai ver todo mundo a toda hora? Tem jeito não! A menos que Ele fosse um universo de espíritos nos vigiando, ou só se houvesse um registrador oculto em nós!” E a intuição: “a Consciência” Uuuh! Estremeci todo ao me lembrar disso.
Um dia o Padre Conselheiro me falou: “– Faz tempo que você não se confessa, hein, filho?” Pensei e disse a ele: “– Seu padre, façamos um trato: eu não confesso, mas, em compensação, não conto seus pecados pra ninguém”! Ele se exaltou e disse: “ ––Mas eu não tenho pecado!” E eu: “– Li no livro do Seu Edson que Jesus falou: quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra! O senhor sabe quantos atiraram a pedra?” O sacerdote ficou calado, baixou a fronte com os dedos nos lábios e saiu. Sem dizer nada.
Acho que “me voy”, gente. É tarde e eu estou ficando longe. Até mais?
(Iron Junqueira, escritor)