Brasil

Enem: o polegar dos mudos políticos

Redação DM

Publicado em 9 de novembro de 2016 às 01:52 | Atualizado há 10 anos

“A vida é bela, pois que as gerações futuras a limpem de todo mal, de toda a opressão e de toda a violência!” (Trotsky)

 

Lamentável expressão social e realidade conjuntural umbilicalmente atada à questão da educação. No berço natal de Paulo Reglus Neves Freire – ou Paulo Freire, educador, pedagogo e filósofo brasileiro, um dos pensadores mais notáveis na história da Pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. A possibilidade de emancipação e futuro encurralada na certeza da alienação e desastre coletivo. Mais ainda, a viabilidade ou negação da cidadania, instrumento democrático e mola propulsora de qualquer país, avalizada por analfabetos funcionais, em nosso País.

O momento de transição política – imposta ao Brasil – denuncia ao mundo, enquanto esconde a si próprio, o conjunto da estrutura funcional do ensino “fast food” mercadológico que dilacera grande parte do currículo escolar daqueles que participaram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no último domingo. Marco histórico importante com possibilidade real em ampliar quaisquer possibilidades do horizonte educacional da Nação, a peleja da sociedade acadêmica retrata, hoje, a luta de classe e categoria contra a proposta fascista da PEC 241. O verdadeiro 171 do (des) governo peemedebista deve prorrogar, para 2017, a questão de segurança nacional e promover o esvaziamento do debate até que extrapole as mais diversas polêmicas, entre elas a do tema da Redação das provas do Enem – resumido à intolerância religiosa no País de Cabral, onde as manchetes midiáticas dão conta de que “enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede são tantas vezes, gestos naturais.” (Caetano Veloso).

Acontecimento real transformado em fato histórico a certeza fria, e, em branco, exposta por inúmeros candidatos ao certame ou exame admissional, porta de entrada para a Universidade os mais de oito milhões de estudantes compareceram aos dois dias de provas do Enem. Grande percentual destes não assina ou soletra o próprio nome. Resta saber dos cerca de 30% faltosos somados a 768 eliminados, o que são capazes de escrever, deixar em branco ou manchar com o polegar, a respeito. Mudanças no campo de estudos e sua didática tornam-se urgentes e invocam também as relações sociais. O foco é escrever o próximo capítulo da própria história a realidade nua e crua, concreta, não segundo fulano, beltrano ou um (des) orientador encalhado em séculos passados.

A jovem revolucionária estudante secundarista paranaense, Ana Júlia, de 16 anos, aluna do Colégio Estadual Senador Alencar Guimarães, em aula de cidadania e coragem que proferiu da tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná–aula de civilidade a deputados humilhados por sua covardia política–na quarta-feira, 26 de novembro. Em Curitiba, a militante alerta para a questão do analfabetismo funcional, mazela social que carece da estrutura do debate sobre a reforma na educação, que precisa ser feita por profissionais da área, alunos e gestores que se defendem da fome com o salário pago pelo suor derramado na arena escolar que enfrenta o fascismo e a proposta esdrúxula da lei da mordaça, ou escola sem partido, racista e homofóbica, que se propõe a formar um exército de não pensantes que extrapole a já minoria de pensantes. A batalha que segue, procede, remonta à reflexão filosófica de que “não há maior crime que matar um sonho, nem maior virtude que realizá-lo.” (Livraga). Reflexão histórica o golpe e retrocesso na instituição escola que vale a pena, a escola que entende sua ocupação enquanto direito de expressão e ato político é luta posta que exige mais da consciência vendida dos adultos armados em terno, poder e gravata. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) atesta que “a responsabilidade pelas crianças, adolescentes, estudantes é da família, da sociedade e do Estado”.

A frase viral nas redes sociais “nos mijam e o jornal diz que chove”, retrata o bem feito ou malfeito do projeto inicial da elite liberal que trará como retrospectiva na TV – que não seja a Globo – o fracasso de anos, sinônimo da inércia local, consequência da mudança de logística mundial, propalada ao senso comum enquanto crise do capital, a partir de 2008, com reflexos nos países periféricos. No caso do Brasil, o desemprego é parte dessa proposta de anuência com os aumentos de impostos e preços de serviços essenciais. A chibata neoliberal tem vara curta, verde e amarela, da cor do pato, mentira da Fiesp estampada na fome, na fila da iniquidade e na luta pela sobrevivência, também amarelada e cor da língua dos que sobrevivem à dengue, chikungunya e outras pragas, em sua maioria vestida em terno e gravata formalizada na conveniência do Parlamento: “É uma maravilha ser poderoso em Brasília. Eles mentem e não sentem nada. Nobre colega acha que a Nação inteira é surda e cega. Hipocrisia todo dia faz parte da mobília.” (Capital Inicial).

Grande verdade, a única diferença entre o despropósito político atual – retrógrado, a ser extirpado no voto democrático – daquele protagonizado em séculos passados, é somente a distância histórica montada por décadas perdidas incapazes em mudar o discurso populista e barganha de poder entre coronéis, hoje, modernos de iPhone às mãos. A cultura vazia relaciona o que anda fora de moda como a censura, retrocesso, governo Temer e a eleição do racista rico nos USA. Sobre este último, incapaz de criticar, ainda o primeiro, Jabor denuncia: “Trump, de palhaço a candidato, é resultado moral da crise mundial de desconfiança com a política enquanto entretenimento, teatro. Ele e resultado do ódio, rebelião dos imbecis no mundo inteiro, obstáculo entre a raiva e o apocalipse de uma ditadura em maioria silenciosa.”

De acordo com a filósofa e escritora gaúcha Marcia Tiburi: “O empobrecimento da subjetividade é o fato de negar-se o outro como pessoa concreta, cultura, religião, natureza, qualquer coisa que tenha a cara do outro. Cada época tem seus jogos de linguagem por parte da mídia de massa. Hoje, a linguagem é a do ódio, prática e teoria do fascismo, exacerbação da personalidade autoritária que resulta e fomenta o preconceito social, racial, sexual, de gênero, ético, de classe.” Enquanto o mundo não para, os estudantes não assinam o nome e a maracutaia prevalece, há que celebrar a vida, respirar desta loucura que ainda não nos entregou às mãos da morte. A imortalidade está no relacionamento com a sabedoria. Há mortos que vivem, e muita vida boa que seguiu a brisa da morte. Viver é viagem única, mais que um sorriso ou lágrima, ilusão nominada amor, guerra que dispara ideologias. Viver é caminhar, levantar a cabeça, focar na esperança à sombra da certeza de que tudo e todos têm um começo, meio e fim.

E o pulso… ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, filósofo, escritor,mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e mestrando em Direitos Humanos/UFG)

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia