Brasil

Entregar para Deus

Redação DM

Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:33 | Atualizado há 10 anos

A imprensa noticiou que o prefeito recém empossado de uma determinada cidade postou nas redes sociais além de publicar no Diário Oficial, para ter o efeito de lei, ato administrativo em que colocava todas as secretarias e serviços da prefeitura “ nas mãos de Deus “.

Explicou que era para obter a compreensão de todos, de todas as religiões, promovendo-se assim um mutirão ecumênico reivindicatório às portas do céu para obtenção da proteção celeste.

Confesso que não fiquei muito espantado com a notícia, considerando a situação calamitosa em que grande parte dos municípios foi entregue aos novos mandatários, tendo ocorrido de tudo nas cerimônias,inclusive posse às escuras, em razão do corte de energia, por falta de pagamento, sem se falar nos caixas zerados, nos salários e contas de fornecedores e prestadores de serviços  atrasados, no lixo acumulado, na buraqueira geral das ruas e, finalmente, nos rombos, de variados tamanhos, de acordo dom o gosto do “partinte” e para desespero do “chegante”…

Também não é de se desprezar ou fazer pouco caso deste pedido desesperado pela ajuda divina. Se pensarmos bem, há situações por aí nas quais, se não houver uma ajuda decisiva de Deus, vai ser muito difícil se conseguir algum resultado.

De resto, é sempre bom colocarmos nossos projetos e pretensões nas mãos de Deus, se quisermos obter alguma resultado positivo, por mais bem preparados que estejamos.

O ponto, aqui, porém, é outro.

É o da transferência de responsabilidade.

É do ser humano isto.

Quando crianças, chamados pelos pais para prestarmos conta de quem fez a traquinagem do dia, sempre o dedo indicador aponta para o outro: Foi ele! Foi ela!

Nos dramas grandes e pequenos sempre procuramos um culpado, embora estejamos, na linha de frente da atividade.

E isto vem de longe…

Conta-nos a Bíblia que, tendo Adão comido o fruto proibido, ao ser interrogado por Jeová, respondeu de imediato:

“A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto e eu o comi.”( Gn.3:12 )

Assim, através dos séculos e dos milênios, vamos empurrando a culpa de nossos erros para as costas de outrem, atribuindo-lhes responsabilidades que não têm e procurando nos safar das nossas.

Lamentavelmente, este costume ou jeito de encarar as coisas vai crescendo em volume e importância, de modo que vamos nos tornando individualmente puros, ficando a sujeira sempre nos outros. Esquecemo-nos de que, quando apontamos o indicador pra alguém o polegar aponta para nós mesmos.

O governo é o culpado, os políticos são os culpados, o nosso vizinho é culpado, o parente e até os nossos  pais são os culpados…

E nesta escalada chegamos ao ápice quando apontamos Deus como o culpado.

Eis o problema!

Uma coisa é colocar os problemas nas mãos de Deus, para que nos oriente, ajude , dê forças para tomarmos uma decisão.

Outra, muito diferente, é entregarmos pra Deus, eximindo-nos de qualquer responsabilidade ou iniciativa para a solução.

Certamente, haverá momentos em que nossas forças chegarão ao fim e, exauridos, tenhamos que nos colocar nas mãos de Deus, mas enquanto tivermos condições, teremos que lutar.

E, obviamente, com a orientação dEle, a Sua presença e o Seu amparo será bem mais suave carregarmos a cruz que nós mesmos construímos em nosso caminhar aqui pelo planeta.

 

(Getulio Targino Lima, advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro da Academia Goiana de Letras e da Associação Nacional de Escritores –  E-mail: [email protected])

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