Enxugando gelo
Redação DM
Publicado em 5 de abril de 2016 às 02:54 | Atualizado há 10 anos
Em menos de 10 minutos, o caminhão de lixo encostou e saiu. Foi rápido, apesar de não haver pouco lixo. Durante esse tempo, os ágeis garis, dois, corriam até as fileiras de lixeiras abarrotadas na calçada, estilo calçadão de Copacabana, apanhavam os sacos, as caixas de papelão, além de um ou outro pedaço de alguma coisa que ali foi descartada e voltavam ao caminhão, lançando-os com vigor dentro da carroceria. Quando algo escapava dos sacos e ficava para trás, retornavam e catavam.
Não mais que meia dúzia de palavras se ouviu dos dois durante o pouco tempo que lá estiveram. Apenas ações precisas, insistentes, necessárias. Das pessoas que passavam por ali, ninguém os notava, nem os agradecia, nem mesmo com um gesto simples de polegar levantado se viu. Também não esperavam grande reconhecimento, quem sabe um copo de água seria interpretado como tal. Mas não, nenhuma boa alma lhes oferecia água. O suor, escorrendo na testa, era aparado com as costas do antebraço, quando voltavam com as mãos vazias para pegarem mais lixo. E continuavam, indo e vindo, voltando, catando, com esmero, cumprindo o seu importante papel para o nosso asseio urbano.
Diante de uma cena aparentemente tão trivial, que quase sempre passa ao largo para a maioria de nós, fiquei imaginando e tentando debulhar essas e outras reflexões do sabugo de nossa sensibilidade, reforçando a importância de tais trabalhadores para a vida da cidade. Pensando, segui espiando-os. Resolvi, a certa altura, me aproximar e lhes oferecer água, mas não quiseram, alegando que beberam há pouco.
Indo os pensamentos para rumos mais adiantados, me ocorreu refletir sobre os fins que damos aos resíduos recolhidos, uma vez sabido que nossa limpeza urbana dificilmente beira o razoável no aspecto de reciclagem, o que mitigaria os danos para o meio ambiente. Não é necessário canudo de graduação em determinada área para afirmar que os lixos, na maioria das cidades brasileiras, são retirados da área urbana para serem jogados em algum aterro mal planejado, muitos em margens de rios, além de outras porcas inconformidades. Isso me passava pela cabeça, ligeiramente, todavia o foco continuou nos dois trabalhadores, anônimos, sem voz, como se não existissem, ziguezagueando entre os carros, sem equipamentos de proteção, expostos a insalubres condições de trabalho. Como eles, há milhares pelo Brasil afora que não param, que cumprem seu digníssimo e indiscutivelmente respeitoso papel de executar a limpeza urbana.
Na troca de ângulos, ampliando e reduzindo, ao correr os olhos mais adiante, para os lados da cabine do mesmo caminhão, onde estava o motorista, me deparei com algo inicialmente normal, para instantaneamente ganhar ares no mínimo contraditórios. Quase no final da tarefa, enquanto os garis lá atrás seguiam firmes na lida, com a mesma rapidez e zelo, cá na frente vi que o motorista distraidamente chupava mexerica. Mesmo a distância, dava para ouvi-lo estalar a língua entre esporádicas caretas, indicando que não estava doce o fruto. Normal, tudo normal não fosse o desfecho que se sucederia.
Terminada, enfim, a missão de porem os lixos na carroceria, um dos garis assoviou, avisando ao motorista que já era hora de irem. Por terem enchido o carroceria, ambos embarcaram, seguindo para o despejo dos materiais. Antes de ligar e acelerar o caminhão, o motorista juntou todas as cascas e bagaços, acumuladas nos breves minutos, e, decidido, atirou tudo pela janela. Nesse momento, deu para notar um dos garis, já dentro da cabine, sacudir, inconformado, a cabeça, olhando descrente para o outro. Certamente no peito dos dois eclodia o sentimento mais inglório do mundo. Em seguida, ambos olharam para o motorista, reprovando sua atitude, enquanto esse, por sua vez, nem aí, nem tchum. Com uma das mãos atracada volante, e a outra no câmbio, fingiu não ser com ele e tocou adiante o caminhão, sumindo lá no final da rua.
(Hailton Correa, graduado em Letras pela UEG de Inhumas, agente prisional e escritor. E-mail: [email protected])