Era tarde demais para nós
Redação DM
Publicado em 23 de julho de 2016 às 03:30 | Atualizado há 10 anosDepois de reiteradas visitas àquela cidade e não o encontrando porque trabalhava em vários locais, sentiu que estava difícil encontrar o seu amado Rui e deixou um recado com a vizinha do local onde ele também trabalhava. Tendo recebido o endereço dela, foi ele à capital do citado bairro. Lá chegando viu um senhor magro, alto, húngaro, tipo austero, a quem se dirigiu.
— O senhor é o pai da Any?
— Sim. Sou. E você é o vagabundo dela?
— Vagabundo é o senhor! Não é o pai dela? Respondeu o moço, um tanto emputecido.
— Pois ela, de novo, foi atrás de você. Respondeu o senhor de um alpendre onde se preparava para adentrar a casa.
— Pô!!! Outro desencontro? Exclamou Rui. Ela me desencontrando na cidade minha e eu a desencontrando na dela! Até quando? Pensava ele, enfurecido, enquanto retornava o percurso feito da estação de ônibus à casa do estrangeiro genitor da garota.
Pelas ruas rememorava: mas quantas vezes ela esteve na minha cidade, foi à casa em que minha mãe e meus manos moravam, ficou conhecendo a todos, e não teve a chance de me encontrar… Não entendo… Foi à rádio, eu não estava; foi ao jornal, também eu não estava; foi às vizinhas, não me viam há dias; foi à construção que eu fazia, disseram-lhe que eu “acabara de sair”… Não entendo… Preciso encontrá-la…
Assim pensava Rui enquanto exercia um amontoado de trabalhos… E o tempo foi rolando e os desencontros dos dois se repetindo…
— Esteve uma moça hoje de manhã procurando por você! Eram os colegas de rádio, o dono da livraria, porém, Rui nem mais dava atenção a esses avisos… Não havia como encontrá-la…
— Dona Isabel, se ela aparecer de novo, diga-lhe que se esqueça desse encontro que, parece, não ocorrerá nunca!
Disse ele à senhora que cuidava da sala de palestra que ele frequentava, ao que ela:
— Vou falar isso não, filho. Sei lá se ela surge um dia…
De fato o tempo, a insistência de encontrarem-se foi inútil, pois não valeu tanto intento, que os acontecimentos se sucediam.
— Espere mais um pouco Rui!
Entretanto o rapaz não dava mais importância aos avisos e, certo dia, depois de encontrar Maria, Rui casou-se.
Estava o rapaz numa instituição de atendimento a carentes, onde fora indicado diretor, quando um dos beneficiários lhe disse:
— Tem uma mulher no seu escritório, esperando-o.
Tranquila e calmamente deixou as pessoas a quem atendia em companhia de sua esposa e foi até seu escritório, atender quem o esperava. Tão logo entrou na sala, foi enlaçado por afetuoso abraço, ao mesmo tempo em que ouvia.
— Enfim, encontrei-o! E não o perderei jamais.
Rui foi observar, era ela — a primeira e inesquecível namorada, Any, filha de malcriado estrangeiro.
— Você, Any? Longo foi o caminho do reencontro, hein?
— Bem mais longa a espera! Respondeu a jovem. Agora não o perco mais. Never! Never!
Rui, de semblante entristecido e assustado, se mantinha em silêncio, enquanto ela:
— Agora sim! Nos casaremos, teremos filhos…
Num certo momento surgiu a chance e o rapaz contou-lhe a realidade de ambos.
Aos prantos Any enxugava o rosto com as costas das mãos, exclamando:
— Não pode… Não é possível… Agora é que entendo o porquê de tanta demora… — e saindo, sem olhar para traz, tomando o burburinho da rua, murmurava.
— Era tarde demais para nós.
(Iron Junqueira, escritor)