Erros, quem não os comete?
Redação DM
Publicado em 2 de agosto de 2016 às 01:35 | Atualizado há 10 anosComeço por dizer que não existe perfeição humana. E até seria chato se existisse. Tudo arrumadinho, não precisaria da gente para colocar as coisas no lugar ou consertar as pessoas. As mães não teriam como dizer: “Olha filho, depois de brincar coloque todos os brinquedos dentro da caixa para não ficarem espalhados pela sala, porque a mamãe não tem empregada.”
Qualquer um erra. Erro pequeno ou erro grande, mas erra. Quem nunca chegou depois de uma hora marcada? O que não deixa de ser um erro, que para os britânicos é inaceitável.
O assunto me faz lembrar. Corria pelas salas de aula do tradicional Liceu de Goiânia, no meu tempo, a historinha do japonês que fazia uma prova de matemática, quando do seu lado o colega pediu a sua borracha emprestada, e o japa respondeu: “Não uso borracha, eu não erro.” Que eu tenha notícia, o único da espécie humana que não erra.
Na vida, mais errei do que acertei, mas no que acertei deu para o gasto. Um erro que cometo sempre é dizer que eu faria tudo outra vez. Nem sei se posso considerar erro, repetir os erros. Até porque, nem sempre considero erro um erro cometido. Esse é o problema.
Muito fácil ver ou colocar erro nos outros. O Mundo age assim. Como temos facilidade de ver o defeito do semelhante, ainda que o defeito não exista. Isso quando ele, o defeito, não é nosso mesmo e sempre atribuímos a quem está próximo ou longe. Ninguém gosta de assumir o erro. E ainda erra ao negar que errou.
A frase “deixa que eu sei errar sozinho” é de uma idiotice que supera o próprio erro, porque mostra a consciência de erro que o sujeito já assume antes de errar.
Hoje em dia, a nobreza de se pedir desculpa pelo erro cometido está em desuso. A regra é negar, negar até que o outro seja obrigado a aceitar o erro como acerto.
Acabei de cometer outro erro. Sou incorrigível. Escrevi este texto para uma pessoa que acha que está sempre certa, e na maioria das vezes não está. Ela, a pessoa, me lê, agora, e tenho certeza que nem vai se ligar que é com ela que falo, e de quem falo neste momento. Pior: e se achar que é para ela que falo, vai desconversar, porque age como o japonês do Liceu: não erra.
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)