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Eurydice Natal e Silva, pioneira do conto em Goiás

Redação DM

Publicado em 14 de outubro de 2015 às 00:07 | Atualizado há 11 anos

A participação feminina na contística goiana data de 1904, quando Eurydice Natal e Silva (1883-1970) publicou o conto Ecide, nas oficinas gráficas do jornal A República dirigido por Luiz Gonzaga Jayme, mesmo ano em que foi fundada a “Academia de Letras de Goyaz”, que teve a jovem contista  aclamada como presidente.

Essa entidade foi fundada solenemente em 12 de outubro de 1904 e contou com a participação de outros nomes da cultura goiana como Joaquim Bonifácio Gomes de Siqueira, Augusto Rios, Godofredo de Bulhões, Marcelo Silva, Luis do Couto e Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Em l906, Eurydice Natal casou-se com Marcelo Silva e foi residir em Niquelândia e com a sua ausência, a entidade se dissolveu.

A Academia de Letras de Goyaz  representou o auge do sucesso literário e intelectual  para seu tempo e seu meio, sendo exemplo para o restante do país, ao mostrar que a velha capital não era preconceituosa em relação ao talento feminino, ao contrário da Casa de Machado de Assis, Academia Brasileira de Letras, do Rio de Janeiro que somente mais de 50 anos depois, aceitou um elemento feminino em seu meio. Goiás não só aceitou, como a aclamou presidente em apoteótica festa no Palácio do Governo, como esclarece Nelly Alves de Almeida:

Na época, o governo era o de José Xavier de Almeida, grande incentivador da instrução e da cultura. Escolhido o local para a sessão solene – O palácio Conde dos Arcos –, toda a cidade vibrou de entusiasmo com o auspicioso acontecimento. E Eurydice Natal, então apenas com dezenove anos de idade, foi aclamada presidente.

O baile em sua homenagem realizou-se na Rua da Pedra, na residência do dr. José Netto, notável médico e grande homem público.

O seu livro Notas de uma viagem ao Araguaia, publicado em 1939 pelas oficinas gráficas de O Popular, enfeixando o conto Ecide que fora publicado num pequeno livreto em l904, revelou o tom biográfico e histórico, descrevendo em minúcias as belezas do Rio Araguaia e da região inóspita daqueles ermos, então desconhecidos de uma maneira geral.

Numa linguagem simples, aproximando-se do coloquial, Eurydice Natal, como num diário de viagem, vai descrevendo os acontecimentos, as pessoas, os fatos triviais, preocupada em fazer uma amostragem completa do cenário e dos seus tipos, porém atendendo à unidade dramática e unidade de ação que é característica importante no conto:

Hoje, partimos cedo. Desejávamos alcançar a praia do Gado, com tempo de assistir a passagem de uma boiada do nosso primo Vigico. Não o conseguimos, apesar da boa vontade dos zingueiros. Pouco abaixo dessa praia, divizamos, ao longe, uma ubá veloz, que se dirigia para nossa igarité. Incomodado com a nossa demora, o primo Vigico, que bem conhecia as dificuldades da subida, mandara-nos em reforço um latagão, conhecido no Araguaia pela sua força prodigiosa e grande prática do rio, em cujas margens nascera e crescera, e um outro, franzino de corpo, mas agilíssimo e que supria, com a presteza dos movimentos, a inferioridade em força em que se achava em relação ao gigante, seu companheiro. (p. 28)

Percebemos no trecho do conto de Eurydice Natal, a preocupação da linguagem rápida, incisiva, marcando uma sequência de fatos que convergem para a descrição da viagem no Rio Araguaia, pois é no conto, segundo Massaud Moisés que “a existência de um único efeito, duma única história, está intimamente relacionada com essa concentração de efeitos e de pormenores”.

Numa relação explícita com o título, as “notas” da autora vão perfilando situações e costumes e, de maneira graciosa, rememoram hábitos de moças e rapazes nas águas remansosas do Araguaia, naqueles dias de 1904:

Ao se aproximar a ubá, para ela saltaram os rapazes tomando um bom zingueiro: mas faltava-lhes um remo, que os da igarité lhes raram-se do melhor de nossos remos. Não lograram o intento, porém: para se vingarem, dobraram de esforços e, em poucos minutos, a veloz ubá deixava atrás a nossa igarité e os rapazes nos davam estrondosa vaia, a que respondíamos com uma descarga de carabina, que não deixou de assustá-los.

Às 4 horas da tarde, chegamos ao Dumbá. Fomos ao banho e, ao voltarmos, o sr. Alexandre nos surpreendeu com esplêndido jantar. Pernoitamos ali. No dia seguinte, após duas horas de marcha, chegamos à Leopoldina (p. 28).

A autora, em seu relato, evidencia acontecimentos característicos daquela época, destacando-se a chegada a Leopoldina, hoje a cidade de Aruanã, depois de brincadeiras de jovens, fatos estes que eram comuns naquele tempo.

Sobre essa característica do conto, da grande semelhança com a realidade,  o crítico Temístocles Linhares lembra que:

O conto é a criação de um estilo, dentro dos curtos limites da narrativa, cuja ambição é também suscitar a presença de gente real e viva e a sensação inspirada diretamente pelas próprias coisas. O conto é um caleidoscópio e, como tal, deve comunicar uma impressão de vida ou então de simples emoção a ser instalada na alma do leitor, sempre apressado em chegar ao fim, como supõe a época de velocidade em que vive, o que não quer dizer não se empenhe ele em conhecer as virtualidades do contista, as suas tendências voltadas ora para o folclórico, ora para o anedótico.

A autora, compartilhando das técnicas narrativas do conto na época, com grande preocupação com as descrições, evidencia algo pouco usual dentro dos costumes de moças de famílias tradicionais e de severos costumes goianos em se resguardar a honra das filhas, que foi essa viagem descrita como uma aventura da qual participaram “moças de família”. Daí, o significado emotivo e social do reencontro entre mãe e filhas:

Aguardava, no porto, à nossa chegada, anunciada pelos rapazes que nos havia precedido, a prima Ernestina, que, muito comovida, via chegarem as filhas – era a primeira vez na vida que se tinha ausentado delas três dias. Sinhá e Nenê choravam de alegria e, ao abraçarem-se mãe e filhas, se debulharam em lágrimas. (p. 28).

Eurydice Natal e Silva fez sua literatura centrada nas impressões pessoais e na observação da vida cotidiana de seu tempo. Nada de digressões psicológicas ou atavios de perquirição intimista, e sim textos em que narra de forma simples o cotidiano de seu tempo e suas impressões de mundo.

Observando-se a unicidade de espaço, percebemos que o conto de Eurydice é restrito, revelando apenas um curto trajeto do Rio Araguaia para, em seguida, destacar o efeito da chegada ao porto de Leopoldina. Abolindo os pormenores, a narradora sucintamente relata pequenos detalhes para precipitar-se ao final.

Observando o conto pela unicidade de tempo, percebemos que a narrativa de Eurydice Natal e Silva passa-se no período de três dias, tempo da viagem do grupo de jovens pelas belezas do Araguaia.

Percebe-se haver no pequeno conto uma harmoniosa estruturação que leva ao desfecho, propiciando ao leitor o entendimento da situação familiar daquele tempo e da vida cerceada que levavam as jovens, pois apenas três dias de ausência já era caso para se “debulharem em lágrimas” no regresso ao porto.

Outra parte interessante no conto citado de Eurydice Natal é a associação de idéias que a narradora faz entre uma peculiaridade das ariranhas e a ideologia socialista. Vejamos:

Alimentam-se de peixes que, à proporção que apanham, vão depositando na praia. Depois de reunida a quantidade necessária à refeição do rebanho, reúnem-se todas que o compõem, para a divisão das rações, o que se faz no meio de um alarido infernal. Isto nos contou o sr. Alexandre. Achei curioso. Bem mais simples seria que cada um tratasse de si, mas não é esse o regime dominante entre as ariranhas; cada indivíduo trabalha para a comunidade. São socialistas. (p. 60)

A frase “são socialistas”, num conto do início do século passado, chama logo a atenção, principalmente na escrita de uma mulher, normalmente alheia às coisas políticas. Tal conhecimento está totalmente atualizado com as preocupações europeias que culminaram na revolução de 5 de outubro de 1910 que em Portugal pôs termo à Monarquia e implantou a República; na Revolução Russa de l9l7, que derrubou o regime czarista e a dinastia dos Romanov; assim como na Alemanha com a Revolução Alemã de l9l8, que depôs os Hohenzollern. Eurydice Natal mostra-se intelectualizada e coerente com as modificações políticas que estavam em ebulição no primeiro decênio do século XX.

Descrição interessante para a sua época e o seu meio, o conto é fruto do espírito intelectual da narradora, criada num ambiente político e social, discutindo assuntos que estavam bem acima dos comentários de uma mulher, como dissemos, naquela época.

Seu pai, o ministro Guimarães Natal, sempre procurou proporcionar à filha mais velha todo o conhecimento que estava acima das possibilidades de uma cidade como Goiás. Desse entrosamento com o pai, escreveu Rosarita Fleury, na biografia que fez de Eurydice Natal e Silva, sua patrona na Academia Goiana de Letras.

Percebemos ser grande sua identificação com o pai, cuja vida acompanhou dia a dia, mesmo quando entre suas presenças físicas havia a enorme distância de Goiás ao Rio de Janeiro e dificuldade natural da época para comunicação escrita (p. 23).

No conto intitulado Ecide, nome de sua filha primogênita, percebemos o tom feminista de desafio aos rígidos preceitos morais e sociais de sua época, quando a personagem medita sobre um fato que era comum naquele tempo: a escolha, pelos pais, de um marido para a filha:

…Aquela mudança para a cidade, a minha apresentação à sociedade, a esta sociedade em que as mulheres só tratam de exibir ricas e elegantes “toilettes”, e cujo principal assunto é a moda ou o casamento rico… Tudo isto me preocupava o espírito.

Não desejava conhecer essa sociedade; preferia continuar a viver a minha vida simples e menos fútil.

De repente, sobressaltou-me o espírito esta ideia: se o papai encontrasse nessa sociedade um marido que pudesse me convir? Parei, meditei um instante, mas sorri-me logo tranquilizada. Não haveria esse perigo: jamais me casaria com um desses homens, cujo ideal era encontrar uma mulher bonita, comodamente fútil, destituída do verdadeiro espírito, sem nunca se dar ao trabalho de analisar os sentimentos do seu marido, estudar o seu caráter, infundir-lhe uma confiança ilimitada, buscando encontrar nele sentimentos correspondentes aos seus, fazer-se compreender num olhar… (p. 81)

Nas reflexões da personagem Ecide, observamos as críticas ao procedimento feminino daquele tempo na busca de um casamento vantajoso, por isso a preocupação com o vestuário elegante. Reflete ainda sobre o possível projeto dos pais para conseguir-lhe um marido aos moldes tradicionais, aquele que desejava uma “mulher bonita e fútil”, revelando traços de convivência social vilaboense que persistiram durante toda a República Velha.

Usando do recurso do discurso indireto, Eurydice Natal em seu conto destaca de forma rápida as concepções de vida de Ecide e depois passa ao monólogo interior em que a personagem mergulha em seus pensamentos em vários níveis de consciência.

O conto feminino goiano em sua gênese esteve, como se pode notar, a serviço da descrição de costumes, através da ótica da mulher culta e intelectualizada. Foi, no alicerce, a feitura de histórias curtas, alinhavadas ao sabor da emoção e ao gosto da memória, valendo-se do exuberante cenário goiano.

O nome de Eurydice Natal e Silva merece destaque porque, mesmo depois de casada e com vários filhos, continuou dedicando-se ao trabalho intelectual, auxiliando seu filho, professor Colemar Natal e Silva na fundação da Academia Goiana de Letras em 1939.

No seu constante labor, escreveu  ainda os dados biográficos de seu pai, o ministro Guimarães Natal e fez tradução do romance Um idílio na savana de Herick Siewicz  que publicou em 1937. No fim de sua vida, participou da fundação da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, mas não tomou posse porque faleceu a 31 de agosto de l970, três meses antes da solenidade.

 

(Eurydice Natal foi verdadeiramente uma autêntica pioneira. É patrona da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, biografada por Rosarita Fleury, nome de uma rua em Goianira, no Setor Cora Coralina)

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