Fé e razão, antagonismo insuperável?
Redação DM
Publicado em 28 de junho de 2016 às 03:11 | Atualizado há 10 anosAnualmente, no mês estival e calmoso destes altiplanos, em dias claros e noites frias, realiza-se a quase bicentenária Romaria de Trindade, a mais eloquente demonstração de devoção e espiritualidade dos goianos em busca de consolo, bênçãos e indultos cristãos.
Durante a piedosa peregrinação, quando também são celebrados eventos lúdicos e festas pagãs que atraem milhões de fiéis, caminhantes, turistas e mascates, de todos os rincões brasileiros, invade-nos uma inquietação abrasadora sobre o antagonismo entre a fé e a razão.
Depois que os nossos longínquos ancestrais desceram das árvores e se refugiaram nas cavernas, por todas as latitudes do globo terrestre, o pajé, ou o feiticeiro, nas primitivas tribos, era a figura dominante que exercia o controle do medo e a autoridade ferrenha dos seus membros submetidos à adoração de estranhos e grotescos entes sagrados.
A morte, amiúde, era um sacrifício aterrador, para fazer valer mitos e assombrações, e com isso imperavam a alienação e a obediência cega. Desde então os rituais das incultas cerimônias serviam para conferir incontestáveis poderes sobrenaturais ao protetor e guia das hordas ignaras.
Com a evolução dos aglomerados humanos, os métodos e formas de impor a submissão às crenças e supertições tornaram-se menos brutais, mas a dominação espiritual dos homens não cessou de crescer, incitando-os, permanentemente, a promover conflitos até hoje fonte de sangrentas disputas, ódios e vinganças.
De cinco mil anos para cá, religiões as mais diversas cuidaram de subjugar grande parte da humanidade à ideia da origem sagrada ou divina do homem e de todas as coisas! Somente para invocar as mais difundidas e com maiores legiões de adeptos, cite-se o Budismo, cujo ensinamento consiste em como superar o sofrimento e atingir o Nirvana. Baseia-se em quatro verdades.
Depois vem o cristianismo, fundado por Jesus Cristo, que prometeu salvação e vida eterna! Todavia, Júlio Cesar, imperador, o processou e o crucifixou. Segundo escreveram os seus discípulos, e ensinado por seus profetas e sucessores, Jesus Cristo morreu, mas ressuscitou !
Diante dos chamados escritos sagrados, à mingua de conhecimentos teológicos ou filosóficos profundos, acode à mente dos agnósticos e infiéis uma dúvida atroz: se Deus tinha poder absoluto e plenipotente para ressuscitar JC, por que permitiu seu calvário e morte tão cruel e prematura? Qual o pai verdadeiro e amoroso que suportaria, impassível, o longo martírio e sofrimento de um filho, e somente depois da sua dolorosa morte o resgataria para a vida?
Até agora, indagações dessa natureza sobre esses enigmas e veracidades cristãs nunca serão respondidas ou compreendidas por meio do uso da razão. Nesse sentido, também é certo que a fé jamais aceitará que elas sejam questionadas.
Em seguida, destaca-se o catolicismo (universal, em grego), um ramo do cristianismo que se propõe a levar a salvação à toda a humanidade! Que ninguém nos leia, mas tal pregação é negada eis que as promessas divinas nunca foram apuradas e comprovadas, no plano material, e tampouco há testemunhas idôneas das almas salvas que levitam à capucha nas mansões do Paraíso com candura e paz eternas!
Quem não conhece a perversa e ignóbil história da Inquisição?! Jamais houve mais cruel Tribunal instituído pela Igreja (papa Gregório IX, ano 1231) para perseguir, condenar e punir centenas de milhares de seres humanos acusados de heresia !
Vez por outra, pois, repete-se a dúbia e terrificante pergunta: como aceitar que o Deus misericordioso daquele papa sanguinário pudesse assistir impassível ao sacrifício de tantos inocentes condenados implacavelmente à fogueira, durante séculos, apenas porque eles acreditavam em outra verdade?
A lista prossegue. Há religiões e seitas para todos os gostos e extravagâncias! Citemos as mais difundidas: judaísmo, confucionismo, espiritismo, fundamentalismo, islamismo, hinduísmo, protestantismo, evangelismo, anglicanismo, batista, testemunhas de Jeová, metodista, presbiterianismo, adventista, mórmon, taoísmo, ortodoxo, xintoísmo, umbanda…, e outras mais recentes e exímias coletoras de dízimos !
Por último, conceda-se espaço para encerrar a longa lista com a doutrina que nega todas as precitadas crenças e suas divindades: o ateísmo!
Quando se medita sobre o invocado poder absoluto e infinito do Criador e Senhor de todos os seres e coisas, ocorre especular por que motivo aconteceram grandes hecatombes, guerras fraticidas, epidemias letais, terremotos, secas, pestes e genocídios em grande escala, ceifadores de milhões de vítimas que poderiam ter sido poupadas pelas divindades onipotentes e oniscientes de todos os credos?
Na minha santa (opa! a palavra escapou-me por força de expressão!) ignorância, também busco entender a omissão recorrente e contumaz de socorro e de proteção das divindades bem abonadas dessas religiões que não conseguiram abolir até hoje as doenças, a fome e a pobreza aos “filhos de Deus”!
Não estranharei, contudo, se estas reflexões heréticas forem condenadas à lixeira do leitor. Mas não me sentirei em falta com a minha consciência, e por isso não guardarei sentimento de culpa ! Ao dar vazão a tão íntimas divagações, revelo apenas o conflito que me aflige por não saber discernir ou conciliar a razão e a fé! Afianço, porém, que elas não visam alcançar a menor transcendência nem causar repulsa no espírito dos caros leitores religiosos. Tão somente não consigo acreditar naquilo que não compreendo.
Quem busca a verdade deve recorrer à discussão perante o fórum crítico da razão e do diálogo. Mesmo com a desconfiança geral, cética e agnóstica, entendo que a fé precisa do diálogo com opostos. Por isso, não me condeno por não aceitar causas sobrenaturais ou de rejeitar o desconhecido !
A razão desta postura aberta e pragmática permite-me, todavia, uma visão de mundo menos radical, consciente de que seria ingênuo imaginar um mundo sem crenças e sem conflitos entre a ciência e a religião, posto que, em havendo conciliação, é quase certo que o homem um dia será tanto um ser espiritual quanto racional !
João Paulo II, em sua Encíclica Fedes et Ratio, definiu que “fé e razão constituem duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade “!
Não obstante, a verdade, por enquanto, não se encontra na posse de nenhuma dessas doutrinas. Quiçá no futuro poderá ser uma conquista do conhecimento científico aliado ao saber religioso. Saudemos, pois, os homens e mulheres de todos os credos, livres desse antagonismo ancestral e milenar, preconceituoso e intransigente, quando poderão trilhar, fervorosos e irmanados, os mesmos caminhos da tolerância e da fraternidade, num mundo sem discriminação !
Fiel ao meu convencimento de expor com seriedade tais dúvidas e incertezas que extravasam da minha pobre mente atormentada, a respeito do homem, sua origem e seu destino, não tenho pejo nem receio de tornar-me um virtuose da chatice… por não dispor de assunto melhor para distrair-me, ou, pior, por abusar canhestramente da paciência e desviar os leitores dos seus bons momentos de meditação !
Por fim, ao suscitar tão ímpias interrogações, assumo o risco de ser taxado de herege e ateu! Mas não me sentirei acabrunhado nem estigmatizado com tão severo julgamento dos amigos e desconhecidos, posto que, sem ser justo nem douto em revelá-las, fi-lo com a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”, ao estilo machadiano ! E mais, com franqueza e lisura de caráter! Que todas as divindades não me levem a mal… e protejam-me !
(Wagner de Barros , advogado)