Brasil

Filosofando à brasileira (II): Antônio Vieira, o Paiaçú

Redação DM

Publicado em 25 de fevereiro de 2016 às 00:12 | Atualizado há 10 anos

De volta ao nosso itinerário pelas sendas do pensamento filosófico desenvolvido em terras brasileiras, trataremos, por ora, de uma figura que não poderíamos deixar à parte de nossa abordagem. Refiro-me ao padre jesuíta Antônio Vieira, na linguagem dos índios, o Paiaçú – que significa “pai grande”. Homem de singular importância nas articulações do Brasil colonial, cuja vida multifacetada, de político e diploma a visionário e messiânico pregador, também deixou seu rastro na formação de um pensamento nacional. Apesar de pouco conhecido e estudado no meio filosófico, a produção de Antônio Vieira é frequentemente visitada por pesquisas historiográficas e literárias, sendo considerado por muitos como um dos primeiros grandes nomes da literatura brasileira – muito embora ele próprio fosse português de nascimento.
Sobre figurões como Vieira, não há muito o que dizer. Antes de tudo, é importante dar-lhes a palavra e ouvir com atenção o que eles próprios têm a nos comunicar. Este, portanto, será o intuito de nosso texto: dar vez e voz ao corajoso intelectual do século XVII.
Nascido em Lisboa, na freguesia da Sé, em 1608, veio com apenas seis anos para Salvador, na Bahia. Após o período de estudos no seminário, foi ordenado padre jesuíta em 1634. Entre 1641 e 1652 regressou a Portugal, onde recebeu o título de pregador da corte real. Voltando ao Brasil, entre 1652 e 1661, tornou-se missionário na região do Maranhão, atuando, sobretudo, no combate à escravidão dos indígenas.
Em 1669, regressando novamente a Portugal, foi acusado como herege e condenado ao cárcere. Após pouco tempo, contudo, conseguiu novamente a liberdade. Em 1681 regressou definitivamente ao Brasil, em sua 7ª viagem transatlântica – um grande feito para aquela época. Em terras brasileiras, faleceu em 18 de julho de 1697, contando com 89 anos de idade.
A seguir transcreveremos, em linguagem atualizada, trechos de dois textos de Antônio Vieira. O primeiro foi extraído do seu famoso “Sermão da Quarta-feira de Cinzas”. Nele o autor desenvolve interessantes reflexões sobre temas como a natureza do homem e sua relação com a morte. Por detrás de um objetivo aparentemente religioso, Vieira nos oferece um espectro da compreensão antropológica de sua época.
Vejamos, portanto, o que ele tem a nos dizer:
“Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura veem-na os olhos, já a presente, não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.
[…]
Esta nossa chamada vida, não é mais do que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo: De útero translatus ad tumulum [desde o útero caminhais para o túmulo]. Mas ou o caminho é largo, ou breve, ou brevíssimo; como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele, tanto mais se chega para ele: e quem, quanto mais se aparta, mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo e não outro é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele: o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz; e como esta roda que anda e desanda juntamente, sempre nos vai moendo, sempre somos pó”.
Como dissemos, não se trata, de modo algum, de uma reflexão com caráter exclusivamente religioso e/ou teológico. Prova disso são as articulações, aliás sempre presentes no discurso de Vieira, com a filosofia perene, especialmente com Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino. Completa o Paiaçú: “Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis, a mais terrível é a morte. Disse bem mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai; a terrível é a porta por onde se entra. Se olhais para cima, uma escada que chega até o céu; se olhais para baixo, um precipício que vai parar no inferno, e isto incerto”.
Orador completo como era, Vieira sempre granjeou elogios por parte de seus ouvintes. Participou de disputas inclusive fora do Brasil, como é o caso de seu famoso sermão sobre as “lágrimas de Heráclito e o sorriso de Demócrito”, realizado no ano de 1674, em Roma, a convite da rainha Cristina, da Suécia. Neste debate Antônio Vieira almeja esclarecer o aparente sorriso imposto pela tradição à figura de Demócrito, em oposição ao choro de Heráclito. Trata-se de uma referência ao afresco de Donato Bramante (1444-1514), pintor milanês. Na vida costumeira, Demócrito é conhecido como o filósofo que ri, razão pela qual muitos o estimam e outros tantos o maldizem. De fato, conforme a tradição a admiração deve ser considerada como o primeiro instante da filosofia. Antonio Vieira, no entanto, disso discorda. Talvez por sua inserção na tradição escolástica, que considerava o riso como uma forma de corrupção da natureza humana. Ao rir o homem se assemelha aos animais, dos quais apenas a razão pode distingui-lo. Entre outros elementos, notemos o rigor que perpassa o argumento de Vieira. É interessante como cada raciocínio leva, naturalmente ao próximo, num encadeamento rumo à conclusão:
“O mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri, como Demócrito, ou quem chora, como chorava Heráclito, eu pretendo defender a parte do pranto. Confesso que a primeira propriedade do riso é o risível; e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional; o pranto é o uso da razão.
Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece. Que é este mundo senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças, de mortes? E à vista deste teatro imenso, tão trágico, tão lamentável, que homem haverá (se acaso é homem) que não chore? Se não chora, mostra que não é racional, e se ri, mostra que também as feras são capazes de rir.
Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os homens, e um filósofo tão sábio, e se não via este mundo, mas tantos outros mundos por si inventados como poderia rir? Poderá dizer-se que ele não ria deste mundo, mas daqueles seus mundos. E com razão; porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso.
É certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo. Como pois se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundo e das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim, senhores, me parece que Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada uma seu modo. Que Demócrito não risse, eu o provo. […] O riso, como ensinam todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração; e cessando a novidade e a admiração, cessa também o riso. Por isso, quando vemos uma figura ridícula, ou então ouvimos algum dito engraçado e faceiro, rimos de princípio, mas uma vez dada razão àquela primeira surpresa, uma vez que cesse a novidade, cessa ao mesmo tempo o riso […].
[Quanto ao choro,] há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e ainda chorar com riso. Chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; e chorar com riso é sinal de dor suprema e excessiva. A dor moderada solta as lágrimas, a grande dor as enxuga e as seca. Dor que pode sair pelos olhos, não é grande dor; por isso não chorava Demócrito. E como era pequena demonstração da sua dor, não só chorar com lágrimas, mas ainda sem elas, para declarar-se com o sinal maior, sempre se ria.
Desta sorte a tristeza, se moderada, faz chorar, se excessiva, pode fazer rir. Se a excessiva alegria é causa de pranto, a excessiva tristeza não será causa de riso? […] Demócrito chorava com a boca; o pranto dos olhos é mais fino; o da boca mais mordaz. Demócrito ria porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heráclito chorava porque todas lhe pareciam misérias; logo, tinha mais razão Heráclito para chorar do que Demócrito para rir, porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias e não há ignorância que não seja miséria […]”.
Não é todo dia que temos a oportunidade de nos deixar interpelar por um texto tão antigo (1674). Embora não se trate de um discurso atual, está repleto de atualidades. Como não considerar, por isso, a validade de seus argumentos? Ainda hoje “há muitas misérias que não são ignorâncias”, apesar de qualquer ignorância ser sempre uma “miséria”. Padre Antônio Vieira, o Paiaçú, deixou seu rastro na história do pensamento brasileiro, talvez como um de seus primeiros grandes pensadores autóctones, mas não simplesmente por isso. A grade envergadura de sua obra o coloca entre os poucos gigantes que marcaram época. Seus escritos são para nós um grande legado.

(José Reinaldo F. Martins Filho, mestre em Filosofia (2014) e mestrando em Música, ambos pela UFG. Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-Goiás)


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