Fogo cruzado
Redação DM
Publicado em 11 de março de 2017 às 01:54 | Atualizado há 9 anos
Chico Me-Dá era temido mandraqueiro. Mesmo antes de “proibir” a fornalha de Honorão de pegar fogo, fazendo-o perder a garapa na moagem, por ter-lhe negado mel em dia não consinado, Chico Me-Dá era respeitado. E para completar o círculo de fei-tiçarias nas Bicas, onde morava, sua mulher era tida e havida como feiticeira tam¬bém. Tida, não: era feiticeira mesmo, se¬gundo os mais antigos, que deles só alcancei a notícia.
Chico e a mulher viviam às turras, feito cachorro e gato, sempre trocando desa-foros. Chico tacava um feitiço nela, e a velha passava uma semana dormindo. Era um sono irresistível. Ao fim de uma semana, ela se levantava, ainda bamba, mercê do je-jum forçado. Era só recuperar-se um pou¬quinho, botava um feitiço em Chico Me-Dá, que dormia por igual período. E viviam naquele fogo cruzado, sema¬nas e semanas um botando o outro pra dormir.
Meu pai, escrivão de coletoria (naquele tempo havia esses cargos) lá pelos anos vinte, acom¬panhava seu cunhado, Joãozinho Rodrigues, o coletor (também havia uma familiocracia¬zinha disfarçada) até a fazenda Água Boa, onde este morava. Meu pai residia meia légua adiante, no Santo Antônio, e estava apenas esperando um cafezinho pra poder medir estrada no rumo de casa.
Nesse ínterim, chegou uma desconhecida de meia idade, mas toda alquebrada, apoiada num bordão, dando a impressão de que, se lhe puxassem o apoio, o tombo era certo.
– Uma esmolinha, pul’amô de Deus!
– Pede a Emídia lá dentro, dona! – ordenou o coletor, que, pelo jeito, conhecia a pedinte.
Voltando da cozinha, onde recebera um agrado, a mulher estendeu a mão para meu pai, pe¬dindo também sendo atendida com um dos centenários que tilintavam no bolso do paletó de mescla.
A mulher, agradecendo por tantos santos que havia no Paraíso, saiu vagarosamente, gemebunda, apoiando-se no bastão com todo o peso do corpo, e meu pai indagou:
– Quem é, Joãozim?
– É a mulher de Chico Me-Dá, Bera! Pra ser direito, nem sei o nome dela.
– Coitada!… Vai chegar lá no Santantônio à boca da noite!… – ainda comen¬tou meu pai, todo condoído, vendo a pobre esmoler quebrando a curva da estrada que dava pro Santo Antônio, com o peso debruçado sobre o bordão.
Com menos de dez minutos, meu pai chinelou na estrada, no seu caminhar li-geiro, que dis¬pensava montaria para viagem de légua e légua e meia. Andou, an¬dou, e nada de topar com a mu¬lher de Chico Me-Dá. E ele tinha fama de bom caminha¬dor.
Apertou o passo, no rastro da velha, que denunciava estar adiante, e numa curva lá longe, no lugar por nome Estreito, ele enxergou a mulher, andando desem¬ba¬raçada, levando o bastão mais no feitio de arma do que de arrimo.
Acelerando o passo, ele cortou caminho pela chapada, e, desviando-se dela por dentro do mato, chegou ao Santo Antônio. Lá, ficou atento, pois sabia que ela estava chegando a qualquer momento.
De fato, pouco depois ela apontou no vaquejador, no canto da cerca de arame que ficava no mesmo alinha¬mento da casa da fazenda, a coisa de trezentos metros; vinha recur¬vada, apoiada no bastão. Uma aproveitadora, era visto.
Dando de cara com meu pai, que ela deixara na Água Boa, a mulher ficou des-cabreada, ainda mais na hora em que ele comentou, só de gauchada:
– Andou ligeiro, hem, dona!
Ela, numa sengraceza danada, gungunou algo ininteligível lá no fundo da goela, sempre de cabeça baixa. Meu pai, que era muito positivo e meio cético para essas histórias de mandra¬quice, disse:
– Dizem que você é feiticeira…
– Inhor, não, “seo” Liberato; é istúcia, é indaga do povo.
Ele foi lá dentro e pegou um volumoso “Chernoviz”, aquele livrão de prescrições médicas maior que um “Dicionário Lello Universal”.
– Tá vendo? Tudo aqui é feitiço. Escolho à minha vontade e de acordo com a necessidade! – e foi folheando o livrão, lambendo a ponta do dedo para continuar – Você já deve ter esquecido muitos feitiços dos que lhe ensinaram. Eu, quando esqueço, corro no livro e recordo tudo. E tenho feitiço até para fazer chover fogo. Por isso, não tenho medo desses feitici¬nhos bestas!… Quer ver?
E ela quis? Dali mesmo do terreiro rodou os calcanhares, que nem esmola esperou.
E sem a esmolinha que sempre mendigava, a mulher de Chico Me-Dá, muito desacoroçoada, tratou foi de pegar a es¬trada das Bicas, onde, seguramente, o marido já a esperava para fazê-la dormir mais uma semani¬nha…
(Liberato Póvoa, Desembargador aposentado do TJ-TO, Membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, Membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])