Fotografia: da raridade à banalidade
Redação DM
Publicado em 17 de junho de 2016 às 01:53 | Atualizado há 10 anosTirar fotografia, durante meados do século XIX e princípios do XX, devia ser um desses acontecimentos raros, ensejo no qual as pessoas escolhiam as melhores roupas do guarda-roupa, quase sempre exalando a naftalina, e depois tratavam de, com a prestimosa ajuda do daguerreotipista, estudar detalhadamente as melhores poses, quase sempre formais e graves, para aparecer bem no flagrante. Ninguém aparecia lá de qualquer jeito não, assim desleixado, como acontece nas rodas mais informais de hoje. Ora podiam se contar nos dedos das mãos o número dos profissionais voltados à chamada arte do daguerreótipo. “O daguerreótipo chegou ao Brasil em 1840, pouco tempo depois de sua descoberta ter sido anunciada na França. Sua produção e consumo esteve inicialmente atrelada ao crescente desenvolvimento urbano, e no Brasil encontrou condições mais favoráveis na capital do Império, ou seja, no Rio de Janeiro. A cidade de Salvador contou, no início áureo da daguerrotipia, com apenas 5 estúdios ao longo da década de 40, contra 4 em Recife, enquanto o Rio de Janeiro possuiu 21 no mesmo período.” Informa, a respeito do tema, aí ao lado, a professora Marli Marcondes, doutoranda então da UNICAMP, em seu texto “Fotografia e pintura. O daguerreótipo e seus primeiros ensaios no Brasil oitocentista”, disponível na web. Vê-se que, pelo que diz Marlí, se comparado com a era digital, na qual cada um, mesmo criança, se considera fotógrafo, não eram muitos os que sabiam lidar com tal métier.
“No século XIX, este controle ficava restrito a um grupo seleto de fotógrafos profissionais que manipulava aparelhos pesados e tinha de produzir o seu próprio material de trabalho, inclusive a sensibilização de chapas de vidros.” Confere a então professora adjunta do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação da mesma disciplina da Univerdidade Federal Fluminense – UFF, Ana Maria Mauad, em seu texto “Através da Imagem: Fotografia e História: Interfaces”, página 8.
Temos aí pois a profissionalização da atividade.
Tal controle restrito há de ter se estendido aos princípios do século XX. Um dos que naturalmente integravam esse grupo seleto de profissionais, nos inícios do século XX, fora o artista plástico e cartógrafo Adelino Roque de Sousa (1892 – 1943), natural da cidade de Bela Vista de Goiás.
A primeira a falar à gente do amor de Adelino pela fotografia foi a professora e doutora em educação, Nancy Ribeiro de Araujo e Silva. Nancy preside atualmente a Academia Belavistense de Letras, Artes e Ciências – ABLAC.
Depois é que a gente foi ler, a respeito dele, o que José Lobo escreve lá na sua obra póstuma, Goianos Ilustres (1974):
Pintor, escultor, fotógrafo, desenhista, cartógrafo, roceiro, orador, artista da ribalta, jornalista, pedreiro, sacristão, funcionário, o que é que Adelino não foi?
Lobo escreve mais nela:
Filho de pais pobres. Humildes. Sem nome. Gente simples e boa. Estudou? Frequentou sim, embora sem constância e sem covicção alguma, escolas primárias de sua terra natal. Mais nada. Baixo, pálido como um chinês, cabelos encaracolados, testa ampla, andar gingado e lento, cavaqueador de lei, cuja prosa viva e chistosa era disputada por todos os seus amigos. Era, enfim, Adelino Roque de Sousa, verdadeiro tipo brasileiro de moleque inteligente, cujos dotes artísticos bem fizeram dele uma espécie de “Aleijadinho” de nossa terra.
A fotografia, que ilustra o presente artigo, foi muito provavelmente tirada por Adelino Roque. Ora não havia afinal, naquele tempo, especialmente na cidade de Bela Vista, além de Adelino, quem operasse com a sensibilização de chapas de vidro. A foto retrata a família do poeta modernista Leo Lynce, que tinha suas raízes fincadas alí. Fila da frente, da esquerda para a direita: José Lobo (cunhado do poeta, de casaca escura), Normanda (irmã dele, de vestido branco), Genoveta (irmã dele), Eponina (mãe dele, tendo ao colo a neta Clotildinha, fruto do primeiro casamento de Leo Lynce com Clotilde da Motta Pedreira), Jerusaleta (irmã), Leoneta (irmã, de gargantilha clara e também vestido branco). Fila de trás, da esquerda para a direita: Idomenêo (irmão), Brasilino Teixeira (padrasto dele, de bigode e colete), Cyllenêo (Leo Lynce, de bigode e casaca escura), Antenor (irmão, também de bigode, empunhando uma bengala), Egesilêo (irmão, o rapaz alto, atrás de Leoneta). Os meninos no alto, da esquerda para a direita: Egerinêo (irmão dele, depois jornalista e líder político, de terninho branco, que será assassinado em 1938), Sebastião (irmão).
A data mais ou menos exata do retrato pode ser obtida por aproximação, em se considerando a idade da menininha alí retratada, Clotildinha. Ora, Clotildinha nasceu em 1908, tendo sua mãe, Clotilde, morrido em virtude de complicações desse parto. Ora, Clotildinha não parece ter alí mais que 5 ou 6 anos. Portanto, Adelino tirou essa foto entre 1913 ou 1914. Ou a menina parece mais nova?
Enfim, a arte da fotografia, logo em seus primórdios, não era pra qualquer um, não. Mais para artistas ou feras como Adelino Roque.
Foi também, em finais dos Oitocentos e princípios dos Novecentos, que a situação começou a mudar por influência das indústrias Kodak. “Com o desenvolvimento da indústria ótica e química, ainda no final dos Oitocentos, ocorreu uma estandardização dos produtos fotográficos e uma compactação das câmeras, possibilitando uma ampliação do número de profissionais e usuários da fotografia. No início do século XX, já era possível contar com as indústrias Kodak e a máxima da fotografia amadora: you press the bottom, we do the rest.” Diz Ana Maria Mauad, naquele seu referido texto, disponível na web.
Acreditamos ter isso se antecipado nos centros mais adiantados, onde tudo acontecia com mais celeridade, e onde o fotógrafo amador começou a atuar primeiro do que nos sertões de Goiás. O que vai se intensificar com a era digital, na qual a fotografia se tornou essa banalidade que é agora.
(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás. em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)