Brasil

Frei deseducador

Redação DM

Publicado em 3 de janeiro de 2016 às 22:37 | Atualizado há 11 anos

Em artigo publicado neste Diário da Manhã no último sábado, Frei Marcos Sassateli, que mais uma vez opta pela confortável opção do “sou contra”, atesta sua completa ignorância quanto ao tema e ao debate em torno da proposta de implantação da gestão compartilhada de escolas estaduais com Organizações Sociais. Vale-se do mesmo sofisma da falta do diálogo por parte do Governo de Goiás em torno da proposta, quando, na verdade, são os invasores de escolas, movidos por interesses político-partidários, que rechaçam o debate.

A discussão sobre a adoção do modelo está posta desde o início de 2015, quando o governador Marconi Perillo apresentou a proposta inicialmente concebida para um primeiro conjunto de escolas. Desde então, a Secretaria da Educação, Cultura e Esporte (Seduce), comandada pela experiente e respeitada professora Raquel Teixeira, passou a estudar profundamente o tema, ouvindo especialistas do Brasil e de diversas partes do mundo a respeito do modelo, adotado com sucesso em diversos países desenvolvidos ou em desenvolvimento.

Sassateli, ao contrário, revela sua enorme ignorância sobre o tema e o debate e, como obviamente lhe convém, deixa de lado diversos aspectos da realidade, inclusive suas inclinações político-partidárias – as mesmas tomadas a priori pelos invasores para rechaçar o debate. Se o digníssimo frei, que lista seus doutorados em Filosofia e Teologia Moral, defende o diálogo e o debate, por que não se propõe a discutir o modelo de gestão em si, apresentando seus prós e contras e avaliando sua pertinência segundo as diversas realidades de sua aplicação ao longo das últimas décadas?

Sim, o debate em questão é político, não há dúvida, e é saudável que assim seja. Mas é político-ideológico porque rechaça a proposta de imediato, sem nem mesmo antes conhecê-la ou debatê-la, tomando-a como ruim e inaceitável de forma preconceituosa e partidária a priori. Nada mais do que um sofisma, porque tenta confundir e ludibriar a opinião de pais, alunos e professores sob os falsos e absurdos argumentos da privatização, da terceirização, da supressão da concorrência pública e da cassação de direitos e vantagens. Palavras e expressões carregadas de ideologia. Em suma, a posição dos invasores e de Frei Sassateli é ideológica porque eles é que não querem acatar e promover o debate. O que temem?

Temem a melhoria do ensino-aprendizagem, o avanço das condições de infraestrutura, a qualificação e promoção de professores, a satisfação dos pais e evolução do aluno e do sistema educacional. Temem isto e todos os demais efeitos benéficos advindos das reformas – quaisquer reformas, não apenas a da gestão compartilhada – porque têm a plena percepção de que isto significaria o desaparecimento das fragilidades que sustentam a politicagem e a distribuição de cargos, benesses e licenças do sindicalismo corporativista, liderado por “educadores” que estão de costas para a qualidade da educação do Estado ou do País. A bem da verdade, dão de ombros para elas.

Frei Sassateli tem, na verdade, diversas questões a esclarecer e sobre elas deveria falar em seu eventual próximo artigo. A primeira: o que ele tem a dizer sobre o ensino religioso de escolas e universidades geridas pela Igreja? Por acaso essas unidades de ensino não nasceram de uma proposta diferenciada de gestão, preocupada com o ensino-aprendizagem? Há de se observar aqui que, ao contrário da proposta do governo estadual, estas sim são escolas privadas, que cobram caro pelo custo benefício da qualidade, e separam a comunidade escolar entre aqueles que podem e não podem pagar.

Propomos aqui acabar com as escolas geridas por entidades religiosas? Não! Usamos este caso como exemplo para dizer que diferentes modelos de ensino podem conviver harmonicamente, permitindo que pais e alunos optem por aquele que julgarem melhor. O modelo atual, salvo nas escolas militares, só permite uma natureza de escolha: quem pode pagar pelo ensino privado matricula seus filhos nas escolas particulares; quem não pode tem de se resignar a escolas de qualidade inferior. E isto não apenas pelas limitações do poder público, mas porque estamos diante de uma verdade cruel para os alunos de baixa renda: os professores das redes pública e particular são os mesmos, sua formação é a mesma, mas a qualidade das privadas é inquestionavelmente melhor que a das públicas e gratuitas. Por quê? A diferença está, justamente, na gestão escolar voltada para o resultado.

Esse é o verdadeiro debate, caro Frei Sassateli, em uma pátria que se propõe educadora. É uma pena que o senhor e os invasores de escolas não possam fazê-lo, porque a Doutora Dilma, que os senhores apoiam incondicionalmente mesmo diante do que aí está, cortou R$ 10,5 bilhões em recursos do Orçamento da União para programas como Fies e Pronatec e para as universidades federais. Por que os invasores das escolas estaduais não tomam universidades federais, escolas técnicas federais e prédios do Ministério da Educação? Porque são filiados ao PT e ao PC do B, são parte desse governo e desse grupo político-ideológico que está desmantelando o Brasil e, portanto, não pode permitir que os “partidos de oposição”, representantes do “supremo mal”, acertem e façam as mudanças que o Brasil precisa para avançar.

Lamentável que Sassateli, que se formou e lecionou em universidades públicas, pagas pelo povo, queira relegar os brasileiros mais pobres a escolas com ensino ainda abaixo da média. Com esse nível de porta-vozes representando nosso sistema educacional estamos realmente muito distantes de uma pátria verdadeiramente educadora. Eles querem prosseguir tentando no deseducar.

 

(Luiz Gama é jornalista, especialista em Docência Universitária.)

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