Futuro sombrio para 136 milhões de crianças
Redação DM
Publicado em 12 de julho de 2016 às 02:32 | Atualizado há 10 anosOuvindo algumas músicas no sistema on line, deparo-me com uma que chama a atenção do mundo para os dramas das crianças em todos os continentes. Lembrei-me de Pavarotti & Friend for Guatemala and Kosovo. O tenor italiano reuniu um grupo de cantores e patrocinou um concerto musical às crianças vítimas dos horrores da guerra civil do Kosovo e da Guatemala. Uma série de eventos artísticos tem mostrado a fome matando crianças na África. Rigoberta Menchú, líder indígena guatemalteca e Prêmio Nobel da Paz em 1992, saiu nas fotos da contra-capa do CD que reuniu notáveis da música.
Os horrores se voltam agora para a Síria. Los niños de Síria é uma composição em que denuncia os bombardeios em que as crianças são assassinadas. E elas não têm responsabilidade nenhuma pelo que acontece, sendo vítimas também os seus pais. Lionel Richie, autor de We are the world (Nós somos o mundo), escreveu então em 1985 sobre guerra “nós não podemos continuar fugindo”, mas sua atualidade faz-se presente.
Trata-se de um quadro profundamente triste, fora o que se vê no cotidiano de muitos lares pelo mundo afora. As crianças são vítimas da ignorância dos pais e aqui não me refiro aos castigos de sentido corretivo. As agressões por qualquer reação da criança por falta de compreensão de pais que também não tiveram uma infância com o mínimo de dignidade. Nada se justifica, claro. Isto tudo resulta em pequenos furtos, no começo, nos roubos e assaltos, ainda na própria adolescência. Segundo o Jornal Nacional, da Rede Globo, em 2001, 300 crianças morriam diariamente no Brasil.
Leio um resumo da Situação Mundial da Infância, o principal relatório do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em que prevê um cenário sombrio para as crianças. Pelo relatório, o destino delas será pobreza, analfabetismo e morte prematura. 69 milhões de crianças menores de cinco anos morrerão de causas que poderiam ser evitadas, 167 milhões de crianças viverão na pobreza e 750 milhões de mulheres terão se casado ainda crianças até 2030, data limite para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – a menos que o mundo se concentre na situação de suas crianças mais desfavorecidas, observa a instituição, que pede a atenção dos governos, doadores, empresas e organizações internacionais.
“Negar a centenas de milhões de crianças oportunidades justas na vida faz mais do que ameaçar seu futuro, alimentando ciclos intergeracionais de desvantagem: coloca também em perigo o futuro de suas sociedades”, observa o diretor executivo do Unicef, Anthony Lake. “Nós temos uma escolha: investir nessas crianças agora ou permitir que o nosso mundo se torne ainda mais desigual e dividido”, acrescenta.
Mas esse avanço não ocorreu de forma igualitária ou justa, acrescenta o documento, que damos guarida pela dimensão do tema de natureza humana e social. As crianças mais pobres têm duas vezes mais probabilidade de morrer antes do seu quinto aniversário e de sofrer de desnutrição crônica do que as mais ricas.
Em grande parte da Ásia Meridional e da África ao sul do Saara, crianças nascidas de mães sem educação formal têm quase três vezes mais probabilidade de morrer antes dos cinco anos de idade do que aquelas nascidas de mães com o ensino secundário. E as meninas das famílias mais pobres têm duas vezes mais chance de se casar ainda crianças do que as meninas de famílias mais ricas.
Em lugar nenhum a perspectiva é mais sombria do que na África ao sul do Saara, onde pelo menos 247 milhões de crianças – ou duas em três – vivem em pobreza multidimensional, privadas do que precisam para sobreviver e se desenvolver, e onde quase 60% dos jovens entre 20 e 24 anos de idade do quintil mais pobre da população tiveram menos de quatro anos de escolaridade.
De acordo com as tendências atuais, o relatório projeta que, em 2030, a África ao sul do Saara responderá por: quase metade dos 69 milhões de crianças que morrerão antes do seu quinto aniversário de causas que poderiam ser evitadas; mais da metade dos 60 milhões de crianças em idade escolar primária que ainda estarão fora da escola; e nove de cada dez crianças vivendo em pobreza extrema. É, realmente, sombrio.
O documento ressalta que embora a educação desempenhe um papel único para que todas as crianças tenham chances iguais, o número de crianças que não freqüentam a escola aumentou desde 2011, e uma proporção significativa dos que vão à escola não está aprendendo. Aproximadamente 124 milhões de crianças hoje não vão à escola primária nem ao primeiro ciclo da escola secundária, e quase duas a cada cinco que terminam a escola primária não aprenderam a ler escrever ou fazer contas simples.
O relatório aponta para a evidência de que investir nas crianças mais vulneráveis pode trazer benefícios imediatos e de longo prazo. As transferências de renda, por exemplo, têm demonstrado sua utilidade em ajudar as crianças a permanecerem na escola por mais tempo e avançarem para níveis mais elevados de educação. Em média, cada ano adicional de educação que uma criança recebe aumenta sua renda, quando adulta, em cerca de 10%. E, em média, para cada ano adicional de escolaridade concluído por jovens adultos em um país, as taxas de pobreza desse país caem 9%.
A iniquidade não é inevitável, nem intransponível, segundo o relatório da Unicef. Melhores dados sobre as crianças mais vulneráveis, soluções integradas para os desafios que as crianças enfrentam maneiras inovadoras para resolver problemas antigos e investimento mais equitativo e maior envolvimento por parte das comunidades – todas essas medidas podem ajudar a proporcionar igualdade de oportunidade para as crianças.
Pelo que se observa, é chocante e a sociedade mundial precisa reagir, investindo nas crianças mais vulneráveis e proporcionar benefícios de curto, médio e longo prazos. Não podemos ficar alheios ao problema.
(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em agropecuária pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, e autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)