Gaspar Lopes, uma cidadezinha desconhecida
Redação DM
Publicado em 19 de janeiro de 2016 às 21:52 | Atualizado há 10 anos
“Lá estava a cidade, no verde vale do rio, rodeada de muros, uma cidadezinha alemã desconhecida pelo reino afora, um povoado perdido e pobre, que era, entretanto, um mundo para seus moradores e filhos, um lugar para se viver em e para serem enterrados.”
(Narrativas Herman Hesse)
Seis horas da manhã, frio de “cortar a alma”, o trem apitava bem longe; minha mãe que já estava de pé desde as cinco horas, com o café, leite e os biscoitos quentes já prontos, tentava acordar-nos, eu e o meu irmão de criação, Servinho Tutu, para que fôssemos para a estação de ferro vender as quitandas no nosso barzinho.
Alguns anos depois que parti para bem distante, voltei a Gaspar Lopes, principalmente à nossa casa situada perto da estação da Rede Mineira de Viação. Confesso, fiquei um pouco decepcionado; sempre achara que o ribeirão que passava em frente, fosse muito maior do que realmente se me afigurava agora. Será que ele encolheu ou a fantasia de criança aumentava sua dimensão? A distância entre nossa casa e a estação de ferro, também diminuiu ou os passos miúdos do menino, dava esta falsa impressão? Será que os bagres e traíras que pescávamos ali, também eram menores do que eu imaginava?
O verão adquiriu matizes mais carregados, as flores que existiam, apenas para embelezar nossos caminhos de outrora, começaram a murchar; a estação de ferro está silenciosa, os passageiros da Rede Mineira de Viação volveram seus olhos e seus interesses para outros meios de transporte. Não fazem mais baldeações naquelas antigas plataformas! As chuvas de setembro levaram consigo, não somente a poeira das estradas, mas também o burburinho dos antigos moradores. O progresso (?) fechou o Cine São Jorge e a “venda” do senhor Ângelo Agostini. A senescência, na sua voragem, implacável como o tempo, abraçou e consumiu muitos viventes daqueles tempos, senhor João Corrêa e dona Amália, senhor João Agostini, tio José Pereira, dona Quinha, sogra do senhor Magno, chefe da estação e muitos e muitos outros. Os que ficaram sentem os rigores do inverno que, sem o consentimento explícito do portador, teima em mostrar a sua presença, através da canície e, também, cuida de embaçar a acuidade visual.
Fecho os olhos e vejo perfilando, como se eu estivesse mirando um caleidoscópio multicolorido, as casas que compunham a nossa rua principal; minha posição é privilegiada: estou no pátio da estação, no local onde estacionava a “jardineira” que buscava os passageiros que chegavam no trem.
Quem me vê falando em rua principal deve pensar, também, em muitas outras ruas secundárias. Éramos tão poucos, eram tão poucas as nossas ruas! Acho que consigo contá-las com os dedos das mãos. Eram nomeadas por nomes próprios? Sinceramente não sei, eu as conhecia por rua da casa do senhor Zequinha Banhos, rua perto do laticínio do senhor Bernardo Piazzalunga, rua onde morava meu tio José Pereira, rua onde morava o senhor João Corrêa, etc.
Aquela a que estou me referindo como “principal” refere-se à localizada logo acima da estação de ferro, onde existia a maioria das casas de comércio e, se continuássemos caminhando por ela, iríamos chegar à cerâmica do senhor Calixto Lupi.
Bem na esquina, quase em frente da minha linha de visão, vejo a casa do Rômulo Braga, compadre da minha mãe; não era uma casa imponente, porém, construída com alguma arte, principalmente suas janelas, todas com peitoris desenhados em alto relevo. Logo depois vinha a casa do senhor José Chicuta, pai dos senhores Jorge Braga, Rômulo, Pedrinho, Chiquito, Paulo, Mário e do meu padrinho Quinca, casado com a madrinha Glorinha.
Estive na venda do genro do senhor Alvino Barbosa; sinceramente, fiquei na dúvida se não era ali a antiga casa do senhor José Chicuta; se for verdade, novamente fui traído pelas minhas reminiscências, sempre a imaginei muito maior!
Reminiscências são como o buquê do vinho elaborado com cepa de uva de qualidade superior e que inunda nosso olfato; cada vez que testamos nossa capacidade de descobrir o odor que exala do cálice, sempre iremos descobrir novo perfume.
Mesmo que o vinho seja o mesmo e da mesma safra, ele muda de aroma e de sabor com o tempo, as emoções serão sempre outras!
Correndo os olhos para esquerda “vejo” a venda do senhor Ângelo Agostini; vi-me postado de frente ao balcão, em companhia de minha mãe, fazendo compras, principalmente de gêneros alimentícios.
Senhor Ângelo gostava de falar-nos que não se preocupava em nos vender “fiado” porque minha mãe levava muito a sério suas contas e era das poucas freguesas que o obrigava a anotar as despesas duas vezes: na sua própria caderneta e na nossa. Quando meu pai recebia o ordenado, uma das primeiras coisas que fazíamos era ir pagar as contas que devíamos ao senhor Ângelo; recebíamos, sempre, um brinde como homenagem à nossa pontualidade.
Fizemos uma grande festa quando ganhamos uma torradeira de café, fabricada em São Paulo; naquele dia torramos, até bem tarde da noite, todo nosso estoque de rubiácea, fomos dormir com os braços doendo de tanto rodar a manivela do aparelho; este simplório aparelho era o sonho de consumo da minha mãe!
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)