“Indignai-vos”
Redação DM
Publicado em 27 de novembro de 2016 às 00:50 | Atualizado há 10 anosNão faz muito tempo, ao falar sobre o Dia Internacional das Mulheres, aqui neste espaço, citei Stéphane Hessel. Falecido em 2013, aos 95 anos, Hessel, nascido em Berlim, mas de nacionalidade francesa, foi um dos autores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, além de participante da resistência ao nazismo na França. Sua obra mais conhecida, mundialmente, é o livreto “Indignai-vos”, lançado em 2010.
Justificando o título que deu ao seu livro, Hessel disse: “A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar”.
Bem, naturalmente não vou aqui fazer uma análise filosófica da obra de Hessel. Embora valesse a pena.
Entretanto, quero trazer a força da sua frase para pensarmos juntos sobre a realidade que nos cerca mais de perto. Pensemos no Brasil, a partir de Hessel.
Com a proximidade do último mês do ano, será que, nós, brasileiros, temos motivos para nos indignarmos? Evidentemente que, em tempos de lembrança do mensalão, nem tão distante assim; do petrolão, que invade as nossas consciências a cada vez que ligamos a televisão, ou o rádio, ou acessamos as redes sociais; que tomamos consciência dos níveis de corrupção que impregna a realidade do nosso país; que vivenciamos a nossa crise econômica sem precedentes, com os 12 milhões de desempregados, com a classe média se esfacelando, com a perda da qualidade de vida; que vemos a crise se aproximando de cada lar; que vemos a saúde inacessível para a maior parte da população; que sabemos que nossos filhos não estão recebendo uma educação de qualidade. Evidentemente que com essa relação macabra de lembranças, a resposta é sim.
É momento de atenção e reflexão para os rumos que queremos dar ao nosso país.
Por oportuno, quero relembrar aqui, o artigo terceiro da Constituição de 1988, de belo acabamento jurídico, que reza o seguinte sobre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Eis aí, nesse artigo da Constituição, um belíssimo programa para qualquer candidato e/ou partido, que identificaria um Estado de Direito democrático, efetivamente comprometido com a justiça social.
Ora, esses princípios, que se colocam dentre as mais belas construções dos nossos textos constitucionais, não saíram, ainda, do papel. É fácil concluir, então, que, numa proposta de construção democrática, são esses princípios afirmados e garantidos na Constituição que deverão orientar a participação popular em ações de cobrança, fiscalização e, eventualmente, de exigência de punição dos responsáveis por omissão, negligência ou corrupção.
Voltando ao inspirador de nosso tema, Hessel, em seu livro ele se estende e diz: “Acredito que há um risco, que é o de que as pessoas se indignem, protestem e depois tudo continue na mesma. É preciso que a indignação dê lugar a um comprometimento conjunto.”
Disse também que acreditava na política, mostrando-se “convencido de que é preciso acreditar para não nos deixarmos desencorajar”.
Assim, acredito na força que tem o conjunto da sociedade. Cabe-nos a todos, na nossa indignação, zelar para que a nossa sociedade, nos seus fundamentos básicos, seja reconstruída e se mantenha uma sociedade da qual nos orgulhemos.
Em recente artigo, em que me dirigi aos prefeitos eleitos de Goiás, disse que não podemos quebrar a esperança da população que foi às urnas. A população quer soluções que venham ao encontro de suas reais necessidades.
Ao nosso povo digo que a indignação, da qual falo aqui hoje, conduz à luta e ao trabalho. Ela dá base à esperança. Indignados, nós somos verdadeiros militantes, fortes, e fazemos acontecer a história para uma realidade melhor do que a que vivemos.
No Brasil de hoje a pior das atitudes é a indiferença.
Indignai-vos!!
(Lúcia Vânia, senadora (PSB), ouvidora-geral do Senado e jornalista)