Jesus, o magistrado de Deus
Redação DM
Publicado em 12 de junho de 2016 às 01:59 | Atualizado há 9 anosDe madrugada, voltou Jesus ao Templo. Todo o povo acorria a ele e, sentando-se, os ensinava.
Os escribas e os fariseus conduzem uma mulher surpreendida em adultério e, colocando-a no meio, disseram-lhe:
“Mestre, esta mulher foi surpreendida no próprio ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena que tais mulheres sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?”
Eles assim diziam, tentando-o, para terem de que o acusar. Jesus, porém, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo.
Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e lhes disse: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.
E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever na terra.
Eles, porém, ouvindo estas palavras, foram-se retirando, um após outro, a começar pelos mais velhos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava.
Então, erguendo-se, Jesus lhe disse: “Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?”
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”.
Disse, então, Jesus: “Nem eu te condeno. Vai, e não peques mais”.
(Evangelho de João, cap. 8, vv. 2 a 11).
O sábio Messias aproveitou essa ocasião para estabelecer o princípio da verdadeira Justiça que os seres humanos devem praticar. Não basta condenar segundo a lei, mas também segundo as nossas consciências. Isso, para que haja misericórdia e não hipocrisia. Esse ensinamento do Mestre também se estende ao Estado quando aplicar as sua leis. Quando o Direito estatal determina que ninguém pode alegar ignorância em face da lei, deveria iniciar a sua justiça erradicando o analfabetismo e oferecendo as devidas condições para que todos conheçam as suas leis e passem a cumpri-las.
Logo ao amanhecer, Jesus retorna do monte das Oliveiras, onde havia passado a noite orando, e se dirige ao templo de Jerusalém. O Mestre ensinava a tantos que o procuravam. Sentou-se num lugar de destaque diante do povo ávido de seus ensinamentos, de suas curas e de suas orientações. O ambiente estava calmo. Somente a voz penetrante do Messias se fazia ouvir diante daquelas almas carentes de fé e de esperança. No entanto, essa paz ambiental foi interrompida diante dos escribas e fariseus que lideravam um grupo de acusadores que conduziam uma mulher flagrada em adultério à presença do Mestre. Isso, com a intenção de acusá-lo por desrespeito às leis de Moisés ou às leis de César, que desaprovava o apedrejamento, ou, ainda, de tornar desacreditada a sua doutrina de Amor e Perdão.
Segundo o costume, a mulher adúltera deveria estar despida da cintura para cima como prova de sua desonra e, estando em lágrimas, tenha se encolhido com os braços cobrindo o corpo.
Ao perceber a malícia dos seus interlocutores, Jesus parecia não querer entrar na armadilha. Inicialmente, o Mestre nada respondeu diante dos acusadores da mulher adúltera. Por que julgar apenas a mulher? Afinal, onde estaria o homem que coabitou com a aquela mulher? A lei de Moisés, em Levítico (20:10) sentencia: “Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera”. Da mesma forma, a sentença de morte era extensiva às noivas, conforme se verifica em Deuteronômio (22:23-24):
“Quando houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo; assim tirarás o mal do meio de ti”.
Ainda assim, conforme informa Carlos Pastorino, em sua obra Sabedoria do Evangelho (vol. 5), naquela época “a condenação pelo Sinédrio era simbólica, já que desde o domínio romano, a pena de morte (jus gladii) fora retirada do Sinédrio e reservada ao Procurador”.
Quanto ao adultério, o sublime Messias já havia dito (Mateus, 5:28): “Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”, demonstrando que é por meio do pensamento que se inicia o desrespeito às leis divinas e por isso deve-se vigiar cada ato mental.
Diante daquela circunstância, Jesus deixou de falar e passou a escrever na terra com o dedo com se desejasse lembrar a todos o que estava escrito em Êxodo (31:18) e Deuteronômio (9:10), respectivamente: “Quando ele terminou de falar com Moisés no monte Sinai, entregou-lhe as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedra escritas pelo dedo de Deus” e “Iahweh deu-me então as duas tábuas de pedra, escrita pelo dedo de Deus”. O Messias veio aperfeiçoar o entendimento diante das leis de Deus por meio do Amor, da Fraternidade, da Justiça e da Misericórdia. Embora não se saiba o que o Cristo escreveu na terra, é bem provável que tenha escrito os seus mandamentos de amor ao próximo, de perdão das ofensas e de amor ao inimigo. Ao seguir esses novos mandamentos, o sublime Magistrado de Deus respondeu aos seus insistentes e maliciosos interlocutores: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. “E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever na terra”.
A repercussão do julgamento de Jesus foi instantânea. Os mais velhos compreenderam imediatamente a lição imorredoura e por isso foram os primeiros a saírem do local, dando exemplos aos mais novos que repetiram o gesto. Os escribas e os fariseus, que ficaram sem argumentos, também se retiraram deixando a mulher no meio onde se encontrava. Todos os acusadores se retiraram, somente ficando no local os discípulos e o povo que Jesus ensinava.
Depois de escrever na terra, Jesus se levantou e perguntou à mulher: “Onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. O divino Magistrado, então, sentenciou: “Nem eu te condeno. Vai, e não peques mais”. Jesus, o único presente sem pecado, que teria condições de atirar a primeira pedra, nos ensina que a melhor sentença para o infrator é determinar que ele não retorne ao erro, sob pena de ocorrer maiores dores morais perante as leis de Deus.
Verifica-se que o Mestre censurou qualquer tipo de violência para com os infratores. No entanto, estabeleceu que é necessário um processo educativo de mudança definitiva de comportamento, partindo do seguinte princípio: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas” (Mateus, 7:12).
Não se sabe se aquela mulher voltou a praticar o adultério. É mais provável que tenha se tornado uma discípula fervorosa do Cristo. Também não se sabe se era noiva ou casada, mas devido a esse ensinamento do Cristo, é provável que tenha suportado e superado com dignidade as dores morais advindas dos seus familiares e dos seus entes queridos. Não se sabe, ainda, o que ocorreu com o seu parceiro de adultério, porém, é provável que ela tenha usado do perdão e da misericórdia do mesmo modo que recebera do Messias.
Não raras vezes, nos prendemos ao passado, guardando mágoas e lamentando erros que não podem ser apagados, mas que podem ser corrigidos perante as leis de Deus por meio de uma mudança eficaz de comportamento para o Bem. “Vai, e não peques mais” é um novo mandamento do Cristo que se aplica à todos nós. É a melhor terapia que existe para quem sofre as dores do remorso e as aflições dos sentimentos de culpa. É o sublime convite para a metanoia. Será a sentença futura de todos os magistrados, ao aplicar penas que realmente conduzam à uma educação eficaz por meio do trabalho, da instrução e da solidariedade. Esse é o julgamento de Deus proferido por Jesus diante das fraquezas morais que afligem os sentimentos humanos.
(Emídio Silva Falcão Brasileiro, pesquisador, membro da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás e leitor do jornal Diário da Manhã)