Jesus, o sublime enfermeiro
Redação DM
Publicado em 10 de novembro de 2015 às 01:12 | Atualizado há 11 anosUm dos personagens mais biografados da história da humanidade foi o Jovem Galileu – Jesus. Foi comparado a rei dos reis, médico, professor e psicólogo de almas. Especialmente no Ocidente, sua vida e seus ensinamentos ecoam pelos séculos. Mas de todas as suas obras, relatadas pelos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, são as curas milagrosas que povoaram e ainda povoam o imaginário social. Considerado a luz do mundo, veio para todos, sem distinção, embora tenha se queixado que, se não fizesse milagres, seu evangelho não sensibilizaria a multidão. Ele disse: “Se não virdes milagres e prodígios, não acreditareis!” (Jo 4:48).
Aguardar, passivamente, um milagre não é um comportamento incomum. É provável que o hábito de deixar-se adoecer para depois procurar tratamento tenha estreita relação com a espera por um milagre, ou seja, sem que haja o esforço da mudança de hábito e de comportamento. Por detrás da busca pela vida eterna – e quase sempre a favor do prolongamento da vida aqui mesmo no orbe terrestre – hábitos saudáveis vêm perdendo espaço no cotidiano das pessoas.
Os estímulos à alimentação saudável, à atividade física, à boa e tradicional higiene estão se perdendo em função do medicamento, da cirurgia estética e da reparação dos danos causados pelos abusos.
Pouco a pouco o autocuidado, as refeições em família, o sono noturno suficiente, a hidratação adequada são deixados para segundo plano. Subsiste o cenário de fast foods, festas ou reuniões de amigos regadas a bebidas alcoólicas até o amanhecer, sedentarismo e estresse. O resultado é o adoecimento, que não leva à morte súbita, ao contrário, lenta e discreta. Mesmo as horas dedicadas à academia, longe de serem prazerosas, são solitárias, forçadas, substituindo uma boa caminhada (ou pedalada) com um familiar que necessita colocar os assuntos em dia.
Prefere-se a zona de conforto, sem enxergar a influência do ambiente na saúde. Se antes o homem morria devorado por feras gigantescas, hoje se morre devorado por feras microscópicas – os vírus, bactérias e fungos.
Atentos a essa realidade degradante, os enfermeiros acentuam o debate sobre formas inteligentes de se manter a saúde. A Enfermagem é tão antiga quanto a própria humanidade. Nasceu com os povos nômades que, ao caminharem em busca de novos territórios, tiveram que parar para ajudar a gestante a parir e cuidar do recém-nascido. Outras vezes se dispuseram a ficar acordados à noite para os velhos, doentes ou feridos não fossem devorados pelas feras. Se ali ficou alguém saudável, generoso, intuitivo e conhecedor da dor humana, para que os mais frágeis se restabelecessem ou morressem com dignidade, ali nasceu a enfermagem e, dela, as primeiras tribos e as grandes civilizações.
Ontem e hoje, assim como Jesus mais orientava do que curava, os enfermeiros utilizam a palavra para negociar com o hipertenso e com o diabético para que estes possam mudar a alimentação e fazer atividade física. Mas, com todo respeito, o que alguns pacientes querem mesmo é levar o medicamento para casa e, de preferência, um atestado de 15 dias.
Os enfermeiros estimulam as mães a levarem os filhos para a vacinação, porém muitas só comparecem à sala de vacinas em épocas de campanhas. Muitos não ficam atentos às mudanças climáticas e só se protegem depois que o organismo já manifestou alguma infecção, lotando as filas à espera do médico para o ritual anual de tomar um antibiótico. Mesmo levando o medicamento contra Tuberculose ou Hanseníase para casa, logo que os sintomas diminuem, interrompem o tratamento, gerando riscos para os que com eles convivem.
Uma observação atenta dos enfermos que buscam as unidades de pronto atendimento de emergência, não são casos de emergência. Pasmem: a maioria está deambulando, verbalizando e auto e alopsicologicamente orientados no tempo e no espaço. Se o Enfermeiro da Classificação de Risco – que fez cinco anos de faculdade e é especialista em emergência – avalia competentemente esse enfermo e detecta que o mesmo não precisa ser internado, nem de procedimento cirúrgico, este se irrita. O enfermeiro tem seu próprio diagnóstico de Enfermagem e sabe se o enfermo com dor precisa ou não passar na frente do infartado, do que está com hemorragia ou se já está diagnosticado pelo médico e necessita ser acompanhado pela equipe de saúde da família.
Não é raro a ambulância do Samu ser acionada pela comunidade para atender casos de alcoolismo, tontura e casos simples, sendo que o serviço existe para urgências e emergências, ou seja, onde haja risco de morte.
É fato que muitos estão em busca da cura, embora nem todos estejam dispostos à mudança interior, que fará com que não mais adoeçam.
Nos tempos de Jesus não era diferente. A multidão, quando soube que o Galileu curava a todos, partiu em caravana aos lugares onde ele se encontrava. “A multidão o seguia e ele os curava a todos” (Mt 19:2). Diria que uma espécie de Sistema Único de Saúde (SUS), sob os princípios da integralidade, equidade e universalidade, levaram à supervalorização do então JeSUS.
Mas é preciso lembrar que Jesus curava, principalmente, usando a palavra e não trazia no bolso medicamentos, nem instrumentos para atos cirúrgicos. Que ferramenta ele utilizou, senão a palavra? Na desobsessão ou na repreensão, por intermédio da fé, por imposição das mãos ou utilizando os fluidos do próprio corpo (saliva), Jesus utilizava exortação e não o terror. Das 22 curas citadas nos evangelhos, em 20 ele utilizou a palavra. Duas delas somente toque, como foram os casos da cura da sogra de Pedro e o cego de Betsaida. Em sete curas ele utilizou toque e palavra, destas, três acrescentou saliva e em uma delas a mulher doente tocou nele. As curas clássicas de Jesus incluem: cinco endemoniados, quatro paralíticos, quatro cegos, dois leprosos, três ressuscitações, um febre, um surdo-gago, um hidrópico e um fluxo de sangue. Nesse último, a mulher havia gasto todo seu dinheiro com médicos e não havia conseguido a cura.
De que adianta o medicamento, o ato cirúrgico se não houver mudança de hábito? Há casos que realmente não há solução, senão a intervenção invasiva, em que mãos habilidosas retirarão do interior do corpo o elemento causador do sofrimento.
O que faz mal deve ser retirado, mas o que causa o mal também não deve ser repetido!
Muitos consideram a internação uma prisão. É durante a internação em um hospital que o paciente torna-se refém dos enfermeiros: não pode isso, não pode aquilo, caminhe ou fique quieto, se não consegue ingerir alguma substância, esta lhe será injetada diretamente na corrente sanguínea. Isso significa que farão por ele aquilo que ele não consegue fazer por si mesmo. Depois da alta é provável que o ritual de hábitos inadequados retornem tão logo a dor vá embora. Às vezes a doença retorna por outras vias.
Os evangelhos citam que Jesus curou também de forma indireta, sendo nove pedidos para parentes, servos e amigos. Além de seis pedidos indiretos, utilizando a palavra “misericórdia”, ou seja, queriam ser curados. Em vez de utilizar a palavra “venha”, Jesus utilizou muitas vezes a palavra “vai”. Isso significa que ele não pretendia que o enfermo, agora curado, ficasse preso a ele. “Vai e te mostra aos sacerdotes” (Mc 1:44), “Vai e, como creste, te seja feito” (Mt 8:13), “Vai, a tua fé te salvou”(Lc 17:19).
Essa é uma atitude de quem quer que o outro se firme. As expressões enfáticas de Jesus ao dizer, “levanta”, “sai dele!”, “estás livre”, “tem ânimo” demonstram que Jesus desejara a liberdade daqueles que se aproximaram dele. Queria torná-los firmes. Quem não tem firmeza é o enfermo. Origem do latim in + firmus. Daí a origem da palavra Enfermagem – aquele que torna o outro firme, capaz de cuidar de si mesmo.
Eis a razão para considerar Jesus o eterno enfermeiro. O enfermeiro estimula ao ânimo. Ele atua não somente na promoção da saúde, mas também na proteção contra a doença, na recuperação daqueles que adoeceram e na reabilitação dos que ficaram com sequelas. Preocupa-se não só com o corpo, como também com a mente, as emoções, enfim, com a alma. Utiliza o olhar sereno e o toque das mãos para aliviar a dor. Atende quando é chamado e está ao seu lado dia e noite. Procura ver o outro como um todo, com a qualidade de vida.
Não busca evidência ou fama, afinal, quem conhece a verdade se liberta. Compartilha seus conhecimentos com seus fiéis discípulos que o ajudam no cuidado. Sabe que a pessoa é mais que um órgão adoecido, ao contrário, é um ser biológico, psicológico, emocional e espiritual.
Respeitar o próprio corpo e seus limites faz parte da caminhada em direção à vida eterna e, enquanto não seja possível caminhar sozinho, é melhor ter um enfermeiro ao lado. É provável que exista remédio para quase todo tipo de doença, contudo o melhor de todos é a paz de quem se cuida.
Afinal, não se cuidar é não amar a Deus. Diria que é ofendê-lo, uma vez que despreza o que recebeu de graça – a vida.
Evidente que Jesus é um enfermeiro altamente evoluído. Quisera que todo enfermeiro tivesse os dons de Jesus e que todo enfermo seguisse Sua palavra. A qualquer momento Ele atenderá. O que ele quer em troca? Mudança de comportamento e amor: a Deus, ao próximo e a si mesmo.
(Marislei Espíndula Brasileiro, escritora, enfermeira, mestre em Enfermagem, doutora em Ciências da Religião, doutora em Ciências da Saúde – E-mail: [email protected])