Joãozim do Santo
Redação DM
Publicado em 2 de janeiro de 2018 às 22:07 | Atualizado há 9 anos
Senhor Delegado.
O Fabim é aquele baixinho que uma vez tacou fogo num barraco da Quadra 5 aí mesmo no Grajaú. Antes disso ele mesmo, assessorado por não se sabe mais quantos outros, havia roubado um CD de um, que se inclui entre aqueles tantos outros. Mas foi preso. Depois, também não se sabe por que, foi solto.
Ajuntou-se hoje com o Joãozim do Santo e uma faca de muito boa marca. E assim muito bem apoiados pelo aço frio e impiedoso de tão conceituada lâmina esses dois seguiram os passos de outros dois: o Feliz mundo e a Maria. Então, no momento azado, em pontas de pés pra não fazer barulho nenhum, acobertados pelas folhas dos inocentes e mui frondosos pés de flamboyant, e se esgueirando sorrateiramente por detrás de cada poste, lá foram aqueles primeiros dois, seguindo os passos destes segundos dois. Já sabiam o quê o casal iria fazer, Autoridade! Tirar dinheiro do banco, uái!
E esse tal Joãozim do Santo, Doutor Izilmo, assessor do Fabim, é grande, grosso e forte. Enquanto o coitado do Felizmundo é fino, pequeno e fraquinho. E tem mais, Autoridade: se o senhor der uma olhadinha no Curriculum Vitae do Joãzim do Santo, verá que de santo esse cristão só tem o nome.
Doutor Izilmo, eis que a Armazém do Chico fica na Quadra 8, na Barraca 1, também do Grajaú. Onde que essa empresa entra na história…? Precisamente no fim da linha daqueles três. – Três porque, àquela altura Felizmundo já havia sacado o dinheiro do caixa eletrônico, e Maria, com uma merrequinha de nada já havia tomado o caminho de casa. Felizmundo, rumos outros não sabidos. Fazer o quê, também não se sabe. Maria, como toda boa Maria, bem que pelejou com ele atéééééé… pra que ele lhe entregasse pelo menos um pouco mais daqueles quinhentos contos. Pra guardar em casa, uái! Senão… gastava tudo atoa. Ou então… ladrão roubava. E foi precisamente essa segunda coisa – fatídico vaticínio de Maria – o que aconteceu, Autoridade! Lá no Armazém do Chico, anteriormente, nestas linhas, já mencionado.
Foi lá que os outros dois deram o bote no desditado Felizmundo. Quinhentos contos… ou quase… de menos a merriquinha que deixou com a coitadinha da Maria! Não devia chegar a uns… setenta… oitenta… será? Dinheirinho suado que, como vendedor ambulante de brinquedo e outros trens nos terminais de ônibus, vem economizando e enfiando no banco desde os albores deste ano em agonia.
Agora… aquelas duas crias do capeta pegaram tudo. Levaram dele, além de toda essa verba, também os seus documentos pessoais. O que deixaram para o coitado foi uma porção de feias e fundas fendas feitas pela dita faca. Um à altura do cotovelo esquerdo, outro na barriga e outro mais no peito. Bem por cima do coração. O fato correu célere e chegou bem depressa nos ouvidos da sua Maria. Sua dedicada e assaz abnegada companheirinha correu também para o Armazem do Chico. Deu com o Felizmundo caído ao chão, sem forças para gemer um ai sequer.
Data Venia, Senhor Delegado, é bem verdade que o Felizmundo bebe um pouquinho.
Mas só um pouquinho!
Há de ter sido muito mais a força da hoste inimiga, então em número dobrado, e ainda reforçada com aquele aço inexorável, o que o fez em pedaços no chão.
Maria bem depressa arranjou um jeito de trazer o bom – conquanto mui teimoso companheiro – ao Hospital de Urgência de Goiânia, em busca de suturas para os ferimentos que lhe impingiam acerba dor. Neste Templo da Saúde, de portas e braços sempre abertos, foi prontamente atendido pelo mui competente exército da vida.
Senhor Delegado, aqui estão os últimos dois. E agora? Por onde andarão os quase quinhentos e os outros dois?
(Francisco de Oliveira Santos. Chiquim, o ecrivão. Será publicado em breve na obra “Teje Preso!”)