Lembranças dos tempos de escola
Redação DM
Publicado em 11 de outubro de 2015 às 23:32 | Atualizado há 11 anosAgora as aulas de Educação Física aconteciam às madrugadas, para ser sincero depois das cinco horas da manhã, durante três vezes por semana, as segundas, quartas e sextas-feiras. Mas para nós não tinha hora certa para sair de casa ou para chegar ao local das aulas, duas, três, quatro ou cinco, não importava o horário, o que mais importava mesmo para nós, eram as diversões, as traquinagens e as algazarras que vivíamos pelos caminhos.
Eu era o madrugador, acordava, levantava, me vestia e em seguida, ia chamar meus amigos Roney, Érick e, posteriormente, chamávamos Edu. Então eu chamava Érick, que morava bem próximo à minha casa e enquanto ele se arrumava eu descia à rua, mais um pouco, três ou quatro casas abaixo para acordar Roney, depois voltava e ficava conversando com Érick, enquanto aguardávamos a chegada de Roney que cada dia parecia demorar mais para chegar. Assim que ele chegava íamos chamar Edu, pois ele morava um pouco mais afastado, noutra rua.
Tinham aqueles dias em que éramos obrigados a chamar Djou e Biano, este, filho de Irá, aquele um vizinho, mas às vezes, eles não nos acompanhavam e iam por ruas diferentes com intuito de chamar outros colegas deles. Após Edu se levantar, calçar o tênis e sair, sempre mascando alguma coisa, dirigíamos para o outro lado da cidade para chamar Vaguinho e Dil, depois voltávamos pelo mesmo lugar e seguíamos rumo à escola. Outras vezes, quando raramente, o sono vencia o meu despertar, Vaguinho e Dil acordavam, passavam pela casa de Edu, chamava-o e todos iam para a nossa rua nos chamar. Nesses dias íamos pelo lugar costumeiro de Djou e Biano, em consideração a eles, por ter ido nos chamar.
Funcionava assim: Edu morava numa casa que ficava numa rua paralela à rua que Roney, Érick e eu morávamos e paralela à rua que Vaguinho e seu irmão Dil residiam. Sendo que quem estivesse nas duas primeiras e pretendesse se dirigir para a terceira teria, obrigatoriamente, que atravessar uma ponte sobre um pequeno riacho chamado Tijucuçu e vice-versa. Então como Edu morava na rua do meio ficava mais fácil para Roney, Érick e eu chamá-lo para irmos à casa de Vaguinho e Dil. Quando estes dois acordavam primeiro era mais fácil chamar Edu e aí sim marchar para a nossa rua. Quando isso acontecia era mais fácil irmos para a quadra de futebol pelo caminho costumeiro de Djou e Biano, uma vez que não precisávamos descer até a casa de Edu para chamá-lo.
Mas o divertido mesmo não era só despertar cedo para ir às aulas de práticas esportivas, tudo ia muito mais além, o gostoso era o que aprontávamos pelos caminhos. Naquela época, às vezes, quando levantávamos muito cedo, resolvíamos chamar outros colegas além daqueles que costumávamos chamar, para irmos juntos. Não que fosse uma necessidade, era um favor. E depois, se eles fossem conosco, tudo bem, caso não, não tinha nenhum problema, pois Érick, Roney, Edu, eu e alguns outros éramos suficientes para fazer a festa.
Sempre que íamos para as aulas madrugadeiras, aprontávamos algum ato de molecagem. Às vezes, pegávamos umas tochas e íamos colocando fogo em todos os lixos que encontrávamos à nossa frente. A cidade ficava toda iluminada, pois além da luz elétrica que não era lá essas coisas, as fogueiras que criávamos contribuíam muito para reforçar o clarão e, todo o tempo, pareciam épocas de festas juninas, festas de São João. Todavia íamos gritando, barulhando e escandalizando, sem nenhum intuito de perturbar o sono daqueles cansados e adormecidos. Outrora, portávamos umas varetas que, para nossos pais, serviam para defendermos dos cães que ladravam noite afora, livres pelos logradouros, mas isso era apenas uma desculpa, as varetas eram muito frágeis e não nos serviam para uma defesa caso algum animal raivoso tentasse nos atacar, o nosso pretexto era pressioná-las contra as grades de ferro dos muros das estâncias para ativar a defesa, raiva e bravura dos cães, que presos nos quintais, protegiam seus lares. Os moradores ficavam irritados e nos consumiam em nomes feios e palavrões, mas não adiantavam, eles não sabiam ou pelos menos fingiam não saber quem éramos.
Um dia quando Roney, Edu, Érick, Vaguinho, Dil, Djou, Biano e eu íamos para a aula, de madrugada, pressionando as varetas nas grades, notamos que uma senhora, na realidade, minha ex-professora Ane, esquecera ou deixara de propósito o portão do muro aberto, mas já estávamos muito próximos e sem defesa. Um enorme cão raivoso, feroz e de cor preta tentou nos atacar! Corremos em variadas direções, com a intenção de confundir o animal, mesmo assim ele corria atrás de um, ia ao encalço do outro e sempre estava perseguindo um de nós, naquele momento. Foi em disparada atrás de Roney que só encontrara uma alternativa: escalar uma muralha em frente à casa de onde o cão saíra. Roney, ao subir, logo percebeu que a situação não era favorável a ele, pois do lado de dentro da muralha havia outro cão bem maior que o primeiro, de orelhas caídas, dentes afiados, unhas aguçadas, babando, pronto para atacá-lo.
A solução encontrada, naquele momento, foi um pouco perigosa, mas como ele não possuía outra opção, foi forçado a arriscar sua pele caminhando em cima do muro, por muito tempo, até que depois, sem notar a nossa presença e aflição, a senhora, proprietária do cão que nos atacou, veio para fora, o colocou para dentro novamente e fechou o portão. Com isso, Roney pode respirar, desceu do muro e, juntos, seguimos rumo à escola, sabidos de que naquele dia escapamos por pouco… Mas aquilo tinha sido só um susto, um susto muito pequeno e incapaz de coibir nossas aventuras que ainda continuariam por muito tempo.
Talvez uma das coisas mais marcantes daquela época aconteceu num dia em que fui chamar Roney e antes de chegar à sua casa avistei a luz acesa, coisa que nunca tinha acontecido! Quando lhe chamei, sua mãe abriu a porta e avisou que o menino não poderia ir àquele dia para a aula, uma vez que ele tinha passado mal durante a noite, com uma crise brônquica. Estiquei o pescoço, coloquei a cabeça para dentro da casa e pude observar meu amigo na sala, sentado numa cadeira agonizando, fazendo de tudo para respirar! Ouvi um chiado que parecia sair do tórax! Fiquei abismado, meu Deus! Eu também já tinha ficado doente antes, com febre, contagiado pelos vírus da gripe, da catapora e da caxumba, mas foi naquele momento que me preocupei com doença. Cabisbaixo, voltei para chamar meu outro amigo, fomos à casa de Edu e de lá para a escola. De volta, soubemos que Roney já estava bem melhor.
(Gilson Vasco é escritor)