Leproso por leproso, eu também fui, nesta hipócrita sociedade (só que não sou bandido)
Redação DM
Publicado em 23 de fevereiro de 2016 às 23:45 | Atualizado há 10 anosA “Folha de São Paulo” publicou recentemente um inusitado desabafo do “petroleiro” Paulo Roberto Costa, pivô da Operação Lava Jato, reclamando que tinha virado um “leproso”, pois não tinha mais poder nem mais dinheiro e seus amigos passaram a ser apenas conhecidos. Era tratado como “Paulinho” por Dilma e Lula, e agora passou a ser apenas o Paulo Roberto.
Mudando a catadura, sem ser aquela pessoa com ares de importância, o ex-diretor da Petrobras agora parece um homem novo: perdeu o ar de quem nunca imaginara ser apanhado e passou mais de cinco meses preso na Polícia Federal em Curitiba e um ano em prisão domiciliar no Rio de Janeiro.
A sua mudança tem uma razão: desde outubro, ele cumpre regime semiaberto, reclamando: “Virei um leproso. Esse ano de prisão foi um ano de lepra. As pessoas fugiam de mim e continuam fugindo, mas isso está mudando”, diz na primeira entrevista após deixar a prisão, em setembro do ano passado. Ele se refere ao sumiço dos amigos, que se encontravam praticamente toda semana para jogar buraco.
Até os gritos de “bandido!”, que ouvia ao pegar um avião, são cada vez mais rarefeitos e estão crescendo manifestações de apoio ao acordo de delação que fechou com os procuradores e a PF na Operação Lava Jato. “As pessoas dizem: ‘Parabéns! Muito bem! Você entregou os políticos!’”
É essa montanha-russa de sensações, misturada com a história de sua vida pré e pós-corrupção, que ele começou a relatar em letra miúda, num caderno espiral, que pretende publicar em livro. “Vou deixar claro no livro que errei”, afirma.
Lentamente, Costa começa a deixar a casa de montanha onde vive com autorização judicial, um imóvel de classe média com quatro quartos num condomínio fechado. “A simples compra de um pão na padaria virou um grande prazer. Ir na farmácia é uma alegria”, conta, rindo.
Não vivi a situação de “Paulinho” apenas num particular: não roubei, não propinei, não tenho casa de veraneio nas regiões serranas nem conta na Suíça, não me enriqueci de uma hora pra outra, como o anti-herói Eduardo Cunha, que chegou à desfaçatez de dizer que inimigos seus depositaram 5 milhões de dólares na sua conta na Suíça apenas para incriminá-lo. Com isto, deixo um recado aos meus eventuais desafetos: se quiserem me comprometer, mando-lhes o número de minha avermelhada conta daqui do Brasil mesmo para que me incriminem à vontade.
Mas em um ponto ele tem razão. Eu também tinha um nomezinho bom, mas quando Kátia Abreu, Siqueira Campos e o ministro João Otávio de Noronha me lançaram na cova dos leões para me alijarem do meu Estado, aqueles que se diziam amigos simplesmente se afastaram, e posso contar nos dedos quem me fez visita ou prestou solidariedade, além do meu advogado, Nathanael Lacerda, que ombreava comigo esta cruz, defendendo-me sem esperança concreta de receber honorários.
E em termos de manifestação pública, o lúcido artigo “O silêncio eloquente do desembargador José Liberato Costa Póvoa”, do dr. Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado e professor universitário, veio em minha defesa, apesar de mais de dez anos que não nos víamos. Confesso que a sua manifestação, não só por ter sido a única, mas pela sua própria espontaneidade, trouxe-me uma sensação de conforto, pois a “via crucis” que passei a palmilhar havia me transformado em autêntico “leproso”.
E ainda acho que eu é que fui o “leproso”, pois, tocantinense nato, nunca desmereci minha terra, deixando – sem falsa modéstia – um nome a ser preservado: mais de vinte obras publicadas, as páginas da imprensa à minha disposição, a fundação da Academia Tocantinense de Letras, a ocupação de todos os cargos do Judiciário (presidente, vice e corregedor do TJ, presidente e vice-corregedor do TRE por duas vezes, membro de todas as Comissões Permanentes, diretor da Escola Judicial Eleitoral, dentre outros), tendo sido o primeiro tocantinense a governar o Estado e compondo o “Hino do Tocantins”, escolhido através de concurso nacional.
Mas quando minha independência passou a incomodar, acordei no dia 16 de dezembro de 2010 com a Polícia Federal na minha casa vasculhando tudo como se estivessem no covil de um bandido, e depois de ficar horas e só ser liberado à noite, sem ser ouvido, tive que me mudar para Goiânia, face à insustentabilidade da situação. Até aqueles que eu tinha como amigos viraram as costas, pois eu não tinha mais como ajudar ninguém com apresentações para empregos.
Jogaram-me nas costas um processo sem pé nem cabeça, e para riscar meu nome da História, passei a ser tratado como bandido na própria imprensa em que escrevi por quinze anos, tiraram o hino, fizeram toda sorte de artimanhas para me aposentar compulsoriamente, como fizeram com outros colegas, mas não conseguiram. Não recebi um só telefonema de colegas do Tribunal ou dos confrades da Academia. E acabei aposentando-me, para desilusão dos meus perseguidores, por tempo de contribuição, que coincidiu com a idade-limite para a ativa. E mesmo assim, com a idade a garantir-me a prescrição dos falsos crimes que me atribuíram, os políticos inescrupulosos e um ministro que não honra a toga, sobrevivi, sem bens materiais, sem conta secreta, mas tendo a consciência como o mais macio dos travesseiros. Quando o CNJ quebrou, sem ordem judicial, meu sigilo bancário e viu o resultado, deve ter pensado até em correr uma lista pra me ajudar, face à minha franciscana situação, com um sinal de menos no saldo bancário. Mas continuei acossado.
Cheguei à conclusão de que é corretíssimo o pensamento de John Churton Collins: “Na prosperidade os amigos nos conhecem, mas é na adversidade que conhecemos os amigos.” E cito Confúcio: “Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.”
Dou inteira razão ao Paulo Roberto Costa, mas com uma diferença: não fui, nem sou bandido como ele.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])