Major Valentim, velha raposa que enganou até revoltoso lá nos anos vinte
Redação DM
Publicado em 15 de janeiro de 2017 às 00:08 | Atualizado há 10 anosLembro-me perfeitamente do major Valentim. Acho que não é privilégio nenhum guardar na memória por muitos anos sua imagem: forte, preto retinto, que de branco só tinha a serrilha dos dentes e o caroço do olho, voz espremida, morando na fazenda, lá pelas bandas das Almas.
Não sei se o título de major remanescia de alguma patente da velha Guarda Nacional, adquirida a peso de muitos contos de réis em selos da Província de Goiás, ou se devido a sua riqueza, que o velho era cheio dos cobres. Dizem, porém, que Aleluia, bonita e vistosa, se casara com ele menos por dinheiro e mais por obra de urucubaca.
Era o símbolo da ingenuidade: durante anos, seu filho, Aduplínio, alisou banco em Belo Horizonte, sem nunca passar do primeiro ano científico, mas engambelou o velho dizendo que precisava de mais dinheiro porque estava fazendo um curso muito pesado, o “curso de repetência”. E o major Valentim propalava aos quatro ventos a especialidade do curso que o filho fazia. Era conhecido por ser muito seguro com dinheiro e canguinho pra fazer concessões.
Esperto, espertíssimo quando se tratava de negócio, muitas vezes combinava com um boiadeiro a venda de uma boiada, e no dia apalavrado, quando o comprador chegava, e o gado já encurralado, e nas tratativas para a venda e o boiadeiro pedia um prazo, o major dava um sinal para o vaqueiro, que, às escondidas, ia para o curral e soltava o gado, enquanto o major engambelava o homem para ganhar tempo. Mas não dava demonstração, e no momento que iam para o curral, já vazios àquela hora, ele se desculpava:
– É, “seo” moço, o gado fugiu. Tá difícil pegar de novo. Mas como o sinhô pediu prazo, vai juntando o dinheiro que eu vou juntando o gado, e no dia consinado a gente faz o negócio.
Dizem que quando desconfiava que alguém ia pedir-lhe dinheiro emprestado, ele, no momento em que a pessoa chegava em sua casa, ele, espertamente se antecipava:
– Meu amigo, foi Deus que mandou você aqui hoje: como estou precisando de uns cobres e não tenho apurado, eu ia justo à sua casa ver se podia me emprestar um dinheiro até eu apurar – e pisava no pescoço da conversa.
Quando começaram a surgir os primeiros rádios a bateria, ele achou interessante aquela novidade e encomendou um ao meu tio Dito. Chegando a preciosa encomenda, pediu a meu tio que botasse pra conversar. E tão admirado ficou, que pegou o rádio (daqueles grandões de bateria imensa e pesada), colocou-o no meio da carga do jegue, e foi tocando seu jerico musicado rumo à fazenda, onde instalou o precioso aparelho num lugar de destaque.
Por descuido, tio Dito não lhe ensinara a desligar o rádio. E o aparelho, que, de início, enchia de novidade e prazer a casa toda, foi-se transformando numa engenhoca incômoda, pois o major Valentim passou a perder sono, que o diabo do rádio não se calava de jeito nenhum. Passou a dormir lá longe, armando a rede no chiqueiro dos bezerros até a bateria esgotar-se por completo.
Quando, nos anos vinte, a Coluna Prestes passou pelo sertão goiano, saqueando fazendas e carregando o que podia, o povo esguaritou no mundo, correndo do revoltoso. Major Valentim, ainda novo, mas já rico e ostentando a patente, foi suficientemente esperto para livrar-se: em vez de correr pros brocotós da serra, vestiu uma roupa velha, rasgada, e entrou num barreiro de amassar barro pra fazer adobes; quando os revoltosos chegaram e indagaram por um tal major Valentim, muito rico e dono de muito ouro e gado, ele se fez de tolo e gungunou qualquer coisa ininteligível: o pessoal da Coluna Prestes acabou deixando aquele negro sujo de barro e atoleimado. E foi sua valência.
Deus deve ter maior Valentim em bom lugar, para premiar uma vida que não prejudicou ninguém e que deixou passagens que só com ele aconteceria, como a vez em que comprou uma alpercata arreada, mas foi descalço para a cidade, deixando para calçá-la ao entrar na rua, “pra não gastar nos gorgulhos”. Quase chegando, levou uma topada, que lhe arrancou a cabeça do dedo. Sua reação foi a de comentar com Aleluia, que viera ajudá-lo a levantar-se:
– Ainda bem que eu tava de pé no chão. Se tivesse calçado, era bem riscoso desferrar minha precata nova!
Esse era o velho e pitoresco major Valentim, de saudosa lembrança.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado – [email protected])