Meninos do Cerrado – Parte I
Redação DM
Publicado em 7 de julho de 2016 às 02:35 | Atualizado há 10 anosParte da paisagem antes tomada por árvores baixas, tronco retorcido, casca grossa, raízes profundas e solo revestido por um tapete verde, a perder de vistas, localizada no coração da pátria amada cedeu espaço para o que muitos consideram uma minicidade dentro de um gigante metropolitano em constante inchaço social.
Aos olhos humanos, a admiração primária da minicidade alude infinidade, mas ainda está muito longe de alcançar sua dimensão originalmente concebida pelo afoito criador.
Cortada ao meio, pela avenida principal, constituída por ruas curvilíneas, milhares de casebres arquitetonicamente padronizados, com faixas verticais, interrompidas pelas janelas frontais, multicoloridas para diferenciarem-se, umas das outras, dividida em etapas para facilitar a localização de endereços e quilometricamente distanciada do gigante metropolitano, principal centro urbano do Estado. Assim é essa área de expansão urbana. Assim é a minicidade, localizada no coração do bioma. Em nada aparenta um oásis, porém é bela, encantadora, desejável, inconfundível, diferente, acolhedora, harmônica, às vezes, apaziguada, às vezes não, paradisíaca, talvez mágica, indescritível… Imaginada e desenvolvida com a melhor das intenções que o ser humano pode ter, entretanto, abrolhada com seus problemas difíceis, mas não impossíveis de serem resolvidos, para posteriores sujeitos públicos dotados de boa vontade e com olhares voltados para o cumprimento de direitos constituintes.
Milhares de humanos carentes habitam a minicidade, são momentaneamente dezenas de milhares de necessitados. Dentre eles, crianças, muitas das quais convivem com o descaso, com o abandono familiar, com a violência, com a fome e com as mais diversas formas de exploração do dia a dia.
Reafirmo que é também no coração da pátria amada, agora entregue ao progresso incerto, que, possivelmente vamos encontrar os Meninos do Cerrado. Eles são dois, quatro, sete, dezenas, centenas, milhares, multidões… São, às vezes, inocentes, carentes, temerosos, brincalhões, amigáveis, sofridos, queridos, odiados… Muitos, órfãos de pais, paz, pão, educação, aconchego e ternura.
Os Meninos do Cerrado são seres comuns, como eles, outros são encontrados em todos os cantos do mundo. Geralmente de famílias carentes que dependem da ajuda de outros para sobreviverem. Muitos são vítimas do desajuste social, outros, apesar de serem de famílias carentes conseguem levar uma vida mais ou menos confortável, mas uma coisa eles tem em comum: vontade de crescer e mudar o futuro da sua linhagem.
São crianças, pré-adolescentes e adolescentes, muitos dos quais, encontram-se em situação de vulnerabilidade pessoal e social e que, nessas condições, estão expostos a diversos riscos como: violência física, psicológica e sexual; uso e tráfico de drogas lícitas e ilícitas; exploração como mão de obra infanto-juvenil; má nutrição e diversas doenças.
Esses meninos, muitas vezes pequenos, sobrevivem em quase total ruptura com as necessidades básicas, por pouco, eles ainda não conheceram os despejos de lixo, não peregrinam desnorteados pelas rodovias, também não vivem embaixo dos viadutos do gigante metropolitano, mas caso políticas públicas voltadas para o resgate e inserção social não forem imediatamente desenvolvidas, muitos deles poderão ter seus futuros drasticamente comprometidos, podem continuar sendo vítimas das mais diversas e cruéis formas de exploração.
(Gilson Vasco, escritor)