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Mestre Tozinho: a odisseia de um capoeirista na Itália

Redação DM

Publicado em 21 de julho de 2016 às 02:07 | Atualizado há 1 ano

Um intrépido capoeirista brasileiro que chegou à Itália em 1996 fundou uma primeira academia de capoeira em Perugia e ali introduziu esse esporte folclorístico nas escolas e que hoje representa uma das atrações turísticas nas exibições públicas. Mestre Tozinho fincou raízes na realidade italiana e se transformou num personagem da Odisseia de Homero, que se fez amarrar no mastro de um navio para não deixar-se levar pelo canto da sereia. Significa que o homem deve guiar-se pela razão lógica e não se deixar iludir pelas ilusões passageiras.

Com o som mágico de seu berimbau Mestre Tozinho conquistou platéias, ao lado de uma artista de teatro que se tornou sua esposa. Formaram uma dupla de cidadania ítalo-brasileira e assim construíram uma ponte sobre o oceano que une a Itália ao Brasil e hoje vivem em dois mundos, em um, buscando a utopia e no outro, o mito da origem. Em que consistem esses dois mundos, da utopia e do mito da origem, é o que conheceremos nesta entrevista.

Qual o principal motivo que o levou à descoberta da Itália?

A minha necessidade naquele momento, 1996, depois de uma convivência de 6 anos com os caiçaras (pescadores nativos do litoral norte de São Paulo), era enfrentar novos desafios, foi o que me levou a ir conhecer a Europa que, na minha visão, era o centro de maior referência cultural na época. Escolhi a Itália porque era a minha primeira possibilidade de adentrar a Europa através da minha ex-namorada de São Paulo, Carla Fugolin, que estava em Perugia e que me orientou ali em meus primeiros passos.

E quais foram os seus primeiros passos em Perugia?

Primeiro iniciei uma busca de conhecimento da língua para interagir melhor com a comunidade onde eu estava. Trabalhei inicialmente como ajudante de obras e certa feita, ao visitar o Palazzo Donini, no Corso Vanucci, centro de Perugia, fui recebido gentilmente por um italiano que era responsável pelo setor de assistência social que ali funcionava. Ele tinha vivido no Brasil na cidade de Campinas, interior de São Paulo (era funcionário da CPFL, empresa de energia elétrica estadual) e, descobrindo que eu era brasileiro, me ofereceu de imediato uma bolsa de estudos por três meses, para a Università Italiana per Stranieri di Perugia.

Meu trabalho era ainda avulso como ajudante de obras e nos fins de tarde passei a dar aulas de capoeira no Parco Sant’Angelo. A partir dessa experiência estabeleci contatos mais estreitos com italianos radicados em Perugia e que afinal me inseriram no contexto social perugino, em especial Alfonso, um napolitano apaixonado pela cultura brasileira, Pippo (Giuseppe) e Gabriella, dois cicilianos que me receberam na casa deles, e Emanuela, uma romana que me deu apoio. Quando em 1996 me iniciei na Universidade, participei de atividades laboratoriais de teatro ali desenvolvidas pelo diretor Danilo Cremonte, o qual atuava em criação de espetáculos com estudantes estrangeiros. Então apresentei uma simulação de jogo de capoeira exibindo toques de berimbau e atabaque, o que impressionou fortemente os espectadores e, em consequência, tive que acolher o pedido de alguns participantes daqueles ensaios para oferecer a eles aulas de capoeira.

E como conseguiram associar oficinas de teatro com capoeira?

Nesse período, numa dessas aulas realizadas no Parco Sant’Angelo, fui observado por um diretor de teatro, Eugenio Sideri, que era namorado de uma minha aluna, Gabriella Rocco, e que me levou até Ravenna para fazer ali um trabalho de condicionamento físico para uma companhia de teatro, Teatro dell’Idra. Em Ravenna, o diretor, eu e uma atriz da companhia de teatro, Alessandra Sansavini  (hoje minha esposa), criamos um espetáculo consistente de um monólogo em que eu figurava como percursionista para sua representação como atriz interpretando certo personagem.

Em 1997, participei com ela de uma dramatização, “Non guardarmi di me”, onde a minha figuração com o som persistente do berimbau provocava, acusticamente, o tormento a ser produzido na mente da atriz em cena. Com esse espetáculo giramos várias localidades na Itália – Milão, Bolonha, Pedrappio (terra natal de Mussolini), Ímola, Turim – e acabamos nos estabelecendo em Perugia onde fundamos a Associação Il Nagual com a finalidade de difusão da capoeira. Daí em diante, deixei de ser o percursionista da atriz e ela passou a ser a instrumentista da capoeira como animadora rítmica das minhas aulas.

E na Associação Il Nagual, o senhor contou com a participação de outros interessados?

Alguns dos meus alunos de capoeira passaram depois a ser meus auxiliares nas atividades de aulas. Ressalto como fundamental para o meu trabalho de desenvolvimento da capoeira em Perugia, a ajuda que recebi desses alunos que praticavam e praticam capoeira até hoje, todos solidários com o projeto que encamparam, apesar de serem pessoas ligadas a diversas outras atividades profissionais. Citaria os seguintes nomes, por ordem cronológica:

Gabriella Rocco (Gabri), formada. Alessandra Sansavini (Alê), professora. Walter Priori Friggi (Alemão), professor. Andrea Scorponi (Ligeirinho), instrutor. Francesca Mecocci (Chica), formada. Luca Boncompagni (Vírus), instrutor. Elisa Tapinassi (Loira), formada. Alessandra Simoneschi (Flora), formada. Ilaria Ortolani (Carrapicho), professora. Pablo Goshala (Zangado), formado. Isabella Santarelli (Isa), formada.

O senhor é o pioneiro do ensino de capoeira na Itália?

Não me julgo o pioneiro, mas um deles. Em Perugia, eu soube da passagem de alguns capoeiristas anteriores a mim, só que não se estabeleceram profissionalmente. Eram capoeiristas itinerantes que giravam pela Itália e pela Europa em exibições eventuais, os quais também se apresentavam em Perugia, em ruas e praças públicas, ou eventualmente em alguns centros sociais. São ainda lembrados pelo menos três nomes de famosos capoeiristas: Cobra (pernambucano), Cezinha (gaúcho) e o mestre de capoeira Leopoldina (carioca), que se apresentou em um centro esportivo em Perugia, salvo engano, por volta de 1992.

A primeira academia de capoeira profissionalmente estabelecida em Perugia, esta sim, foi a Coquinho Baiano, sob minha direção, que funciona até hoje na Palestra Oliveto, via del Giaggiolo 31, 06131, zona Rimbocchi, fundada no ano de 1999. Contemporaneamente às atividades desenvolvidas em Perugia, tomei conhecimento e contato com outros centros de prática e difusão da capoeira na Itália: Mestre Baixinho, Milão. Mestre Canela, Viterbo. Mestre Paulinho, Roma. Mestre Zói, Palermo. Mestre Alemão, Gênova. Mestre Aloísio, Turim. Mestre Bocanua, Florença. Mestre Pudim, Roma, que inclusive foi o primeiro a me convidar para um workshop ali realizado em 1998, antes mesmo de eu ter fundado a academia Coquinho.

Já tínhamos notícias de outros mestres de capoeira na Itália, com os quais mantive inclusive relações de trabalho: Mestre Carcará, Nápoles. Mestre Cabeça, Florença. Mestre Rogério, Roma. Mestre Canhão, Bari. Mestre Edi, Florença. Mestre Dito, Ravena. Mestre Dito, com nosso apoio, ampliou largamente suas atividades que se estendem às cidades de Bolonha, Ímola, Florença e Palermo (na Sicília). Como resultado de nosso trabalho em Perugia à frente da academia, outros mestres de capoeira já atuam atualmente em diversas localidades na Itália.

Do núcleo criado em Perugia, difundiu-se a prática da capoeira ligada à pedagogia holística, da escola Coquinho Baiano, hoje ramificada em outras cidades, como Foligno, San Sepolcro e Terni, aqui principalmente onde o professor Alemão atua com os mesmos princípios adotados na nossa academia, fazendo sentir que nossa visão de mundo, através da capoeira, já fincou raízes em solo italiano.

A academia Coquinho Baiano recebeu apoio de órgãos públicos?

Sim, inclusive da administração municipal de Perugia desde o espaço público que ocupamos na Palestra Oliveto até os patrocínios obtidos para manifestações públicas, em nível nacional e internacional. Interessante ressaltar a experiência que tivemos antes de obter o espaço da Palestra Oliveto, que nos fora concedido. Por cerca de três anos, entre 1997 e 2000, os treinamentos se realizavam junto ao Circolo Ponte D’Oddi, que durante o dia servia de bar reservado aos idosos do quarteirão que ali se encontravam para jogar cartas, e à noite, das 19:30 às 21:00, depois de feita a limpeza do piso coberto com tocos de cigarro, transformava-se numa academia de capoeira (de preferência para os não fumantes).

Foi o trabalho desenvolvido nesse quarteirão que nos levou a conquistar a confiança do presidente da Circunscrição, Nando Staccini, que no ano 2000 nos mostrou a Palestra Oliveto, espaço que estava sem gestão e praticamente desativado. O presidente saltou todas as etapas burocráticas que, a longo prazo seriam exigidas para a concessão pretendida e nos entregou logo as chaves do prédio, informalmente.

Ali começamos um trabalho de reestruturação e de revitalização do espaço. Depois de aproximadamente 4 anos de batalhas e trâmites burocráticos, quando a nossa presença já era marcante e intensa naquela redondeza, foi afinal definido e formalizado um contrato de gestão com a Prefeitura de Perugia. Também a administração geral da Úmbria sempre ofereceu apoio às nossas atividades em âmbito regional.

De outra parte, a organização religiosa Tavola Valdesi, com representação em Perugia na pastora Katrhin Zanetti, patrocinou nosso projeto denominado “Comunidade integrada”, realizado no Brasil de 2009 a 2015, na praia Juqueí e na cidade de São Sebastião, no estado de São Paulo. Os recursos eram repassados através da Associação Il Nagual à nossa Associação Areia Canta, em São Sebastião, recursos que aplicávamos em material pedagógico e pagamento de instrutores, também em oficinas de arte incluindo aulas de violão, danças, percussão, teatro, além da prática de capoeira.

A administração regional da Úmbria ofereceu também apoio a esse trabalho de assistência social em São Paulo, com verbas aplicadas da mesma forma como as destinadas pela Tavola Valdesi. Vale lembrar um interessante trabalho que desenvolvemos de 2003 até 2008, junto ao Centro Kaos de Perugia, mantido pelo governo italiano, consistente de uma estrutura psiquiátrica voltada para fins assistenciais e de apoio familiar. Sempre com o mesmo projeto pedagógico, a Academia Coquinho Baiano vem desenvolvendo junto às escolas públicas em Perugia oficinas de capoeira, tendo como objetivo a socialização e integração de novos imigrantes que afluem fortemente a Perugia, como centro internacional.

Emílio Vieira 2

Perfil biográfico de Mestre Tozinho

O geminiano Edimilsom Garrossino Prado (Mestre Tozinho) nasceu em Paraguaçu Paulista, em 2 de junho de 1964, período em que imperava o regime militar no Brasil com forte repressão ideológica. Aos 17 anos prestou serviço militar voluntário. Concluiu o curso médio em Campinas-SP, onde se ligou a grupos ativistas participando de manifestações estudantis. Depois de formado em História na PUC de Campinas, passou a trabalhar em escolas públicas e no período de 1985 a 1989, já iniciava nas comunidades de São Marcos e Santa Mônica, projetos sociais consistentes de oficinas de capoeira e artes plásticas, acompanhados de dramatizações e exibições artísticas.

Em 1990 deixou tudo e transferiu-se para a praia de Juqueí (cidade de São Sebastião, zona litoral norte do estado de São Paulo). Primeiro trabalhou como professor na rede pública e, nas horas vagas, prestava serviços de garçom para complementação salarial. Em seguida passou a dar aulas de capoeira nas praias de Juqueí, Barra do Una e também na praia de Boraceia, um pouco mais distante na zona litorânea, onde estabeleceu contatos com uma comunidade indígena.

Numa terceira etapa, desenvolveu na Mata Atlântica – área de preservação florestal – um projeto cultural denominado Bacarirá, sempre tendo a capoeira como atividade principal no sentido de uma educação ambiental e combinando cidadania com consciência ecológica. Foi daí que nasceram as suas cogitações de partir para experiências mais amplas. Em 1996 resolveu conhecer a Europa e acabou se fixando em Perugia, capital da Úmbria, uma das regiões mais belas da Itália.

Mesmo estabelecido na Itália, nunca perdeu sua ligação com Juqueí, aonde sempre retornava em períodos de férias para não deixar apagar as chamas de seu ideal transformador daquela realidade social que deixara para trás. Em 2004 decidiu-se a construir um centro cultural denominado Areia Canta (versão em português da palavra indígena Juqueí, que significa areias cantantes). Desde então passou a alternar suas atividades entre o Brasil e a Itália. Hoje sua Academia de Capoeira Coquinho Baiano (versão mística da simbologia do coco como elemento vital ligado à cultura cabocla), vem sendo mantida sob responsabilidade dos seus ex-alunos graduados, hoje professores e instrutores, Ilaria (nome de guerra Carrapicho), Isabella (Isa), Pablo (Zangado) e Alessandra (Flora) que atuam sob coordenação à distância do Mestre Tozinho, que ali se faz presente duas vezes por ano para realização de eventos.

Mestre Tozinho conseguiu unir o Brasil à Itália com o toque mágico de seu berimbau e ao lado de sua esposa Alessandra, decidiram educar seus filhos, Tobias e Sibele, com espírito de cidadania ítalo-brasileira, ou seja, assimilando os valores culturais vigentes na Itália e no Brasil a fim de que eles realizem suas escolhas como cidadãos do mundo. Seus filhos, segundo Mestre Tozinho, embora ligados desde pequenos ao mundo da capoeira, certamente desenvolverão suas potencialidades seguindo sua própria índole, ou cumprindo seu carma na identificação com seus protótipos. O mestre de capoeira – numa visão yunguiana – acredita nas forças do inconsciente como arquivo dos arquétipos que levam as pessoas a buscarem a realização de seus próprios ideais. Acredita que a capoeira desperta essa energia que aciona as pessoas e as impulsiona na direção de seus objetivos conscientes ou inconscientes.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])

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