Brasil

Mitos e lendas no Vale do Paranã

Redação DM

Publicado em 12 de outubro de 2015 às 22:54 | Atualizado há 11 anos

O mito quer saber o universo (o cosmos) e organizar o caos: representa a interpretação dos símbolos. No mito, somos indagadores e pretendemos explicar os fenômenos através de narrativas (lendas). Não pretendemos aqui demonstrar a ideologia fundadora do mito (as suas causas), mas o mito utilizado como ideologia (ligado às suas finalidades). Como meio para se atingir um fim. Nesse sentido, podemos ver os mitos regionais como sacralização de um valor intencional, visando educar, condicionar o comportamento social, segundo uma ideologia dominante.

Entre os mitos e lendas que aqui reportamos, transparece a visão educativa ou condicionadora, por exemplo, da lenda do Romãozinho (a conhecida estória de suas estripulias, roubando a carne e só deixando os ossos na comida que levava para o pai na roça), servindo tal estória para conscientizar as crianças sobre a malsinada sorte de um menino travesso. Romãozinho representa, portanto, a figura de um menino diabólico, no qual pode se transformar qualquer criança desobediente.

Há outros símbolos de deformação humana por causa da divergência a um quadro de valores preestabelecidos e vigentes na cultura regional. Há mitos de fundo moral, como da mulher de padre que se transforma em Mula-sem-cabeça, do Homem-da-Cela, que resultou da deformação de um filho mau que costumava bater em sua mãe, e esta lhe jogou uma praga para que saísse pelo mundo comendo capim e andando de quatro como um animal de cela. O mito da Desgraça é representado por uma mulher magérrima, altíssima e de um só dente, que aparece para as crianças quando xingam esse nome.

 

A ideologia do mito

Se buscarmos nos dicionários a conceituação de mito, entre as variantes, encontramos um ponto comum: é uma narração fabulosa acerca das gestas de deuses ou heróis. E mais: relativa às origens do mundo ou do gênero humano, ou de um povo. Assim, entende-se, por exemplo, o mito da origem dos fundadores de Roma, Rômulo e Rêmulo (não confundir com dupla caipira), que foram amamentados pela mãe Loba, simbolizando a força da natureza. Assim também se entende o mito do nascimento de Júlio César, célebre imperador romano, que teria sido extraído diretamente do ventre de sua mãe (operação cesariana), para justificar a origem incomum de um homem extraordinário, um semideus, que se destacava do resto dos mortais. Segundo o crítico italiano Giulio Carlo Argan (Storia dell´arte italiana, 1973), podemos distinguir entre a mitologia das idéias e a mitologia das forças da natureza. Figuras de deuses e monstros (por exemplo o Centauro, metade homem e metade cavalo) simboliza as forças da natureza.

 

O mito das ideias

Diríamos que a mitologia das forças da natureza está para a explicação das origens do mundo assim como a mitologia das ideias está para a explicação dos fenômenos humanos. Neste campo é que poderíamos situar a ideologia do mito. Vejamos: o homem que atingiu a dimensão e o poder de um deus, como Júlio César, haveria de ter sua origem justificada numa causa extraordinária, tal como fora a de Rômulo e Rêmulo, fundadores de Roma.

Na verdade, Roma era uma região palustre (como o vão do Paranã) e de difícil exploração, por causa da incidência de malária. Teria nascido assim como Brasília, por força de motivações e incentivos promovidos pelo presidente Juscelino Kubitschek, com vistas à sua povoação no inóspito planalto central. (Um exemplo para atrair trabalhadores, os chamados candangos de Brasília, foi a oferta do salário em dobro, a dobradinha).

E assim como se formara a primeira população de Brasília constituída de candangos (por coincidência, inaugurada a 21 de abril, na mesma data da fundação de Roma), também a primeira população de Roma era constituída de uma patuleia de cidadãos vulgares e seus supostos fundadores (criados pela Loba), eram pessoas do povo, de origem comum. A lenda da Loba é que elevou as figuras de Rômulo e Rêmulo à categoria de entes mitológicos. As forças da natureza podem ser instrumentalizadas em função da força das idéias.

 

A atualização do mito

Estamos caminhando na era atual de cultura tecnológica, para a superação dos mitos ligados às forças da natureza. A eles só retornamos para conhecer e entender as sociedades primitivas. Estamos cada vez mais identificados com a mitologia das idéias e dos valores estabelecidos com que nos arriscamos a construir a nossa história. O mito, que simboliza uma força, só é atualizado em função de uma ideologia (dominante, digamos) que espelha (ou condiciona) um comportamento social. A sociedade atual fez a inversão do sentido do mito, que nasceu para explicação das origens e agora o utiliza em busca de suas finalidades.

Nesse sentido, poderíamos dizer que o próprio cristianismo atualizou os mitos pagãos, criados como necessidade de explicação dos fenômenos naturais em função de uma ideologia voltada para a necessidade de explicação dos destinos humanos. Exemplo, a maçã como fruta proibida, que foi comida por Adão, e em razão disso, ele e Eva – picada pela serpente – foram expulsos do Paraíso por cometerem o pecado original.

A cada atualização do mito, está implícita uma influência ideológica: assim é que os mitos vivem, por exemplo, até agora com essa estranha senhora chamada televisão, que os leva aos quatro cantos do mundo e os distancia cada vez mais de sua pátria original. Pode-se falar de uma nova forma de dominação do povo através da força dos mitos produzidos pela mídia.

 

Mito e adivinha

Não se confunde mito com adivinha. O mito é uma narrativa fabulosa. A adivinha é uma pergunta-resposta. O mito tem por objeto um símbolo que toma uma forma através da lenda e nos traz a resposta. A adivinha tem por objeto o segredo e só toma forma para mostrar a pergunta. No mito está contida a resposta (decodificação) mediante a interpretação do símbolo. Na adivinha, um homem interroga outro homem, que se torna obrigado a um saber: é quem dá a resposta. O mito organiza o caos e quer saber o universo. A adivinha revela a perplexidade diante do universo e devolve ao interlocutor o caos. No mito somos indagadores, na adivinha somos indagados: o que é o que é? Como no dito da Esfinge: Decifra-me ou devoro-te. As adivinhas correm mundo e atiram a curiosidade popular. Exemplo: – O que é o que é que cai em pé e corre deitado? – A chuva. (Ora essa!).

Às vezes a advinha vem em forma de parlenda como nestes versos de desafio entre dois cantadores. Cantador 1 pergunta: “Quero que vosmecê diga / diga sem pestanejá / aquela serra desmanchada / quantos cestos de terra dá?”  Cantador 2 responde: “Vou respondê pra vancê / e minha rima não erra / faça mais ou menos isto / faça um cesto do tamanho / que seja igualzinho a serra / se enchê o cesto bem cheio / só dá um cesto de terra.”

Num plano mais corriqueiro, a advinha tem por resposta um paradoxo (opinião contrária à comum), como no exemplo: “O que pode ser que seja / e pode ser que não seja?” Resposta irônica: “As mocinha da cidade / que com todo mundo graceja, / pode ser que seja puta, / mas pode ser que não seja.”

 

Adivinha e provérbio

Enquanto a adivinha propõe decifrar uma questão, o provérbio antecipa a conclusão sobre uma experiência de vida. Equivale no plano popular, a uma sentença filosófica no campo erudito. Os provérbios são universais, apesar de suas versões regionais em todas as culturas.

No meio rural, os provérbios são utilizados como fórmulas de comportamento e se prestam a orientar os mais jovens seguindo a experiência dos mais velhos. É comum ouvir-se a expressão “Meu pai dizia”, ao invocar-se uma lição de vida para advertir contra certa aventura, por exemplo: “Formiga quando quer se perder, cria asa.”

Adverte-se a um jovem para não descuidar de seu projeto de vida: “O dia começa de cedo.” Em sentido religioso, para combater a ambição competitiva: “Mais vale quem Deus ajuda que quem cedo madruga.” Os provérbios vêm geralmente em forma de rimas, facilitando o processo mnemônico: “Quem dá o que tem, / pedir vem.” “Quem pode, pode / quem não pode, amarra o bode.”

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa.E-mail: [email protected])

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