Mole era o arroz
Redação DM
Publicado em 22 de julho de 2016 às 21:40 | Atualizado há 10 anos– Quem vai fazer o arroz hoje?
A partida de truco estava animada demais para que alguma alma caridosa largasse a jogatina para ajeitar a gororoba para os demais. Sempre dava zica. Coisa para diplomata experiente sanar. Mas se o bom senso não prevalecer o primeiro a chiar com a fome solta os cachorros para o lado das panelas.
Truco é coisa que se faz de barriga quentinha, de bucho forrado. Boas partidas são negócio para mais de hora. Não acabam cedo. E pescador que se preza, entre os companheiros, não leva desaforo para casa. Tem mais é que faturar a disputa com peito arribado. Perder é ruim demais da conta, já que abre espaço para mangação.
– Já lavou as vasilhas do almoço?
– Não, senhor.
– Então o que está esperando? É obrigação sua. Perdeu no truco. E lavar a louça é coisa para aspirante. Um dia você chega à nossa categoria.
Sujeito até morde os beiços de contrariedade. Mas acordo é acordo. Enrolar não vai resolver troço algum. Piora as coisas. Vai que os truqueiros que não colheram o espólio da vitória decidam punir os conquistados. Obrigar a limpar todos os peixes da colheita do dia? Não, senhor, obrigado. Especialmente se a fatura rendeu muito mandi ou lobo. Há pescador preguiçoso que se esquece de quebrar as nadadeiras do peixe, que possui cartilagem pontiaguda e acaba por ferir a mão do desavisado.
O Betão já começava a apelar pelo tardio almoço. Parecia que a fome lhe punia as tripas. Melhor não esperar por ver. Foi mais ou menos por isso que mandou-me às panelas. Certamente em razão de dívida. Ele me quebrara um baita galho no começo da pescada, deixando limpa a panelada que era de minha responsabilidade.
– Vai cozinhar, que estou com fome.
– Betão, espera acabar essa rodada no truco.
– Espero nada. Você me deve.
– Reconheço a dívida, mas aguenta um pouco mais.
– Sem chance. Ajeita um arroz com carne e legumes.
– Não tenho muito tato para cozinha.
– Então é chance para aprender. Vai lá, peão, dê seus pulos.
Não havia escapatória. Peguei os ingredientes. Separei tudo direitinho. O truco corria animado. Descrente, não dava nem para bisbilhotar as rodadas. Teria pouco prazo para agilizar as coisas do almoço. O relógio já somava uma da tarde.
Piquei a carne seca em tiras curtas e finas. Descasquei a batata e a deixei em cubos. Ralei a cenoura. Tirei a pele do tomate, cortando em pedaços pequenos. Amassei o alho com a pimenta. Fritei a carne, refogando depois os tubérculos no meio. Por fim, mandei o arroz para dentro e botei água. Fogo baixo. Bem baixo. Mas esqueci-me de tampar a panela. E fui ver o resto da partida.
– O arroz sai ainda hoje?
– Calma, Betão. Tá cozinhando.
– Então vai olhar o trem.
– Quero agora não. Queca, vê se precisa botar mais água naquele negócio.
O Queca foi cuidar do rango. Como eu fui bobinho. Não sei o que passou pela cabeça do sujeito, que resolveu botar muito mais água no arroz. Talvez quisesse comer canja ou feijão, sabe-se lá o quê. Mas o encharcou. Parecia o varjão que alcança parte da pastagem do Turvo em época de cheia. O resultado, óbvio, era previsível.
O cheiro chegou à mesa do truco. Com a fome às tampas, fui acudir as panelas em definitivo. E quase enfartei com o que vi. Uma massa branca disforme pincelada por pontilhados de carne com vegetais coloridos. Aquilo dava para cortar na faca e servir como bolo. Arrebentou com a receita. Tenho certeza que era pura molecagem do Queca.
– Pedi para você faz arroz, não matar a gente sufocado.
– Como assim?
– Isso aqui tá uma cola, cimento puro. Vai tampar a garganta da gente.
– Comida minha é coisa fina, Betão.
– É mesmo?
– Verdade.
– Então, por que aquele frango tá estrebuchando ali no canto.
Eu tinha dar a mão à palmatória. O Queca havia colocado um pouco daquela massa nojenta que seria o almoço para o frango comer. E parece que nem o bicho suportou. Meu arroz é de matar.
(Victor Hugo Lopes, jornalista)