Brasil

Na hora do aperto

Redação DM

Publicado em 9 de junho de 2017 às 01:50 | Atualizado há 9 anos

– Pare o carro, agora!

– Calma, mãe. Logo chegaremos em casa.

– Agora!

– Está tão ruim assim?

– Eu preciso de um banheiro.

– Segure um pouco mais, por favor.

– Não dá. Juro.

– Faça uma forcinha…

– Ficou maluca, Júlia? Se eu fizer qualquer forcinha vai sair tudo.

– Não exagere, mãe. Respire fundo.

– Sério. Se eu fizer isso, já era.

– Não é possível que esteja tão ruim assim.

– Pare… o… carro. É uma ordem. Agora.

– Mais 10 minutos…

– Eu não tenho 10 segundos, filha. Pare agora ou farei o serviço aqui mesmo. Palavra que faço. Não estou brincando.

– Parar onde?

– Sabe aquela boutique chique no próximo quarteirão? Vai ser rapidinho…

– Mãe, aquela é a loja mais cara e sofisticada de Goiânia.

– Não quero saber. O banheiro lá serve.

Júlia mal viu quando sua mãe desprendeu o cinto de segurança. Em desabalada carreira pegou o rumo em direção à loja. Passos curtos, bolsa presa sob o braço, colada junto ao corpo. Nem se deu ao trabalho de fechar a porta do veículo. Parecia, de fato, uma emergência da natureza. Haveria de ser compreensiva. Quem nunca?

Os minutos se iam passando. Ganharam a casa das dezenas. Meia hora. Nada da mãe regressar. Começou a se preocupar. Verdade que não era tão estabanada quanto ela, Júlia. O que teria acontecido demorasse assim um procedimento tão simples?

A imaginação de Júlia ganhou volume. Talvez a mãe, em sua pressa, tenha derrubado ou danificado alguma peça daquela loja. Se fosse o caso, estaria liquidada. A loja em questão era coisa para madame grã-fina. Se estrago houvesse, o que faria? Perderia gorda fatia do debilitado salário, já profundamente comprometido com dieta, academia e investimentos hedonistas.

Júlia avistou a mãe. Ela voltava ao carro com o semblante curioso. Um misto de alívio e constrangimento. Talvez a demora tivesse mesmo alguma justificativa atípica. Não que houvesse algo que pudesse fazer para sanar o problema. Seja o que fosse, já era. Decidiu ser cautelosa.

– Mãe, estava preocupada.

– Não fique.

– Está tudo bem? Aconteceu algo.

– Talvez. Nada com que se preocupar.

O semblante da mãe alternou do constrangimento para algo entre a raiva e a vergonha. Trazia consigo aquele sentimento que se vê no rosto de quem foi comer o último pedaço da torta de chocolate e deu de cara com a nutricionista que lhe havia preparado uma dieta espartana. Coisas da vida.

– Fala sério, mãe. Deu merda?

– Por aí…

– Ai, meu Deus! O que aconteceu? Conta logo. Não me mate de curiosidade.

– Eu fui dar descarga…

– E aí?

– Estava quebrada…

– Só isso?

– Como assim, só isso? Vá catar coquinhos.

– Achei que teria de deixar meu salário inteiro na boutique.

– Longe disso.

– Pensei que tinha estragado alguma coisa lá…

– Só as minhas unhas.

– Menos mal. Que vergonha…

– O caramba. Tive de carregar uns cinco baldes de água para sumir com a prova do crime. Que vergonha. Uma loja chique dessas sem descarga… Nunca mais volto aqui.

– Acho que nem eu…

– Por causa da descarga?

– Sim, mãe. A “descarga”…

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)


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