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Natal

Redação DM

Publicado em 13 de dezembro de 2016 às 01:23 | Atualizado há 10 anos

As celebrações do Natal sempre me emocionam pelo sentido de religiosidade e poesia que o distinguem. A tocante história do nascimento do Menino Jesus traz consigo uma utopia de paz e de beleza, que tem o dom de despertar o que há de melhor em cada um de nós – e na Humanidade como um todo.

Com o passar dos anos – tantos anos! – não há como não viajar ao passado e recolher no tempo a lembrança dos natais da infância, que passávamos com a família reunida na fazenda de meus avós maternos.

Os preparativos começavam muitos dias antes. Limpava-se toda a capela, inclusive os bicos de gás de carbureto que a iluminavam, quando a chama azulada bruxoleava dentro do lampadário de Murano, em forma de tulipa. Levados em uma bacia esmaltada para a beira do riacho, os castiçais de prata eram escrupulosamente areados. Na água límpida, lavava-se também a camisolinha rendada do Menino Jesus.

Quando chegava a Noite Santa, Ele repousava nuzinho na manjedoura, no âmago da pequena gruta de “biscuit” que uma redoma de cristal protegia. Nos vãos entre as falsas pedras, inseríamos florzinhas feitas de seda e colocávamos esvoaçantes borboletas de organza e purpurina.  Somente no dia seguinte o Infante seria vestido – e quem o fazia com mil cuidados era Teté, a tia responsável pela capela, suas alfaias e ornamentos.

Um pouco antes da meia noite, o sino tocava, reverberando ao longe o convite para a celebração do Natal. Acendiam-se as velas; familiares e serviçais uniam-se nas preces. A voz de contralto de minha avó sobrepairava as demais, quando entoava o “Glória in excelsis Deo”. Era lida a passagem do Evangelho sobre o nascimento do Menino Jesus; agradeciam-se as bênçãos recebidas, rezavam-se ladainhas e orações, quando eram lembrados parentes e amigos distantes ou falecidos.

Seguiam-se cumprimentos e votos de feliz Natal. Na ceia, a mesa estava arrumada com louças finas, copos e talheres condizentes. Nas fruteiras rendilhadas e em vasos de cristal havia arranjos caprichados. Servia-se chá com bolos e rabanadas – o peru e o vinho ficavam para o almoço do dia 25. Entre os adultos, trocavam-se pequenas lembranças; às crianças, dizia-se que deveriam recolher-se, pois durante a noite Papai Noel deixaria presentes para quem tivesse sido bem comportado e obediente. Nem era preciso insistir: acostumada a dormir cedo, eu já cochilara na capela e, mal me deitava, o sono vinha.

Ninguém levava muito a sério aquela história, mas – por segurança –  não externávamos dúvidas a respeito do que nos diziam pais, avós e tios. Na manhã seguinte, pendurados nos punhos ou debaixo da rede, estavam os embrulhos. Era uma alegria abri-los: sempre ganhávamos um brinquedo, um livro, às vezes roupas novas.

Quando minha mãe foi ao Rio de Janeiro, trouxe uma pequena árvore de Natal, com minúsculos castiçais de metal para velinhas coloridas. Cobrimos de algodão o falso pinheiro, a fingir neve no calor equatorial; a novidade causou sensação. Minha irmã mais velha, que a acompanhara, contou-me em segredo que Papai Noel era apenas um velhinho fantasiado; nem me decepcionei, pois nunca acreditara de fato que ele existisse.

No dia a dia, a capelinha de feitio neo-clássico era carinhosamente enfeitada. Nos jarros, sempre havia flores frescas e perfumadas: jasmins, rosas, lírios de São José, cultivados no jardim que ficava ao lado. Guardavam-se os paramentos no altar central, cuja tampa era levantada para que se pudesse retirá-los, assim como o missal, o cálice e a patena usados nas celebrações.

Havia uma casula branca, bordada com fios de ouro, que trazia nas costas, em relevo, a efígie do Cordeiro Pascal – era linda! Na minha imaginação de menina, ficava a fantasiar Jesus nos campos da Judeia a pastorear carneirinhos – que deviam ser roliços, a branca lã espessa e encaracolada, como os que ruminavam no pátio, pastoreados pelo Tiriri, meu companheiro de brinquedos.

Por quais ínvios caminhos se perdeu o meu Natal, assim ingênuo e sagrado, ressumando a simplicidade das coisas verdadeiras – quando lá fora a chuva caía e o jasmineiro perfumava a noite?

 

(Lena Castello Branco, escritora. E- mail: [email protected])

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