Brasil

Ni, nosso anjo

Redação DM

Publicado em 8 de junho de 2017 às 02:55 | Atualizado há 9 anos

– Amor, precisamos ter uma casa.

– Mas como assim? Estamos casados há quase um ano e morando aqui nesse apartamento.

– Pois é. Mas ele não é uma casa, você almoça na sua mãe e eu na minha, chegamos tarde e nos fins de semana pouco aqui ficamos. Não é uma casa.

– Entendi. E o que precisa?

– Disso. De morar mais, ter almoço, ter plantinha, até cachorro.

– Cachorro não, o meu morreu na nossa lua-de-mel. Isso eu nunca vou esquecer. E quem vai cozinhar?

– A empregada.

– Que empregada?

– A que vamos contratar para a casa, se você exige tanto. Tudo arrumado, comida boa, roupa passada, cama e tudo o mais, pode contratar. Eu pago.

Ele colocou no anúncio: “Precisa-se de empregada que seja boa cozinheira. Pago muito bem.”

Começou então a saga da contratação. Ele implicava com todas as candidatas. Suas entrevistas beiravam o surreal. Ela ali, sentada ao lado, ouvia tudo. Tinha hora que dava vontade de rir, mas na maioria das vezes ficava com raiva ao final e a invariável dispensa dos serviços. Como por exemplo:

– A senhora fuma? Eu gosto demais de Malboro.

– Fumo sim, mas só Continental, é mais em conta.

Ele detestava cigarro. Dispensava.

– A senhor gosta de pequi? E de jiló? Sabe fazer um bife de fígado?

– Claro que sim! Sou goiana, uai. Se quiser todo dia tem fígado e na época do pequi eu faço um arroz com pequi que é um trem maravilhoso. E a farofinha de jiló? Até o periquito come.

Citava exatamente os três únicos alimentos que detestava. O resto comia. Comia de tudo. Tendo mãe maranhense, exímia cozinheira, fora criado no peixe e camarão. No filé, na fritada de caranguejo, nos pratos franceses bem elaborados. Mandava embora na hora quem citasse pequi, jiló ou fígado.

– E salada? Sabe fazer salada? O que você gosta de colocar na salada?

– Eu pico tomatinho como ninguém. Alface bem lavadinho. Boto limão e sal e fica muito bão. Todo mundo gosta.

Essa apresentação reducionista do que significa salada em Goiás, o levava a loucura. A pobreza alimentar, a falta de opções o irritava. Nem conversava mais nada, tchau.

– E a sobremesa? Algum doce predileto, alguma receita?

– Nossa, doutor. Eu amo doce de leite com queijo. Tenho uma receita da minha avó que é boa demais da conta. Mas se quiser ou faço outras coisas também.

Ele não comia doces. Um artista em perguntar o que exatamente desejava ouvir de resposta. Mandava embora sem pestanejar. E assim passaram semanas sem sequer fazer mais de duas perguntas. Até que apareceu a Ni.

– Bom dia, tudo bem?

– Estou ótima, senhor.

– Sabe cozinhar?

– Eu trabalhava em um restaurante. Auxiliar de chefe.

– Se você fosse trabalhar aqui hoje, o que faria no almoço?

– Depende dos gostos do senhor e da sua esposa. A primeira pergunta seria exatamente o que não gosta, para jamais por na mesa. Depois a quantidade de sal e os condimentos. Tem gente que detesta cebola, por exemplo. Temos que respeitar os gostos.

A esposa começou a sorrir no sofá.

– Digamos que você seja livre para escolher, depois de me perguntar o básico. O que faria?

– Ah, uma entrada com torradinha coberta por espinafre e queijo. Depois uma salada com rúcula e carpaccio bem fininho, adoro cortar fatias finas. Azeite extra-virgem, lógico. Como o senhor sai para trabalhar, logo depois, eu faria um peixe à Belle Meunière. Tem gente que faz com filé de merluza, prefiro pescada. E a alcaparra tem que ser fresquinha.

Ele se conteve como pode, a esposa já rolava de rir. Mas prosseguiu impassível.

– E a sobremesa?

– Olha doutor, eu gosto de frutas. Uma salada de frutas com gelo, bem refrescante. Posso variar com as cores, tudo vermelho por exemplo e com uma banana picada para quebrar a acidez. Mas se o senhor for chegado num doce, eu acrescento uma coisinha ali outra aqui, só para dar gosto. Doce não é saudável.

A esposa teve que intervir. Pois ele poderia entrevistá-la por horas, perguntando até como se escreve “Coq au vin”, por exemplo, um de seus pratos favoritos. Mas ele foi até o fim…

– A senhora fuma?

– Não senhor. E na minha cozinha não entra cigarro, tira o gosto de tudo.

– Gosta de pequi, jiló e fígado?

– São comida de gente simples, da minha terra, Itapuranga. Mas eu gosto é de peixe e camarão. E filé mal passado, pois quem come carne, come mal passada. Ao ponto seria um contrassenso. Senão faz um bife de panela… E com muito molho, pois já chega a vida que é seca.

– E a salada?

– A salada tem que ser muito variada, tem que ter cor, ser bonita. O que abre os olhos abre o apetite também.

– A sobremesa o senhor já perguntou, mas posso inferir que como o senhor não disse nada, vamos ficar nas frutas, mesmo.

– Inferir? Onde você arrumou esse vocabulário?

– Meu antigo patrão era professor de português, do Maranhão, me corrigia a cada instante.

– Qual o seu nome?

– Lucenir. Mas pode chamar de Ni.

Fora contratada de imediato e a consorte pode notar uma pequena lágrima nos olhos dele. Entretanto foram se passando os dias e ele cada vez mais feliz e tentando achar um defeito, um erro qualquer na cozinheira (que também lavava e passava e limpava) para não deixar de ser implicante. Até que aconteceu.

– Ni, vem cá!

– O que foi, doutor?

– Você está vendo isso aqui? Sabe o que é?

Era uma enorme lagarta verde de alface.

– Sei, mas eu tenho muito nojo. Por favor, joga fora.

– Estava na minha salada, eu iria comer se não tivesse visto.

– Mil perdões, me desculpe, eu não vi. Isso nunca mais vai acontecer.

– Eu vou comer, mas a próxima quem vai comer vai ser você!

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!

Ela soltou um grito de horror ao vê-lo engolir o animal inteiro. E daí em diante, durante ininterruptos vinte e dois anos ela lavou incansavelmente todas as folhas. E ele jamais comeu tão bem em sua vida. Inclusive sentindo falta de lagarta, pois na sua casa ela também nunca comprava goiaba de tanto medo de aparecer algo semelhante.

 

(JB Alencastro, médico)


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