No centenário de Humberto Crispim Borges, um conto a relembrar a terra goiana
Redação DM
Publicado em 2 de janeiro de 2018 às 21:43 | Atualizado há 1 ano
Em 1918, há cem anos, nascia o grande escritor Humberto Crispim Borges na lendária Santana das Antas, hoje Anápolis. Polígrafo, talentoso, deixou crônicas, contos, romances, estudos históricos, biografias e novelas. Para iniciar a lembrança de sua obra magnífica, um conto publicado no livro O vale das imbaúbas, de sugestivo título.
Sem erva, maleita e nenhum sinal de berne, a Fazenda Dois Irmãos ficava longe, no grande sertão, a exibir pastagens e florestas, aves e bichos, montes e várzeas, belas aguadas e ricos coqueirais, remando ao sopro dos ventos.
Tivera antes nome poético – Fazenda Rio do Sangue, de águas tintas e serenas –, mas a denominação, embora justa, não caíra no gosto do povo. Então o novo senhor da gleba, viúvo doméstico e sensível, resolveu crismá-la com o indicativo fraterno – Dois Irmãos. Aí pegou, firme.
No virar dos anos, uns lentos, apressados outros, muitos acontecimentos se deram, alegres e tristes. E os dois rapazes, à frente do vasto domínio, geriam com acerto e amor. Vamos encontrá-los agora, no mormaço da tarde, em séria confabulação:
– Acho que vou mudar, diz Haroldo.
– Mudar pra onde?
– Pra outra casa.
– Que casa?
– Uma, que penso construir.
Após breve reflexão, Homero diagnostica:
– Você está varrido, louco.
– É bem perigoso.
Ávido por abrandar o ar circunspecto do irmão, Haroldo sorri. Vem a reprimenda – “já que começou, vá em frente, idiota!” –, embrusca-se também.
Filando um garrancho, Homero abaixa. Na outra margem, ecoam gritos, apruma-se. Alegrando os olhos, a fita coleante de meninada enche a trilha da ribanceira – calça branca, vestido amarelo, blusa vermelha… Com algo arranhando-lhe as entranhas, manda o graveto no chão e exclama, peremptório:
– Fale, bote o segredo fora.
– Falar o quê?
– Sobre o raio da mudança.
Hesitante, a coçar a asa do nariz, Haroldo esclarece:
– Tenciono fazer uma casa, mudar, onde está o mal?
– Mudar por quê?
– Quero morar só.
Eram gêmeos, criados juntos, unidos ao extremo. Fiado em tal aliança, o pai edificara o casarão. Dito e feito. Casaram-se no mesmo dia e vieram, um para a ala esquerda outra para a ala direita, estrear camas espaçosas. Lua-de-mel. Nascimentos. Batizados. Festas. Embarca-se o velho, lágrimas. De repente, a bomba.

Homero argumenta:
– Sempre demos bem, extraordinariamente bem. Afora o apego à terra, à morada, às plantações que vimos nascer, aqui temos interesses comuns. O sonho do pai, fazendo esta fortaleza, foi que nela vivêssemos, a zelar do gado e a multiplicar as benfeitorias. Súbito, no melhor do pagode, amanhece você com a novidade – quero morar só. Esta não, nem!
– Sério.
– O retiro é de primeira, uma uva. Uva porque nos entendemos às maravilhas, vivemos sob as mesmas telhas e de igual trabalho. – Alça o semblante e fixa o parceiro. – Sabe, a história será diferente, o sítio intragável, o dia em que um de nós aqui ficar perdido, sem o companheiro de infância, sem o compadre e sócio, para as costumeiras decisões. Digo-lhe francamente. Não sei o que vai ser de nossa fazenda.
Será o que sempre foi, um rincão bonançoso e cobiçado. As relações não se modificarão, modificará o pouso, só isso. Ali – suspende-se, o braço levantado, e aponta –, ali, a cem passos do vale das imbaúbas, faço uma casinha. Seremos vizinhos, sócios, amigos, sem perda de nenhuma sustância.
Suspirando, Homero pergunta-lhe:
– É novo o plano?
– De meia idade.
– E o mistério?
Estudava o problema.
– Mulher?
Sem graça, Haroldo começa a cascar uma espiga de milho, a inquirição renasce:
– Mulher?
Com a cabeça, o interpelado diz sim.
– Vamos, desabafa logo – ordena o irmão.
Estimulado, o moço abre o saco de roupa suja:
– Nossas esposas são de pontos diferentes – Alzira da cidade, Rosa do campo. Na mesma data e hora, em pé de igualdade, aqui entraram as duas. Rosa foi pra cozinha, Alzira virou patroa.
– Sempre me bati contra tal situação.
– E o brado, que valeu?… Ferrada no pesado, a Rosa continua se esfalfando, e a Alzira, no bem-bom – costurando, lendo, bordando, não se movimenta para nada. – Aguarda a réplica e nada vem. Então martela: – Trabalhos caseiros existem, sempre existiram, e alguém tem que executá-los. Agora, o porém é que as tarefas cresceram e subiram as exigências, descambando-se para o xingatório.
– Debulhando a espiga, segue avante: – Isolados neste calcanhar do mundo, precisamos de concórdia. E, para tanto, o remédio é a mudança.
Desolado, a fantasiar um prazo, Homero insinua:
– E se eu me abrisse com ela?
– Pra quê?
– Afinal, é uma tentativa.
– Morta.
– Que se perde?
– Perde-se a autoridade, cria-se a malquerença, quem vai ficar na pior é a coitada da Rosa, atochada de ordens: “engoma este vestido”, “dê banho nos meninos”, “arruma a casa”, “sirva a janta”.
Escolhendo a vítima, o gavião plana alto, roda, investiga; depois, emborcando as asas, despenca-se de corpo largado; trazendo-o de olho, o galo índio solta o rebate, a pintaiada voa, metendo-se na cabaceira.
Queimando um cigarro, Homero consulta:
– Mas é você ou eu que deve sair?
– Eu.
– Não sei por que?
– Analisando a coisa há longo tempo, já penei de sobra, com noites e noites de insônia. Refeito, passei a gostar da ideia, do local, da futura morada; até o silêncio que reinará por lá, distante dos currais e do rumor das criações, me seduz.
– Quer dizer que a mudança é certa.
– Para nossa integral harmonia, creio ser o mais sensato. – Umedece os lábios e, para reforçar a decisão, volta às queixas: – Outro cortado em que ela traz a pobre Rosa, de escassas letras, é corrigi-la de ceca e meca, em saliência de rainha. Feito em particular e em tom amigável, o reparo daria frutos excelentes. Contudo, diante dos camaradas, na presença dos filhos, ao lado do marido, é demais.
– Pobre comadre!
Há pouco você assistiu à partida da turma para o canavial e ela, da rede, comandando o troço: “Dê a mão ao Toninho, vigia a Lúcia, não facilita com o rio”. E mais: “Não se esqueça, quero duas caianas”. Pensa bem. Dar a mão a garoto de cinco anos e deixar a filha, de três, ao deus-dará.
– Deixa, o castigo vem a cavalo.
Colhidas no chão e acionadas pelas roscas da ventania, folhas verdes galopavam no espaço. Da mangueira bojuda, tombava cheiro adocicado. Agulhados pelas almas-de-gato, os bezerros pastavam na vertente ensolarada. Em combustão, monte de esterco fumaçava as árvores. Espichado, na sombra, vista entrefechada, o perdigueiro observava o corrute dos bois, em ruminação.
Vencido, Homero entrega os pontos:
– Minhas desculpas.
– Ora!
– Quando inicia a construção?
– Farei a limpa amanhã.
– Já tem o risco?
– Só na cabeça.
– E a água?
– Mando rasgar uma cisterna; depois, com meio caminho andado, a gente desvia parte do rego, o cravo vai ser o vale – quase duzentos metros de bicas e muita aroeira.
– Isso arranjaremos, folgado. – Espreguiçando-se, ajunta: – Nunca imaginei a separação e só de ouvir a ameaça, fiquei transtornado. Agora vejo que a solução é correta, liquidando às aperreações pela raiz. Que vou sentir, vou. Nascemos juntos, juntos crescemos e nos casamos no mesmo dia. Já não vamos morrer sob o mesmo teto.
– Amigo, o que interessa é morrer debaixo do mesmo céu.
Estampido de canhão, solo e árvores estremecem, voam as aves.
Amassando o carreiro de todos os dias, a petizada acode ao estrondo, exclamativos no ar:
“Que susto!”
‘A casa balangou!”
“Caí sentado!”
Grupados, homens e meninos sobem a ladeira e fitam o poço. Fumaça e mais fumaça. Estendem à sombra de idoso jatobá e conversam, os guris farreando no murundu argiloso.
Vez em quando, beirando-se da cisterna, um adulto irradiava:
– Tudo na mesma.
– O nevoeiro sujou.
– Clareou um cadiquinho.
Boiando na atmosfera, vinham da fazenda o qui-qui-ri-qui dos galos e o mé dos bezerros. O solo fofo, a verdura, as flores silvestres, recendiam, sob a ação do sol. Abelhudo, um passarinho denunciava:
– Bem-te-vi! Bem-te-vi!
Huguinho seleciona pedra redonda, ajeita, visa, estilingando o enxerido. Atento, o pássaro acompanha o granizo com a vista, dá salto faceiro e troça:
– Bem-te-vi!
Erguendo-se, o pai zomba:
– Deixa pra mim, pexote.
Rançoso, o malandro vira a peça para os homens – foi um Deus nos acuda!
De pé, Haroldo dirige-se ao irmão:
– Quantas horas?
Medindo a queda do sol, Homero calcula:
– Quatro e pouco.
– Vou em baixo, espiar o estrago.
– Calma, rapaz. O que se pode fazer amanhã – não faça hoje.
– De calma, estou enfarado. –Arrepela os cabelos e doutrina: – Ato o lenço na focinheira e mergulho, a corda atrás. Sentindo mal, dou a laçada e grito. Vocês funciona o sarilho, tá?
Degrau a degrau, lentamente, enceta a viagem, desaparecendo na fumarada. E no alto, coração apertado e de folego parado, os dois homens escutam. Súbito, o apelo:
– Acode! – seguindo-se-lhe o rumor de queda.
Perplexo, Homero solta a corda, espera um instante e puxa. Nada!
Voz embargada, anuncia:
– Desmaiou.
Tira a camisa e as botas, manda o filho levar a ocorrência à família e desce, a corda na mão. Desce, brada por socorro e lá permanece, encoberto por bruma espessa.
Homens, mulheres e crianças, em louco atropelo, acorrem ao local do sinistro, indagações cruzam – onde, como, quando?
Os olhos escorrendo, trêmulo, o vaqueiro faz a narração, Rosa quer saltar, Alzira desfalece, generaliza-se a gritaria.
Ligado aos patrões por laços afetivos, um peão decide buscá-los. Manietado pelos rins, o vulto eclipsa, a carretilha geme, em meio a intensa emoção. Com ouvem-se berros:
– Puxa, estou sufocado.
Içam o infeliz – estava mole, descorado.
Espalha-se a notícia, moradores surgem, oferecendo préstimos e dando sugestões. E, atrás de recursos, despacham um portador.
Noite.
Esposas e filhos recolhem-se a casa grande, aparecem fogueiras e velas, orações ressoam no triste descampado.
Com dois praças e poeira até na alma, o delegado chega no dia seguinte, escuta os relatos, mira a cova e arrota o parecer:
– Gás, gás venenoso. Matou dois e mata vinte.
Arrastando-se no chão, escabelada, Rosa intercede:
1 Pouco
– Pelo amor de Deus, tira o Haroldo de lá! Quero vesti-lo, enterrá-lo em caixão, enfeitá-lo de flores. Tira, pela Virgem Santíssima! Longe dos filhos e de meu choro, ele não pode ficar.
Mandante e troviscado, o delegado informa:
– Não pode e fica, fica mesmo. Dois já esticaram e um está a partir.
– Piedade, criatura!
– Acabou-se. E já que lá estão, terra em cima.
Espichadas no terreno, seguras, lacrimosas, as mulheres olham, demoradamente, a última vez. Em longínqua penumbra, um sobre o outro, abraçados, lá estavam os entes queridos.
Soluços histéricos, gritos, malcriações, uma estripulia se armava. Cortando-a, os soldados distribuem pescoções, dois tirambaços ecoam, o delegado ordenado:
– Vamos gente, terra em cima.
E a trinta metros, sobre os dois irmãos, a terra começa a cair, surdamente.
Com este simples conto, a abertura das homenagens à memória indelével de um grande artista da palavra, no centenário de seu nascimento, Humberto Crispim, o inesquecível!
(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, especialista em Literatura pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG. Doutor em Geografia pela UFG, pós-doutorando em Geografia pela USP, professor, poeta – bentofleury@hotmail.com)