NO OPOSTO LADO DA VITÓRIA
Redação DM
Publicado em 13 de novembro de 2016 às 01:09 | Atualizado há 2 anosDiego El Khouri é artista plástico, poeta, cartunista, caricaturista, desenhista, ensaísta e fanzineiro (a palavra fanzine reúne as contrações das expressões em inglês: fanatic e magazine. Em português significa Revista de Fãs. Ou seja: publicações feitas por pessoas e para as pessoas, que gostam de determinado tema em comum). Seu primeiro livro foi escrito aos oito anos de idade. Agitador cultural realiza entrevistas com artistas de diversas áreas, (já fez mais de 40). Compõem o seu rol de entrevistados: a cantora Ângela Rô Rô, o sonetista Glauco Mattoso, o músico Sylvio Passos (parceiro musical de Raul Seixas em algumas canções) e o artista plástico português, Carlos Saramago. Participa de várias revistas alternativas, fanzines e antologias poéticas.
Diego atuou em grupos de poesias no Rio de Janeiro, como a Pelada Poética (organizado pelo ator e poeta Eduardo Tornaghi), Rato di versos (um sarau bastante conhecido na Lapa. Criado pelo poeta Dudu Pererê) e João do Corujão, sarau cujo padrinho é o músico Jorge Benjor. Já expôs suas telas em vários locais, no Brasil e no exterior. Participou, dentre outras, da XI Mostra Internacional de Arte Brasileira em Londres, na Victoria Palace.
Poemas e telas de Diego El Khouri (Orizona – GO).
ESPAÇOS
Arabescos de nuvens azuis
néctar divino dos deuses
magnólias translúcidas de afã
ósculo visguento da noite
ruínas epidérmicas de prazer
ondas sonoras uivando
um beijo, um grito, abraço
espaços multicoloridos
– tempestade, orgasmo –
e essa fome que não passa?
a triste namorada caminha
bebendo o mesmo marasmo
e essa fome que não passa?
bebês-alpistes invadem a madrugada
janela aberta, escancarada
o olho vivo, imaculado.
PERVERSÃO

Noite fomentada de delírios
ó madrugada frívola,
teus noctâmbulos olhos
macularam na alma do verso
a rota mundana dos dias
têmperas escorrendo sangue
a imagem “cega e inexata”
que ao mesmo tempo liberta
e também atrofia
uivos rascantes no céu,
clemência te pedem os anjos
(bando de idiotas),
repito inúmeros versos
me copio sempre
pervertido que sou,
ladrão nato
nada me resta
a não ser berrar.
CORPO E MORADA
Barcos sem morada por vezes me beijam
esperando que os últimos dentes caiam
que a tempestade siga seu ciclo
retratos se debrucem sobre mesas
e eu permaneça como sempre só
só sem dominar meu corpo, minha alma
sem entender o mapa e as simples carícias
que fazem nossa mortalidade abrigo
sonhar, pensar, mirar estrelas
sem que o corpo faça parte dessa fantasia
de certo abismo o que a poesia trás
em mim jaz um amigo
alguns dentes e olhares perdidos
(agora me sujei em teu olhar)
o amor é perecível como o tempo
copos na mesa apoiam retratos
que deveriam estar virados
me sinto pó, irremediavelmente só
do outro lado da colina
aonde Antonin Artaud
me espera com flores e delírios
espera que os dentes caiam
a miséria venha logo
e não me engane
com o oposto lado da vitória
nove anos se passaram
desde aqueles cortes
muitos terremotos
pulverizaram meus poros
amores beberam de meu sêmen
e várias pancadas
formaram pares com meu peito
irmãos vivem do salário minguado
escravos modernos
chamados destroços humanos
já fui ruínas, migalhas, fezes
hoje pedra que se forma
na união de outras pedras
no abraço de outros corpos
no encontro de outras almas
no aprendizado,na aurora
“onde padeço angústia”
cosmos, furacão, armas, revolta
minhas vistas enxergam o futuro
que é passado
se digo que sou pedra que rola
o que dizer desses dias
que não se movem
ou dessas mulheres
que parem vermes
sonhando colher lindas flores?
o que dizer da vida
o que pensar dos amores?
LUMINOSIDADE

Nas curvaturas da cintura
no arcabuz de aldebarã
na pele que rasga
a claridade do sol
eis a taça erguida
o festim de Hitchock
tragando para dentro da noite
as últimas gotinhas
dessa luminosidade.
RADAR

I
Fui percorrendo a íris desnuda de sua alma
beijos elétricos a distância correm
profundezas de carne do céu que cai
emergi de teu ventre em êxtase
doce mulher que me embriaga
sinto pulsações sacanas atravessarem meu peito
tijolos tijolos de barro despedaçados
trincam na noite selvagem dos sentidos
eu te beijo e me beijo
nos beijamos, a felicidade grita
queremos mais que orgia
o mundo paralisado num gemido
testes nucleares, miséria
repressão, perdas, nada mais existe
eu e você parados calados excitados
com as pedras do amor lançadas no universo
que é vertigem sublime na gota da noite-chuva
amor repentino nas praias lindas
jatos de esperma, pintura feminina na cama
moldura que beija corpos
— apaixonados nos entregamos.
A página Oficina Poética, criada e organizada pela escritora e acadêmica Elizabeth Abreu Caldeira Brito, é publicada aos domingos no Diário da Manhã. Esta é a 247ª edição (desde 08/01/2012). [email protected]