No singelo culto do lar e na igrejinha de barro e aroeira
Redação DM
Publicado em 31 de agosto de 2016 às 02:45 | Atualizado há 1 anoHoje, 31 de agosto, o meu aniversário e o aniversário de Trindade. Uma data festiva para a querida cidade nascida da fé e da devoção. Sob a égide da Geografia, o lugar tem especial referência. Nele se concentram forças contrastantes, imagens, ícones representativos de uma época. Assim é o lar de Constantino Xavier e também a Igreja do Divino Pai Eterno de Trindade, que um dia foi apenas uma bucólica capela perdida no sertão de Goiás. Igrejinha do coração do Brasil, do coração dos brasileiros.
Levantada do barro goiano, no Barro Preto da Santíssima Trindade de Goyaz. Igreja lírica e carregada de essências, trescalando infinitas emoções que o tempo não apaga. No sentimento do Pai estão abrigadas as dores e inquietações de gerações numa centenária caminhada. Nela, vemos que “somos povo de Deus caminhando”.
Esse caminhar do povo abriu diferentes rotas geográficas no sertão de Goiás em tempos de outrora.
Seguimos na marcha interminável das gerações que pisaram o cansaço desse chão. Num terço imaginário evocamos a imagem da igrejinha brejeira, nascida da fé do culto doméstico, de gente de pé no chão ou de botina ringideira, de gente de mãos calosas e almas de sol. Romaria sertaneja e cabocla do coração do Brasil, romaria da gente da terra, da roça, da poeira de todos os caminhos, como incenso vermelho elevado a Deus.
Assim se constituiu Trindade!
Igreja do Divino Pai Eterno de Trindade! Ícone maior da fé no Brasil Central, no Brasil inteiro, na religiosidade que integra todos os homens num elo com Deus. Levantada em distante era, 1912, nasceste para agasalhar tantas súplicas, tantas dores, alegrias, dissabores, mágoas que o tempo sepultou para a eternidade. Casamentos, batizados, crismas, missas de corpo presente. Infinitas manifestações do homem a Deus e das bênçãos derramadas do berço ao túmulo, ali aconteceram nesses mais de cem anos!
Igrejinha de barro e de madeira lavrada, de duras aroeiras retiradas em santa lua que te levantaram em dias distantes para se tornar símbolo de eterno encantamento! Casa do Pai Eterno, casa dos trindadenses, abrigo dos romeiros, das andorinhas vagabundas e passeadeiras, das rolinhas fogo-pagô no telhado e nas torres, vigilantes de todos os momentos; andorinhas donas do tempo, pousando e modificando o relógio da torre.
Igreja romanesca, de assoalho resistente e lagos portais e janelas descomunais, abertas ao infinito. Que exemplo bonito lega ao futuro, nas inquietações de gerações vindouras. Quanto sentimento ali abriga, no ofertório das vidas a serviço de Deus.
No homem, reside a perquirição. Em Deus está a conformação. Na imagem de suas torres, de suas janelas, de seu telhado, o sentido exato da vida. Vida que deve se consagrar a Deus, que nada é sem a presença do Pai. Meca sertaneja e cabocla do coração do Brasil, amparo dos oprimidos!
Pés e almas cansadas te buscam, te encontram. Orientam-se pela bússola da fé. Gente castigada pelas injustiças do mundo, gente em paz, gente que agradece; gente que padece. Em cada prece elevada a Deus, um sentido do existir.
Igrejinha que é razão de viver, de sonhar, presente no imaginário e no coração de tanta gente. Por tantos lugares do mundo a centenária ermida está centrada no coração daqueles que esperam em Deus! Imagem do Pai nesse mundo de contradições e desacertos; és, igrejinha, um relicário querido dos tempos de Goyaz!
Igreja de terra socada e de adobe, em paredões que agasalham gerações. Em cada canto do velho templo, chora uma saudade. Na paisagem pretérita, marcada pela existência da própria igreja com sua construção barroca, evoca os tempos do passado, o tempo esquecido que a própria paisagem retém na memória coletiva e também individual. É a Geografia inexistente no aspecto físico, mas presente no limite entre a lembrança e a recordação.
E a velha igreja centenária enche-se de luz e de paz. Comunicam-se em sentidos e significados os tantos seres que ela abriga. A igreja se enche para mais uma celebração. A vida em suas instâncias tantas, em tantas dimensões do ontem e do hoje, é celebrada.
Pelos meandros da Geografia poética, ou geopoética, como se define, será possível compreender a vastidão do sentido ideológico da igreja do Divino Pai Eterno de Trindade, no âmbito da Geografia e da História do Estado de Goiás. A mesma se constitui em ícone no mapeamento religioso que engendrou uma compreensão de espaço e território nas terras do Anhanguera.
Justamente essa fé, nascida na Igreja centenária é que ainda consegue manter viva a identidade trindadense, mesmo estando a cidade de Trindade na região metropolitana da Grande Goiânia, assim como tantas outras como Aparecida de Goiânia, Bela Vista de Goiás, Guapó, Goianira e Bonfinópolis. O território da fé se destaca como um ideário de pertencimento.
O Arraial de Barro Preto da Santíssima Trindade de Goyaz, poético recanto dos sertões goianos, era, em 1912, já um distrito de Campininha das Flores, hoje bairro de Goiânia. As datas emblemáticas de sua origem são desconhecidas, já que se baseiam em informações orais.
Dois anos antes, 1910, o padre Antão Jorge Heckembleikner aumentou o número de missas e solenidades na igreja do Barro Preto. Solicitou ajuda para reconstrução do Santuário e o início das obras foi em 1911, ficando pronta em 1912, quando foi rezada missa solene que teve por cantora Maria Augusta de Mello.
Padre Antão Jorge, Redentorista alemão, teve participação decisiva na história trindadense ao levar adiante, a partir de 1910, os trabalhos de reconstrução da Matriz de Trindade, na época, já pequena para o número sempre crescente de fiéis. Foi ele quem comandou os trabalhos, a organização dos acervos territoriais da igreja naquela época, principalmente com a venda de terrenos que não eram utilizados.
Nesses documentos se comprovam as lutas do padre Antão Jorge para angariar fundos para a construção da Igreja Matriz como se vê até os dias atuais, nossa jóia barroca maior.





Padre Antão Jorge, um nome que fica na história.
Após sua inauguração, houve crescente ampliação de eventos como no ano seguinte, 1913, a introdução de uso de fogos de artifício durante os festejos da Romaria, o que deixava estupefatos os romeiros do interior que não conheciam essas modernidades de então. Com o início da Primeira Guerra Mundial e o sentimento antigermânico, foi nomeado o padre brasileiro Francisco Braz Alves para Vigário, para se evitar empecilhos ou contendas.
Em 15 de janeiro de 1913 foi fundada em Trindade a “Congregação da Doutrina Cristã”, que prestou grandes serviços à causa religiosa e assistencial no Distrito. Também nesse mesmo ano foi registrada, pela primeira vez, a festa em louvor a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, “a madona dos Redentoristas”, com grande participação popular.
No ano de 1915 teve início as solenidades da Semana Santa. Bellarmina Magalhães Ottoni, Martinha Cavalcanti e Floripes Borges de Carvalho foram as primeiras a organizarem os eventos dessa piedosa devoção, quando se comprou na Casa Sucena de São Paulo, as imagens de Senhor Morto e Nossa Senhora das Dores para a procissão do Encontro e Procissão do Senhor Morto.
Enriquecendo o cenário, a Matriz ganhou iluminação com gás acetileno que era conhecido como “luz-luar”, retirando-se as antigas candeias de azeite, lamparinas e velas de sebo que empesteavam o ambiente. Nesse mesmo ano, o Apostolado da Oração tem início com a inscrição de 361 associados.
No ano de 1918 foi realizada pela primeira vez a festa do Sagrado Coração de Jesus em Trindade, que teve vida efêmera. Nesse mesmo ano, segundo relatos, os Redentoristas criaram uma Banda de Música para Trindade que também não foi adiante. O meio e as problemáticas políticas tornava adversa qualquer tentativa de progresso
1920 foi um ano de muitas realizações para Barro Preto, com a emancipação política em 16 de julho, passando a denominar-se Trindade; a iluminação elétrica da igreja com um gerador próprio, mais tarde contratado da Usina de Gabriel Alves de Carvalho, pioneira da cidade; a publicação e distribuição da Polyantheia Redentorista, sem dados históricos; a instalação de um telefone na Igreja, o primeiro da cidade, que se comunicava com o Seminário em Campinas. Sobre esse fato, o escritor Antonio José de Moura em seu livro Sete léguas de paraíso satiriza a ignorância dos roceiros que criam que os padres, naquele aparelho esquisito, falavam com o céu.
Em Trindade, por volta de 1920, para organização e acomodação do número crescente de ex-votos, foi criada na Matriz a “Sala dos Milagres”, graças à organização do Padre Antão Jorge. Esta é, até hoje, No Santuário Basílica, um diferente museu de antiguidades, depositária de relíquias e objetos dos mais variados estilos: cadeiras de roda, amuletos, estátuas, peças, roupas, uniformes militares, flores artificiais, quadros, figuras moldadas em ceras, tranças, gessos, troféus, fotografia, partes de animais empalhados, e outras representações do milagre do Divino Pai Eterno.
No dia 2 de janeiro de 1921, segundo os registros de Campinas, chegou a Trindade, enviado pelo Padre João Baptista, o irmão André, que fez a pintura do Santuário de Trindade, segundo a planta de F. Max Schmalz, residente em Gars Am Inn, na Baviera. O relógio de torre da Igreja de Trindade foi instalado pelo irmão André, encomendado na “Casa Manderbach” de Munique, Baviera, loja de fama mundial. A encomenda chegou a Trindade no ano de 1921.
Neste mesmo ano a Igreja recebeu novos bancos. A pintura, com a via-sacra viria a ser novamente reformada em 1951; pintura feita pelo artista plástico Sebastião Prattes de Oliveira. Somente em 1992 a via-sacra seria novamente repintada e acrescida de novos motivos, pelo artista plástico João Pereira, hoje retiradas.
Em junho de 1922 foi feita uma concessão especial com a permissão de Roma para que os Redentoristas pudessem usar batina branca em virtude do excessivo clima tropical, fato que somente se concretizou, devido restrições, na década de 1950.
A Conferência de São Francisco de Paulo foi fundada em Trindade por ocasião da pregação de missões populares em 26 de fevereiro de 1922, em que havia vinte confrades que atendiam a doze famílias, segundo o jornal Sanctuário de Trindade, de 30 de dezembro de 1922. Sua primeira festa foi registrada no dia 30 de junho de 1922. A conferência desapareceu por uns tempos e foi restaurada em 1936.
Em 1928 foi criada a Paróquia independente de Trindade, segundo o livro de Tombo de Campinas, página 23, n° 05, mas pela carência de sacerdotes, o fato somente se consolidou 20 anos depois, em 1948, com construção do convento, sendo o padre Arthur Bonatti o primeiro superior e vigário da Paróquia de Trindade, subordinada diretamente ao então vice-provincialado de Aparecida, no Estado de São Paulo.
Em 1923, Dom Emanoel Gomes de Oliveira assumiu como Bispo de Goiás e modificou o teor do contrato com os Redentoristas no ano seguinte, em 5 de dezembro de 1924 em que os mesmos passaram à condição de assalariados e com subordinação administrativa à mitra diocesana.
Ainda no ano de 1923 foi registrada pela primeira vez em Trindade a festa de São Geraldo Magella com grande concorrência de fiéis. Também, em 18 de outubro de 1923 foi instalada a Associação das Filhas de Maria que muito fez pela área assistencial da cidade. Nesse mesmo ano, também, foi feita uma das primeiras projeções cinematográficas no Largo da Matriz, ao ar livre, o que se tomou sucesso absoluto.
Em 27 de Maio de 1947 foi instalado um serviço de autofalantes na Praça da Matriz de Trindade com amplificadora e emissora local, serviços requeridos pelo Padre Pelágio Sauter, desde então começaram os anúncios fúnebres até hoje existentes.
Em 19 de fevereiro de 1946 foi o Pe. Alexandre Miné transferido para Trindade a fim de providenciar o início da construção do Santuário Novo do Divino Pai Eterno no outeiro da Cruz das Almas, cuja pedra fundamental foi lançada em 1943.
Desde o lançamento de sua Pedra Fundamental em 1943, a modificação do seu projeto inicial, os primeiros alicerces, as primeiras paredes, o telhado, a remodelação externa foram gastos mais de meio século. Somente a partir dos anos de 1980 que o Santuário passou a ser visto em sua grandeza
Até o ano de 1948, a imagem do Divino Pai Eterno não havia saído de Trindade. Porém, para a realização do “Congresso Eucarístico de Goiânia”, que aconteceu de 03 a 06 de junho de 1948, o povo realizou uma memorável solenidade, levando a imagem do Pai Eterno numa grande procissão de Trindade para Goiânia onde foi festivamente recebida com manifestações de fé e hinos, sendo que o hino do Congresso Eucarístico daquele ano foi composto pelo dedicado professor José Lopes Rodrigues.
A imagem do Divino saiu de Trindade novamente no ano de 1966 para peregrinações pelo interior goiano e em 1992 quando foi restaurada na Cidade de Goiás por uma descendente de Veiga Valle.
No ano de 1950, teve início em Trindade as apresentações e exibições do “Cine Santo Afonso” dos Padres Redentoristas que funcionou até o ano de 1953 com caráter didático e de cunho cívico/religioso. Já em 16 de janeiro de 1955 foi benzido oficialmente o pavilhão de Trindade, confeccionado por iniciativa do Padre João Cardoso de Souza.
A festividade inicial de São João foi oficialmente iniciada em Trindade no ano de 1955 e em 29 de novembro de 1956 apareceu o programa “A Voz do Santuário” na pioneira Rádio Clube de Goiânia, que tinha caráter religioso e eclesiástico, cessando suas apresentações em 1957. Somente em 1963, com a inauguração da “Rádio Difusora de Goiânia” é que foram intensificados os programas religiosos em Goiás, que ocorrem até os dias atuais.
Em 13 de novembro de 1957, Dom Fernando Gomes dos Santos veio a Trindade para o estudo do problema da construção do Santuário Novo do Divino Pai Eterno, nomeando o Engenheiro Dr. Marinoni para dirigir a construção. Foi somente em 1961 que o Padre Renato Posseti passou a dirigir pessoalmente a obra. Pouco depois dessa época, em plena campanha, JK visitou Trindade.
Também, o registro pioneiro sobre a música trindadense partiu de Oscar Leal em seu precioso documentário Viagens ás terras goyanas, em 1890. Nele, indignado, narra que na Igreja, como instrumento musical, estava um realejo, prova máxima de pobreza, pois nas outras cidades, havia órgãos, harmônios, cítaras, pianos e Trindade, um vilarejo simples, mas sempre cheio de gente, havia dentro da igreja, um profano realejo! Pouco depois desse período chegaria à vila o músico José Vicente da Costa Campos, de Corumbá de Goiás, seguido de José Ferreira de Araújo (Mestre Zé do Ó), mineiro, antigo músico da “Banda Euterpe” de Pirenópolis (criada em 1868 pelo Maestro Silvino Odorico de Siqueira e seus filhos) veio residir no Barro Preto a partir de 1895 quando, em 1900, criou sua agremiação musical para atendimento das festividades de Barro Preto e Campininha das Flores, principalmente as religiosas.
Sua “Banda” sobreviveu por longos anos, sendo que registra o saudoso historiador Braz Wilson Pompêo de Pina Filho, que em 1933, na primeira missa de Goiânia essa referida banda executou o Hino Nacional Brasileiro na fundação da então mais jovem capital brasileira, nascida em plena Campinas, inóspito cerrado.
Destaque, também, devemos conferir aos músicos Joaquim Santana Marques, da Cidade de Goiás e Baltazar de Freitas, de Jaraguá, que, com suas bandas, foram os primeiros a alegrarem os festejos da Romaria do Divino Pai Eterno, nos anos 1910 e 1920 do século passado. Já nos anos 1930, com os chamados “Jazz-bands” merece destaque a atuação em Trindade de Edilberto Santana e Max Mellazo (de Santana das Antas, hoje Anápolis), nos bailes despreocupados de então.
Outro pioneiro da música em Trindade foi o abnegado Padre Pelágio Sauter que ministrava aulas de harmônios aos jovens da época, formando dezenas de cantoras líricas como Isaura e Ozana Braz, Natalina Neves, Maria Augusta Gonçalves e Elza de Freitas.
Nos anos 1930 em Trindade, surgiu a Banda do Mestre Araújo, sob a coordenação do Maestro José Ferreira de Araújo, da Banda de Música da Polícia Militar do Estado de Goyaz, que ministrava aula de música para seus alunos, formando gerações seguidas de bons músicos trindadenses.
Mestre Araújo era ainda responsável pelas famosas retretas do velho coreto do Largo da Matriz, das dolentes músicas que alegravam o footing dos namorados e os sonhos acalentados que se perderam no tempo ante o inexorável nunca mais. Todos vivenciados à sombra do ícone maior, a Matriz.
O primeiro piano de Trindade pertenceu a Davina Nascimento Vasconcelos, que era Professora no Grupo Escolar João Pessoa. O segundo pertenceu a Cecília dos Santos Almeida, também professora do referido Grupo Escolar.
Maria Augusta da Cruz foi a primeira cantora da igreja do Divino Pai Eterno de Trindade em 1912; aquela que cantou na missa de inauguração. Professora, catequista, esposa e mãe devotada, ela nasceu na Cidade de Goiás em 3 de maio de 1888 e faleceu em Trindade em 8 de agosto de 1989, aos 101 anos de idade. Iniciou seu trabalho educacional no ano de 1917 em sala de aula doada pelos Padres Redentoristas. Lecionou por mais de 30 anos e fez todo o censo escolar do Barro Preto e região nos idos de 1917, o primeiro no gênero, viajando a cavalo léguas e léguas de distância
Maria Aurora da Conceição Arantes foi outra devotada cantora da Igreja do Divino Pai Eterno de Trindade a partir de 1917. Ela nasceu em 1898 e faleceu em 1926, de complicações de parto. Foi mãe do desembargador Lúcio Batista Arantes (1918-2010) e do teatrólogo Otavinho Arantes (1922-1991). De voz suave e elegante, traduzia a beleza ao criador nas missas de domingo. Foi também professora do Grupo Escolar João Pessoa de Trindade.
Izaura e Ozana Silva, filhas do famoso e reconhecido Coronel João Braz, residentes no Beco dos Aflitos, famosas modistas e moças de fino trato, foram também cantoras da Igreja do Divino Pai Eterno, nos anos de 1920, seguidas de Ereny Fonseca de Araújo (1913-1996) que foi a verônica nas memoráveis missas durante os eventos da semana santa em Trindade dos anos de 1930.
Mais tarde, esta mocinha, que era agente dos Correios e Telégrafos da cidade, tornou-se professora, escritora e pianista e se casou com Almir Turisco de Araújo, que ocupou além de outros, o governo do Estado. Eram auxiliares do coro da igreja as admiráveis professoras Davina Nascimento Vasconcelos, Dalva Damar de Oliveira Moura, Laurinda Seixo de Britto de Oliveira Moura, Cecília dos Santos Almeida, Ubaldina dos Santos Almeida, Ana Gonçalves Cordeiro (Neném Cordeiro), Nenzica do Dito Pureza, Luís Martins Costa, Joanita Castro Costa, Antonia do Chico Borges, Alexandrina Batista Ribeiro.
A partir dos anos de 1940, passou a assumir os cânticos da igreja a senhora Petrina Lima das Neves (1913-2000), que residia no Largo da matriz, casada com o comerciante Tertuliano das Neves. Mesmo ocupada com os afazeres domésticos e a criação dos cinco filhos, dedicou tempo à igreja do Divino Pai Eterno com seu arrojo e dinamismo, auxiliando na beleza dos ofícios religiosos.
Outro nome inesquecível foi Elza de Freitas (1931-1995) formada em música e canto pela Universidade Federal de Goiás. Ela foi, por décadas, o ícone da música trindadense, cantando em cerimônias e em casamentos na Matriz de Trindade. Pesquisadora, professora de piano, professora estadual, dedicou seu tempo à cultura e à arte. Publicou artigos na Revista do Instituto de Artes da UFG e no disco Música do Povo de Goiás, editado em 1979, pelo governo Ary Valadão, em que pesquisou sobre a “Encomendação das almas em Trindade”. Era membro da Academia Trindadense de Letras.
Em plena era dos festivais surgiu em Trindade o Fepcantri (Festival Popular da Canção Trindadense) sob a coordenação de Luiz Carlos Ribeiro, Juvenal Mâncio de Mello, Célio Gabriel de Carvalho, Célio Gomes da Silva, Pedro Alves de Morais e José de Carvalho que, anteriormente, em 1970, fizeram realizar um festival semelhante para a mostragem dos talentos musicais de Trindade.
Em 1976 surgiu o FIT (Festival de Intérpretes Trindadenses) no antigo Clube Social de Trindade criado pelos então jovens Adevair e Alair de Paula que durou vários anos. Nas animações e festas cívicas e religiosas foram famosas as bandas Os Bárbaros, Os diagonais, Embalo sete, que foram sucesso e embalaram sonhos de gerações seguidas.
Merece destaque a atuação de cantores como Francisco de Assis, Roberto Junior, Onofre, Valdemar Barbosa, Jair Borges de Mendonça e principalmente Walter José (Waltinho) que se imortalizou com seu excepcional sucesso “Romaria”, que lançou num long-play com capa de Omar Souto e direção técnica de Dejary de Britto. Essa música é quase um hino que nos remete à lembrança do romeiro eterno da Trindade.
Também o Padre João Cardoso de Souza merece destaque especial em razão de ser o autor do Hino de Trindade e devotado à causa musical. Ele nasceu em Anicuns em 1918 e faleceu em Brasília em 1968. Foi vigário de Trindade e um dos mais valorosos pioneiros de nossa educação. Escreveu diversos artigos para a Revista da Arquidiocese de Goiânia e foi homenageado como nome da Biblioteca Municipal de Trindade, nome de rua e Patrono da Academia Trindadense de Letras.
O início da imprensa religiosa em Trindade aconteceu na década de 1920 quando começou a circular em lº de julho de 1922 o jornal Sanctuário de Trindade, de caráter quinzenal e religioso e que tinha por redatores os Padres Redentoristas do Santuário de Campinas.
Esse jornal tinha temática exclusivamente católica e se destinava a divulgar os acontecimentos religiosos de Trindade e Campinas. Esse veículo de comunicação circulou até l930 e mais de setenta anos depois voltou a circular.
Somente em 1956 apareceu outro jornal de temática religiosa. Foi Folha Paroquial Santuário de Trindade, que circulou de agosto de l956 a dezembro de 1958, dirigido pelos Padres Redentoristas de Trindade, em especial o Padre João Cardoso de Souza, grande pesquisador do passado.
Nesse mesmo ano passou a circular o pequeno jornal A Clarinada, boletim mensal da “Biblioteca Veritati” do Ginásio Divino Pai Eterno, dirigido pelo Padre João Cardoso de Souza e tinha exclusiva temática social e cultural dos membros do “Clube dos Estudantes Trindadenses” que marcou época em nossa cidade.
O jornal Vida Nova surgiu em Trindade no ano de 1976 e trazia exclusiva temática religiosa. Já nos primórdios da década de 1980 surgiu em Trindade o jornal Integração Jovem e circulou de l98l a l982, como parte divulgadora da “Comunidade domingo Jovem”, sendo redigido por Juracy Marques da Silva e com ilustração de Dario Alves da Silva.
No tocante à participação do carro de boi na Romaria do Divino Pai Eterno do Arraial do Barro Preto da Santíssima Trindade de Goyaz, não existe fonte exata de seu início, pois, ao certo, não existe mesmo data certeira do início da Romaria.
Sabe-se que esta fomentou em meio à gente simples do sertão goiano, utilizadores do carro de boi para suas diversas atividades, certamente, as de viagens como a que se destinava aos festejos religiosos e profanos da Romaria. Com muita perspicácia escreveu Wilson Cavalcanti Nogueira sobre o Carro de boi relatando a importância histórica desse transporte em seu magistral livro Mestre carreiro.
Sobre a participação dele na Romaria do Divino, encontramos em escritos de Augusta de Faro Fleury Curado, Edmundo Pinheiro de Abreu e José Xavier de Almeida informações valiosas e descritivas da Trindade de antanho, assim como nas memórias do grande goiano Licardino de Oliveira Ney, primeiro e único prefeito de Campininha das Flores.
Também aparece o carro de boi em extensa literatura telúrica de Goiás nas produções magistrais de Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, Carmo Bernardes, Bariane Ortêncio, Hugo de Carvalho Ramos, João Accyolli, Pedro Gomes, além de muitos outros.
Tornou-se tradição, então, a presença do carro de boi na Romaria do Divino Pai Eterno, resgatando nossas legítimas tradições e mesmo depois do aparecimento do automóvel nas plagas goianas a partir de 1918, a Romaria do Divino continuou a única a ter, ainda, o legado do carro de boi nas ruas de sua cidade num período em que já imperava a transformação impulsionada pelo progresso.
Foi no final dos anos de 1980 que Benígno José Monteiro (Didi) e Pedro Alves de Moraes (Pedrão), iniciaram a Romaria dos carros de boi na gestão do então prefeito municipal Roberto Monteiro de Lima. A eles, Trindade muito deve nesse sentido.
Irmanados pelo espírito cristão os carreiros continuam mantendo acesa a chama da fé e da tradição, enfrentando toda sorte de intempéries, dificuldades, cruzam os sertões dos goyazes, buscando a luz bendita que irradia do Divino Pai Eterno, protetor da gente sertaneja.
Trindade, locus da romaria cabocla, Meca sertaneja do coração do Brasil!
E os mendigos? São históricos, vêm dos tempos imemoriais. De onde surgiram? Todo ano, a mais de 150 anos, a cidade de Trindade e enche deles pelas ruas, vielas, becos, avenidas e principalmente na porta da Matriz, local onde os romeiros se aglomeram e onde há doação mais fácil, por meio da piedade dos fiéis.
Muitos são doentes, hansenianos, com enfermidades graves e expostas à poeira e ao tempo, na proliferação de pessoas, feridas mostradas em várias partes do corpo. Desde os mais antigos escritos sobre a Romaria de Trindade os penitentes são descritos, são analisados e discutidos, mas sempre permanecem também.
O padre Pelágio Sauter já fazia desde os anos de 1920 a distribuição de esmolas aos mendigos, nesse mister auxiliado por Avelino de Almeida e Silva, comerciante. A aglomeração exagerada na porta da igreja sempre causou problemas diversos. Somente no final da década de 1970, no governo de Ary Valadão foi criado o Centro de Apoio ao romeiro, no Bairro Santuário, onde hoje se encontra o Corpo de Bombeiros. Muitos, porém, não gostavam do local e novamente estavam na porta da igreja. Também havia muitos cegos com suas sanfonas, cantando. Hoje não são muito usuais. Há muitos hoje que são usuários de entorpecentes, principalmente o crack.
As manifestações de fé vivenciadas na histórica e secular Matriz do Divino Pai Eterno de Trindade constituem uma histórica singela, evocativa e singular dentro da história goiana e brasileira. São homens e mulheres, na esteira do tempo, tocados pelo amor do Pai, na busca do conforto para os males do corpo e do espírito, confiantes na significação da imagem abençoada.
Enfrentando as intempéries do tempo e do meio, saem de suas casas, num ritual sagrado de fé, de carro de boi, de caminhão, a pé, de ônibus, em carros luxuosos, em automóveis simples, a cavalo, nos paus de arara, de bicicleta, para louvar ao Pai Eterno da Trindade. Cumprem um sacrifício pelo amor e pela devoção.
Com uma fé viva e cheia de esperança, revivem o amor do Pai, esperam as graças do céu e reconstroem nas barracas nos quintais os exemplos de suas vidas. Irmanados pela oração, consagram suas vidas ao criador, na esperança do mistério que nos evoca a Santíssima Trindade.
E se entregam a Deus, nas suas orações, nos seus rituais, nas suas crenças. Deixam o exemplo de humildade e de busca que norteia toda a atmosfera de luz e de prece que paira sobre Trindade. Na Romaria cabocla do coração do Brasil, uma lição de amor permanece: daquele que, indo embora, despede-se do Pai Eterno, com o pensamento em voltar na outra Romaria para celebrar a alegria de viver.
Igreja Matriz do Divino Pai Eterno de Trindade, ícone maior de todos os goianos, esperança e símbolo de paz dos que esperam em Deus. Ela é o prolongamento do culto doméstico do lar de Constantino Xavier, uma simples olaria.
A Trindade querida nasceu de uma família!
Viva Trindade!
(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Literatura e Linguística pela UFG, pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura e Linguística pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutor em Geografia pela UFG. [email protected])