Brasil

Nove em cada dez brasileiros consomem eletricidade gerada por águas do Cerrado

Redação DM

Publicado em 19 de fevereiro de 2016 às 00:10 | Atualizado há 10 anos

O Cerrado – bioma e também domínio morfoclimático – é conhecido por muitos como a “caixa d’água do Brasil”. E esse apelido não é ocasional, pois a sua área abriga nascentes ou leitos de rios de oito bacias hidrográficas dentre as doze que existem no país, o que revela a importância socioambiental de suas composições.

Dois grandes fatores geográficos contribuem para que o Cerrado apresente essa importância ambiental: posição e relevo. O bioma encontra-se em uma região central do território brasileiro, o que contribuiu para que boa parte das bacias hidrográficas do país estivesse concentrada nele. Além disso, as altitudes presentes e o grande número de nascentes fazem com que haja um bom escoamento das águas para outras regiões, auxiliando na distribuição dos recursos hídricos.

O Rio São Francisco, por exemplo, possui mais de 90% de suas nascentes situadas no Cerrado, embora quase 55% das águas desse rio encontrem-se fora desse bioma. A bacia dos rios Paraná e Paraguai também possui suas origens situadas majoritariamente nas áreas desse importante domínio natural, que envia águas até mesmo para a Bacia Amazônica.

Mesmo assim, a despeito de toda a riqueza natural do cerrado e de seu povoamento tardio, hoje ele conserva apenas 20% de sua área total. Diversas tentativas no sentido de preservá-lo vêm sendo tomadas, mas até então, apenas 6,5% de sua área natural está protegida pela lei sob a forma de Unidades de Conservação (UC). O espaço ocupado pelo Cerrado equivale à soma das áreas da Espanha, França, Alemanha, Itália e Inglaterra.

O número de insetos na região do Cerrado é surpreendente: apenas na área do Distrito Federal, há 90 espécies de cupins, 1000 espécies de borboletas e 500 tipos diferentes de abelhas e vespas.

O Cerrado, diferentemente da Amazônia, Mata Atlântica e Pantanal, não recebeu da Constituição Federal o status de “Patrimônio Nacional”, tornando a conservação de sua biodiversidade uma tarefa mais difícil. Cerca de 80% do carvão vegetal consumido no Brasil vem das árvores do Cerrado.

O Cerrado é uma região peculiar: associa uma rica biodiversidade a uma aparência árida decorrente dos solos pobres e ácidos e de contar com apenas duas estações climáticas – seca e chuvosa.

Apesar de ser um bioma pouco estudado, sabe-se que o Cerrado é uma das regiões de maior diversidade do planeta, com um grau de endemismo significativo. Originalmente com cobertura de pouco mais de 1/5 do território brasileiro, o Cerrado sofre diversas ameaças à sua biodiversidade, principalmente por conta da profusão das atividades econômicas do agronegócio a partir da década de 1970 e que se intensificaram nos últimos anos.

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o ecossistema brasileiro que mais sofre alterações com a ocupação humana.  O bioma é considerado um dos 25 ecossistemas do planeta, com risco de extinção. Um dos primeiros impactos ambientais graves na região foi causado por garimpos e a atividade mineradora em grande escala, que contaminaram os rios com mercúrio, provocaram o assoreamento dos cursos de água e, em alguns casos, chegou até mesmo a impossibilitar a própria extração do ouro rio abaixo.

A expansão da monocultura intensiva de grãos e da pecuária extensiva de baixa tecnologia representa a principal ameaça à biodiversidade do Cerrado. Segundo cálculos realizados em 1998 pelo INPE, restavam apenas 34,22% das áreas nativas remanescentes do Cerrado. Previsões apontam a extinção do bioma até o ano de 2030.  Sendo fica comprometida a geração de energia elétrica para a indústria Brasileira.

A extinção do Cerrado comprometeria também o abastecimento potável em todo o Brasil, já que o fim do bioma representará a extinção dos grandes mananciais de água que abastecem as grandes bacias hidrográficas do país. Apesar do reconhecimento de sua importância biológica, o Cerrado é o que possui a menor porcentagem de áreas sobre proteção integral, tendo apenas 2,85% são unidades de conservação de proteção integral e 5,36% de unidades de conservação de uso sustentável, incluindo RPPNs (0,07%). As águas do cerrado  são importantes também para o abastecimento de aquíferos, principalmente o Aquífero Guarani que possui uma vasta área na América do Sul e com boa parte situada na área do domínio morfoclimático em questão. Por isso, a manutenção dessa importante reserva hídrica subterrânea depende da sustentabilidade desse bioma.

Além disso, é válido mencionar que as águas do Pantanal também são altamente dependentes do Cerrado. Segundo a WWF Brasil, nove em cada dez brasileiros consomem eletricidade gerada por águas do Cerrado, ressaltando que até a hidrelétrica de Itaipu não existiria sem as nascentes existentes na região do Planalto Central.

Assim, mais do que um importante conjunto de recursos hídricos, esse domínio também garante boa parte do potencial hidrelétrico do país. Portanto, é impossível elaborar qualquer tipo de plano de conservação dos recursos hídricos do Brasil sem estabelecer um plano de preservação do bioma Cerrado, um dos mais degradados do país.

Ao todo, milhares e milhares de hectares foram devastados, principalmente ao longo do século XX, o que vem comprometendo a continuidade da vazão dos principais rios do Brasil. Rios mais importantes com nascentes no cerrado; Rio Xingu (Bacia Amazônica) – Rio Tocantins (Bacia do Tocantins-Araguaia) – Rio Araguaia (Bacia do Tocantins-Araguaia) – Rio São Francisco (Bacia do São Francisco)- Rio Parnaíba (Bacia do Parnaíba) – Rio Gurupi (Bacia Atlântico leste ocidental) – Rio Jequitinhonha (Bacia do Atlântico leste) – Rio Paraná (Bacia do Paraná)

“Morre a cada dia um pedaço do Cerrado e de onde vão surgir,o sabiá laranjeira, o beija-flor cantador, a onça pintada, o veado mateiro e a urutu cruzeiro? Quem contará a história do Cerrado brasileiro?” A.D

 

(André Junior, membro UBE – União Brasileira de Escritores – Goiás – [email protected])

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